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Jairo Bouer

Vida e morte em tempos de covid-19: a realidade parece ficção

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Imagem: iStock
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do UOL

30/01/2021 04h00

Nesses tempos distópicos que estamos atravessando, com milhões de pessoas morrendo em todo o mundo por conta do novo coronavírus, sistemas de saúde, de registro de óbitos e funerários colapsando em função do número assustador e rápido de mortes, peço licença nesta coluna para refletir um pouco sobre a vida e a morte. Segue:

Cena 1

Ramon acorda, olha para o teto de sua casa na Galícia (Espanha), respira dolorosamente, enxuga as lágrimas com o dorso das mãos e pensa em como será difícil suportar mais um longo dia de saudade da esposa, dona Rogelia, com quem foi casado por cinco décadas, levada há 10 dias pela covid-19.

Prepara um café coado, senta na pequena mesa da cozinha, e seu olhar perdido fica parado no portãozinho do jardim. A imagem de dona Rogelia aparece, carregando sua inconfundível bolsa florida e um saquinho de pães fresquinhos. O perfume da esposa e o cheiro dos pães invadem a casa.

Ele está vendo as memórias ganharem corpo na sua frente quando o telefone toca: ouve a voz do médico, que, entre constrangido e feliz, traz a boa notícia: "Senhor Ramon, houve um erro de nossa parte e sua esposa, na verdade, está viva. Não foi ela a enterrada e, sim, alguém que, com o caixão lacrado, teve a identidade trocada com a da dona Rogelia".

Cena 2

Uma mulher de 54 anos, prestes a se despedir da mãe de 84 anos, internada no dia anterior em uma UTI e vítima de uma parada cardiorrespiratória fatal, causada pelo novo coronavírus, está no crematório da cidade de Resistência (Argentina), quando percebe que a máscara da falecida (uma exigência sanitária das autoridades locais) se movimenta, como se a mãe ainda continuasse a respirar.

Assustada com a possibilidade de a mãe ser cremada viva, avisa os responsáveis que constatam que a senhora, embora com sinais vitais fracos, não estava morta. Ela é levada, então, novamente ao hospital.

No dia seguinte ao episódio, a idosa morre. Nada parecido acontecia na região há mais de um século, quando os recursos disponíveis para se certificar a morte eram muito mais precários do que temos hoje em dia. A pergunta que deve passar pela cabeça da filha: será que minha mãe estaria morta hoje, se não tivesse saído do hospital?

Histórias surreais: ficção?

Embora as histórias acima pareçam tiradas de filmes de suspense, ambas aconteceram e foram noticiadas aqui no UOL na última semana. Ramon e Rogelia existem e seguem juntinhos e felizes em Xove, na Galícia. Já a triste história da mãe e da filha no crematório aconteceu aqui na nossa vizinha Argentina.

A situação caótica que estamos atravessando abre brechas para que situações surreais como essas, onde o limite entre vida e morte se torna nebuloso, possam acontecer eventualmente em qualquer cidade do mundo.

O que tenho certeza é que qualquer uma das famílias dos quase 225 mil brasileiros e brasileiras mortos por causa da covid-19 gostaria que essa confusão tivesse acontecido em suas casas, e que seu pai, mãe, filho, parceiro, pudesse entrar novamente em casa, como se tudo tivesse sido um grande engano.

Mas a realidade se impõe dura e cruel, e esse desgoverno e as pessoas que insistem em negar a gravidade do momento, em atrapalhar as medidas de prevenção e proteção, e a retardar o processo de vacinação da população só fazem com que, a cada dia, mais e mais famílias fiquem enlutadas, torcendo e rezando para seus amados pudessem voltar vivos e bem para casa, como seu Ramon e dona Rogelia.