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Escritor investiga papel dos trans em novelas: "Agora eles têm relevância"

Ivana (Carol Duarte) de cabelos curtos em sua transição em "A Força do Querer" - Estevam Avellar/TV Globo
Ivana (Carol Duarte) de cabelos curtos em sua transição em "A Força do Querer" Imagem: Estevam Avellar/TV Globo

Carlos Minuano

Colaboração para Universa

13/12/2020 04h00

O personagem trans Ivan, interpretado pela atriz Carol Duarte, de "A Força do Querer", representa um divisor de águas na abordagem da temática LGBT em novelas brasileiras. Quem afirma é Lalo Homrich, autor do livro "Transexuais em Telenovelas" (editora Insular), que acaba de ser lançado. Segundo ele, pela primeira vez, em 2017, quando a novela estreou, a transição de gênero foi mostrada com riqueza de detalhes, abordando sentimentos que invariavelmente fazem parte do processo.

A novela, escrita por Gloria Perez e agora reprisada pela TV Globo, também avança ao trazer a personagem Mira, vivida pela atriz trans Maria Clara Spinelli. É uma reivindicação antiga dos artistas transgêneros poderem interpretar papéis independentemente da transgeneridade, diz o autor. "São atores, podem fazer qualquer papel."

A trama traz ainda um terceiro personagem LGBT, o Nonato (Silvero Pereira), que durante o dia é motorista, e à noite se transforma na drag queen Elis Miranda.

Mas, nem sempre foi assim. Falar de assuntos como esse, para além dos estereótipos, já deu problema. Um caso exemplar, lembrado no livro, é o do casal de lésbicas Leila e Rafaela de "Torre de Babel", novela de Silvio de Abreu, que foi ao ar em 1998. "Elas morreram na explosão de um shopping porque não foram aceitas pelo público da época", conta o escritor. "Era delicado falar sobre essa temática."

Entender como nascem, e em alguns casos por que morrem, e mostrar a evolução da construção de personagens do universo LGBT é o desafio a que se propõe o livro "Transexuais em Telenovelas."

O autor mergulhou no tema para sua tese de doutorado em comunicação. Homrich conta não ter encontrado referências bibliográficas suficientes para o tamanho da empreitada. E aí o jeito foi perguntar para quem faz as novelas.

Homrich trabalha na TV Globo desde 2016. Ele começou na área de jornalismo em uma afiliada da emissora em Florianópolis, e no Rio de Janeiro atuou como roteirista nos programas Encontro com Fátima Bernardes e Caldeirão do Huck. Atualmente ele estreia como colaborador em "Nos Tempos do Imperador", de Thereza Falcão e Alessandro Marson, próxima novela das seis.

O autor ouviu o diretor-executivo Carlos Henrique Schroder, a autora Gloria Perez e a atriz Carol Duarte, além de pesquisadores e especialistas.

O livro resgata um bom apanhado de personagens LGBTs que começaram a surgir ainda na década de 1970. Mas, a pesquisa se concentra em três casos: Ramona, primeira transexual da TV, vivida por Claudia Raia na novela de Silvio de Abreu, "As Filhas da Mãe", em 2001; Dorothy, a segunda trans, interpretada por Luis Miranda em "Geração Brasil", de Filipe Miguez e Izabel Oliveira, de 2014; e Ivan, homem trans de "A Força do Querer".

Como se faz um personagem

No livro, o autor procura revelar os bastidores da construção dos personagens e da estrutura complexa por trás deles, e faz ainda projeções para o futuro dessas narrativas no país.

O resultado é um retrato panorâmico das transformações nas novelas da Globo ao longo de décadas até o momento atual, sobretudo na evolução do tipo de abordagem da população LGBT. "Personagens hoje ganharam mais espaço e relevância nas tramas", analisa Homrich.

"Quando esses personagens começam a aparecer em novelas, ainda na década de 1970, a construção era cheia de estereótipos e caricatural", analisa o autor. O tratamento só começa a mudar de fato mais de 20 anos depois, e timidamente.

Ele relembra, como exemplo desse ponto de virada, a primeira travesti, Sarita Vitti em 'Explode Coração', embora na época isso não tenha ficado explícito na trama de Glória Perez exibida em 1995. "Hoje ela seria uma transexual vendo o discurso que emprega na novela."

O autor cita também o casal gay interracial Sandrinho e Jefferson na novela "A Próxima Vítima", de Silvio Abreu, no mesmo ano de 1995. "Eles contam para as famílias sobre a orientação sexual deles, tem essa coisa didática de mostrar como tratar esses assuntos."

Com a ajuda da TV Globo, o autor mapeou personagens LGBT ao longo de mais de 50 anos. São identificados mais de uma centena de personagens, sendo que a maioria deles, 93, são gays. A lista traz ainda 28 lésbicas, 15 bissexuais, um intersexual, quatro travestis, três drags, dois crossdressers e três transexuais.

Evolução dos personagens trans

No livro, o autor de novelas Silvio de Abreu conta que a primeira personagem trans em uma novela brasileira, a Ramona, de "As Filhas da Mãe", foi criada sem nenhum tipo de pesquisa, debate ou pretensão de dar um lugar ao transgênero nas tramas da emissora. "Era uma novela anárquica, uma comédia, queria fazer a história de um homem muito machista que se apaixona por uma mulher sem saber que ela tinha sido um homem."

Ainda assim, Abreu reconhece que a personagem abriu caminhos para discutir o tema. "O que a novela faz de melhor é colocar assuntos em pauta", diz. "A partir do momento que mostramos que um homem pode se apaixonar por um transgênero, o que impede os dois de ficarem juntos é o preconceito."

"O Brasil nunca tinha visto uma mulher trans sendo representada", observa Homrich sobre a trama. Sem referências no universo das novelas, o autor diz que Claudia Raia buscou inspiração na Roberta Close, transexual famosa e que na década de 1980 foi capa da revista Playboy.

A segunda personagem, Dorothy, interpretada por Luis Miranda em "Geração Brasil" na opinião do autor representou outro salto importante no tratamento do tema, por inserir no debate o racismo. "É uma mulher trans negra, rica, não marginalizada, assistente pessoal da protagonista e importante na trama."

Para o autor o que separa os dois primeiros personagens de Ivan em termos de evolução na construção narrativa está principalmente no processo de transição. Ramona e Dorothy já nascem como personagens trans na novela. "'Força do Querer' mostra o sentimento interno da pessoa que quer assumir o seu gênero e não entende muito bem o que acontece dentro dela."

Primeiro beijo gay

Ao fazer um retrospecto histórico, o livro também repassa momentos marcantes, que permitem um olhar mais panorâmico sobre como as transformações nas narrativas ocorreram a passos lentos.

Por exemplo, o primeiro personagem LGBT apareceu na novela "Assim na Terra Como no Céu", de Dias Gomes, em 1970, ainda durante a ditadura militar. Foi o costureiro gay Rodolfo Augusto, interpretado por Ary Fontoura. Mas o primeiro beijo só rolou mesmo no último capítulo de "Amor à Vida", de Walcyr Carrasco, em 2014, mais de quatro décadas depois, entre Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano).

Já o primeiro beijo entre uma mulher trans e um homem cisgênero veio acontecer em 2019, na novela "A Dona do Pedaço" também de Walcyr Carrasco. O momento tão esperado aconteceu no casamento de Britney (personagem vivido pela trans Glamour Garcia) e Abel (Pedro Carvalho).

Para o autor, o avanço da abordagem da transexualidade nas novelas mostra que, se o tema for tratado da forma, correta não tem rejeição. "Os três personagens que abordo no livro foram muito bem construídos, e o público entendeu. Tudo depende de como essas histórias são contadas."

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