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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um vírus não é ideológico, é matemático: faça sua parte nessa equação

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

02/03/2021 04h00

No momento em que o Brasil enfrenta os piores índices da covid-19 desde o início da pandemia, boa parte da população parece extremamente resistente a adotar medidas básicas de comportamento social (evitar aglomerar, usar máscara, ficar em casa) que poderiam ter um impacto dramático na velocidade de espalhamento do vírus.

Um estudo preliminar divulgado na última semana mostra que entre menores de 60 anos a "carga viral" da variante brasileira P.1, que já está presente em praticamente todo o país, atinge um índice dez vezes maior do que os tipos de coronavírus que circulavam anteriormente. Em resumo, ela traz um risco potencialmente maior de ser transmitida.

Biologia e matemática

Vírus não é um ser político ou ideológico, ele é matemático: só precisa de uma chance. Não tem cérebro, nem maquinário próprio, possui apenas um material genético (um código) que precisa invadir células alheias para se replicar.

Esse código muda aleatoriamente conforme mais chances o vírus tem de se multiplicar (a mutação acontece por uma espécie de erro aleatório). Mutações poucos efetivas (um vírus que não consegue se ligar às células, por exemplo) são menos transmitidas e desaparecem. As mais efetivas "ganham espaço" e passam a predominar. Isso se chama evolução e funciona para qualquer ser vivo.

O que define se uma mutação é mais ou menos efetiva em um dado momento é uma condição ambiental que pode ser casual e transitória. Se você tem um vírus menos infeccioso e mais resistente no meio externo, ele poderia sobreviver mais tempo em superfícies e não precisaria necessariamente de aglomerações. Se ele é supertransmissível, graças às suas propriedades de invasão, quanto mais gente junta, melhor. O comportamento social dando aí uma "forcinha" extra para o vírus.

Assim, um bando de humanos bebendo e comendo uns ao lado dos outros em uma balada ou bar, em uma convidativa noite de verão ou em uma animada festinha clandestina pode criar a situação ambiental perfeita para o coronavírus, independentemente do tipo de variante. Com uma variante mais "potente", a tragédia é maior. Não é à toa que os sistemas de saúde de diversas regiões do país estão colapsando, um atrás do outro, justamente quinze dias depois do Carnaval.

Catástrofe anunciada

É a crônica de uma catástrofe anunciada. Foi assim depois das festas de final de ano, e era 100% previsível que assim fosse depois do comportamento gregário de uma turba sedenta por verão, férias e festa, ainda pior diante de um ser oportunista que não escolhe alvos, simplesmente aproveita oportunidades.

E aqui chego ao meu ponto. Por que parte de nós segue insensível a tudo que vem sendo explicado pela ciência dia após dia? Será que por um individualismo narcisista, absolutamente alheio à lógica e ao sofrimento alheio? "Alô", humanos: somos mais que vírus que apenas encontram chances, somos cérebro também, e assim devemos pensar, refletir, medir e tomar decisões acertadas, não?

Na sua coluna dessa semana, a jornalista e colunista da Folha de S.Paulo Lúcia Guimarães sugere que o "individualismo áspero" norte-americano ajuda a explicar por que o país responde por 20% dos mortos e 25% das infecções por coronavírus no mundo. Por aqui, já somos responsáveis por cerca de 10% das mortes globais e, a continuar nesse ritmo, vamos dobrar os casos em oito meses, e atingir meio milhão de vidas perdidas até o final do ano.

Onde fica então o pensar no coletivo? Se fossemos mais lógicos enquanto grupo, no mínimo, reduziríamos riscos. Como? Você já sabe as respostas e não vou repetir o óbvio. A questão é que enquanto alguns povos têm a sorte de um líder ou um sistema que conduz uma resposta organizada, outros são assolados por uma coordenação capenga, quando não negacionista, que discute, a essa altura do desastre, o direito de usar ou não máscara em locais públicos, insiste em tratamentos inócuos e questiona a validade de uma vacina.

A Nova Zelândia "fechou" Auckland novamente nesse final de semana, após um único caso positivo. Claro que ninguém mais aguenta ficar em casa, mas essa não é a equação necessária enquanto não há vacina para todos?

Wuhan, na China, após um lockdown sério e rígido, praticamente zerou as transmissões três meses depois dos primeiros casos e está há dez meses sem registrar uma única morte por covid-19 na cidade. Com vigilância e cuidado, há uma unidade, uma consciência coletiva que fez a vida voltar quase ao normal.

O Reino Unido, depois de um final de ano com aumento importante de casos, se "fechou" também por quase oito semanas, e mesmo com um processo de vacinação muito mais efetivo que o brasileiro, que já imunizou mais de 20 milhões de pessoas, só agora começa a colocar em prática algumas flexibilizações, como a abertura gradual das escolas na próxima semana.

Enquanto isso, aqui parece haver uma miopia egocêntrica que insiste em não enxergar a absoluta situação de excepcionalidade desse momento. O mundo não vive nada parecido, em escala global, desde a segunda grande guerra. Mas muita gente continua achando que é mais importante um churrasco com a galera, uma rodinha de samba com uns 30 amigos, um bom banho na piscina lotada de um resort ou uma baladinha para beber e relaxar com a turma.

Sim, tem gente que precisa trabalhar todos os dias e não pode fazer isso em casa. Tem que pegar ônibus, metrô ou avião para não deixar a roda da economia paralisar o país. Será que justamente em respeito a essas pessoas, o pensar no coletivo não é ainda mais importante? Ao ver pessoas sem fôlego (ou até sem oxigênio ou vaga na UTI), o que é mesmo que faço? "Bora viajar e aglomerar com os amigos que eu mereço, né?"

Aqui, no país que nunca viveu um lockdown de verdade, em que não houve a mínima coordenação central, em que as decisões iam sendo tomadas individualmente por prefeitos e governadores, a depender do cenário local, chegamos na última semana ao pior momento da pandemia até agora, com risco de piorar ainda mais. E, mesmo assim, o comportamento de muitos continua focado não no cérebro, mas no umbigo. Pode?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL