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Jairo Bouer

Fantasias sexuais na pandemia estão liberadas; realizá-las é outra história

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Imagem: iStock
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Fez residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP. Nos últimos 25 anos tem trabalhado com divulgação científica e comunicação em saúde, sexualidade e comportamento nos principais veículos de mídia impressa, digital, rádios e TVs de todo o país.

Colunista do VivaBem

02/12/2020 04h00

A covid-19 mexeu com diferentes aspectos da nossa vida, e o comportamento sexual não poderia ficar de fora. Ainda que muita gente tenha conseguido se manter num estado de negação desde o início da pandemia, a maioria das pessoas sentiu os efeitos do isolamento social na vida íntima. Com ou sem possibilidade de sexo, muita gente passou a fantasiar mais, o que é positivo, mas também pode gerar preocupações.

Uma pesquisa feita pelo Instituto Kinsey, nos EUA, que realiza estudos sobre sexualidade desde 1947, mostrou que, para compensar os prejuízos da pandemia sobre a vida sexual, muita gente decidiu investir em novidades nos últimos meses, como usar mais a tecnologia ou compartilhar fantasias com parceiros.

O mesmo estudo sugere que cerca de um terço das pessoas passou a fantasiar mais nos últimos meses. Aumentar a excitação, escapar da realidade, relaxar ou compensar a falta de sexo foram as principais razões apontadas para essa mudança de comportamento.

Ajuda extra para a imaginação

A venda de brinquedos eróticos pela internet disparou na pandemia, segundo vários levantamentos noticiados no Brasil e também fora do país. A busca por vídeos pornográficos também teve um forte pico no primeiro semestre, de acordo com o Pornhub, plataforma com 130 milhões de visitantes por dia.

Diante do número crescente de estudos que têm apontado problemas no consumo excessivo desse tipo de conteúdo, a plataforma até lançou, no mês passado uma série de vídeos educativos para ajudar os homens mais jovens a lidar com o sexo real, que é tão diferente do retratado nos vídeos pornográficos.

Não é de se espantar que, diante de tantas possibilidades permitidas pela tecnologia, muita gente se flagre, ou flagre o outro, em situações delicadas. Uma leitora, por exemplo, me contou há pouco tempo ter descoberto que o namorado havia entrado num aplicativo de paquera gay. Ela questionava se aquilo era traição, se era prova de que o parceiro sente atração por homens e, ainda, se deveria continuar com ele. Claro que só ela poderia descobrir as respostas, depois de uma boa conversa com o parceiro.

Meu namorado entrou num site de paquera gay. É traição, Jairo?

Quando vale a pena colocar em prática?

Algumas pessoas podem fantasiar com alguém do mesmo sexo e nunca sentir necessidade de transformar aquela ideia em realidade. Mas há quem não abra mão de experimentar, até para entender melhor seu próprio desejo. Qualquer que seja a decisão, se você está num relacionamento é importante que todos os envolvidos estejam de acordo com ela, ou alguém pode se machucar.

Algumas vezes, porém, a pergunta a ser feita é por que não colocar o desejo em prática? Numa live recente, a gente recebeu o relato de um cara de 39 anos, gay não assumido. Ele nunca havia namorado e perguntava se isso é o que o levaria a ser tão fascinado por homens, principalmente os musculosos. "Eu gosto demais de homem, doutor, demais, demais, demais", dizia ele. Nesse caso, desejo e orientação sexual estão perfeitamente alinhados. Será que é saudável lutar contra isso?

Via de regra, ninguém precisa ter medo de fantasiar. Usar a imaginação, aliás, pode trazer muitos benefícios numa fase como a atual, em que muitos casais têm vivido conflitos e a "pegação" pode colocar gente em risco por causa da covid-19. Mas lembre-se que algumas fantasias podem ser realizadas, se houver consentimento de todas as partes envolvidas. Outras você pode guardar só para você. Se alguma delas virar obsessão, fizer mal a você ou a alguém, vale a pena procurar ajuda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL