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Jairo Bouer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vem aí uma nova explosão do sexo?

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Imagem: iStock
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

21/04/2021 04h00

Talvez seja um pouco cedo para prever o que pode acontecer com a vida sexual no mundo quando a pandemia acabar, mas existe uma grade chance de haver um momento, nem que transitório, de uma maior liberdade sexual.

Boa parte dos adolescentes e adultos jovens que levaram o coronavírus a sério ficaram mais isolados, com contato social reduzido e poucos ou nenhum encontro sexual nesse ano que passou. E isso deve continuar por algum tempo pois, ao que tudo indica, pelo menos aqui no Brasil, o risco de que a pandemia se prolongue até o final de 2021 não é pequena.

O que vai acontecer quando tudo passar e as portas de casa forem destrancadas? E quais as possíveis consequências que um retorno com mais "sede ao pote" pode trazer para a saúde sexual das pessoas? Um interessante artigo do The New York Times no último final de semana traz uma análise desse fenômeno.

A atividade sexual diminuiu no mundo

Pesquisas mostram que nos EUA, Reino Unido, Ásia e Austrália 40% a 60% dos adultos reduziram o número de parceiros e o mesmo percentual diminuiu a frequência ou se absteve de sexo durante os períodos de confinamento e lockdowns.

No Brasil, não temos esses dados precisos, mas se levarmos em conta que mesmo com todas as recomendações de distanciamento social (e os poucos momentos de isolamento efetivo) muitas pessoas continuaram a se aglomerar em festas e encontros clandestinos, não seria surpresa uma queda no numero de parceiros e na frequência sexual muito menos aguda do que aquela que foi vista lá fora.

Liberdade vigiada

De qualquer forma, principalmente para os adolescentes e universitários brasileiros que tiveram que se afastar das aulas presenciais e que estão sob os olhares mais atentos dos pais, ou ainda, aqueles que tiveram que deixar suas repúblicas e sua maior autonomia para voltar a viver na casa da família, com certeza a liberdade para a vida sexual esteve bem mais vigiada.

Na mesma direção, muitos adultos que não estão casados nem vivendo com parceiros fixos —e que decidiram encarar as medidas de distanciamento social— entenderam que os momentos de intimidade iam na contramão de todos os cuidados de prevenção ao coronavírus. Se o vírus pode ser transmitido pelo ar e pelas secreções respiratórias, como fazer sexo com segurança? De máscara na cara, álcool gel no corpo e sempre ao ar livre? Não havia e ainda não há maneira 100% segura, e o que se viu foi uma espécie de "gestão de riscos", o que certamente levou muita gente a repensar suas decisões e diminuir o ritmo da vida sexual, pelo menos por alguns períodos.

Os riscos na "retomada"

E o que vem pela frente? Historicamente, depois de longos períodos de privação, uma das saídas comportamentais possíveis é uma tentativa de compensação, de recuperar o tempo perdido. Para os mais jovens, com uma referência de espaço de vida mais curta, esses quase dois anos de distância do "outro" podem ser um gatilho importante para comportamentos sexuais menos refletidos, com menos controle.

Assim, por exemplo, o risco de um menor uso de preservativo e de outros métodos anticoncepcionais (que já andavam baixos) pode ficar ainda mais comprometido. Com isso, existe a possibilidade de um aumento das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) e de gestações não planejadas.

Para piorar a situação, o desmonte dos projetos de educação sexual que escolas e redes públicas de todo o país têm assistido, em função de governos mais conservadores, torna ainda mais precária a possibilidade de uma resposta preventiva por parte dos educadores.

Um ano longe da prevenção

Bom lembrar também que, além do afastamento da população dos serviços de saúde no último ano (principalmente para medidas de controle e de prevenção), muitas garotas e mulheres em idade fértil podem ter deixado medidas de contracepção de lado, já que não vinham tendo uma vida sexual ativa.

Da mesma forma, na questão das estratégias de prevenção combinada, pessoas que vinham fazendo uso de PrEP (profilaxia pré-exposição ao vírus HIV) podem ter abandonado o método, diminuído a frequência das checagens e retirado menos insumos para a prevenção (como camisinhas) nos postos de saúde.

Moral da história: a pressão para a retomada da vida sexual, em que impulso, desejo e liberdade talvez falem mais alto do que cuidado e razão, aliada a um "desmonte" de algumas estratégias individuais e coletivas de proteção, pode colocar em risco a saúde sexual de parte da população.

Para contornar esse risco, seria importante que se discutisse essa questão (em casa e nas escolas), que os projetos de educação sexual fossem retomados da forma mais ampla possível, que os serviços de atendimento em saúde sexual estivessem a pleno vapor e que as autoridades retomassem seu trabalho em prevenção o mais rápido possível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL