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ONG usa jiu-jitsu como arma de autodefesa e autoestima para pessoas trans

Turma de jiu-jitsu da ONG LGBT Casa Transformar, em Fortaleza - Arquivo pessoal
Turma de jiu-jitsu da ONG LGBT Casa Transformar, em Fortaleza Imagem: Arquivo pessoal

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

29/11/2020 04h00

Até o fim de agosto, o Brasil registrou, pelo menos, 129 assassinatos de travestis e transexuais neste ano, um aumento de 70% em relação ao mesmo período do ano passado. Dos estados onde eles mais morrem, o Ceará atualmente ocupa o quarto lugar, informa um levantamento recente da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Em meio a essa dura realidade, a travesti e cantora de funk Nik Hot, fundadora da ONG LGBT Casa Transformar, em Fortaleza, foi surpreendida com uma oferta inusitada. Um professor de artes marciais se dispôs a dar aulas de jiu-jitsu de graça, na instituição, para empoderar jovens transexuais e travestis em situação de vulnerabilidade acolhidos no local.

Nik aceitou a oferta, e a iniciativa acontece no abrigo, às manhãs de terça, desde outubro. A ideia é que a aula não sirva apenas para ensinar noções de proteção física e autodefesa. Com ela, os alunos da Casa também são levados a refletir e discutir sobre suas dificuldades e aprendem como o esporte tem potencial para transformar suas vidas.

Esporte com foco nas minorias

jitsu - Divulgação - Divulgação
ONG LGBT Casa Transformar, em Fortaleza
Imagem: Divulgação

Entre os resultados positivos já alcançados, algumas academias de Fortaleza se dispuseram a abrir turmas inclusivas e cederam quatro professores voluntários para somar esforços na ONG, além de desenvolver com ela uma cartilha de como trabalhar o esporte com pessoas trans e travestis.

O pontapé inicial foi dado digitalmente pelo Instagram do abrigo, que, em março deste ano, recebeu uma mensagem do professor Milton Leite, que atua como voluntário há duas décadas. Ele sempre seguiu na rede social o trabalho de assistência que a Casa realiza com jovens excluídos do convívio familiar e social por terem assumido sua identidade de gênero e orientação sexual.

"Somos um espaço criado há pouco mais de um ano para acolher LGBTs. Quando abrem vagas, eles podem dormir, comer e ficar aqui o tempo que for necessário. E ainda temos buscado oferecer profissionalização", explica Nik.

"Entre as pessoas que já apareceram para nos ajudar, o professor Milton é uma delas. Por conta da pandemia, adiamos a parceria e só há cerca de dois meses achamos que seria um bom momento para começar a oficina. Não tínhamos equipamentos, então ele também nos ajudou com doações de tatame e quimonos."

Atualmente, sete travestis e transexuais dividem a moradia, que se mantém exclusivamente de doações esporádicas e da renda de um bazar que funciona em suas dependências. O dinheiro arrecadado com a venda de roupas, calçados e brinquedos seminovos ou usados é revertido para alimentação e outras demandas.


Tatame da diversidade

De maneira espontânea, cinco pessoas da casa quiseram aderir às aulas. As atividades são divididas em dois momentos: o primeiro é dedicado a reflexões sobre o jiu-jitsu, defesa pessoal e outros temas, como transfobia, nomenclaturas de gênero e inclusão de trans e travestis no esporte. No segundo, a "teoria" cede vez para a prática das atividades físicas.

"Além de exigir do físico, o jiu-jitsu trabalha muito a saúde mental e a questão do autocontrole", diz Emily Alves, uma das alunas. "O professor ensina que a pior atitude diante de uma situação de violência é partir para o ataque. Então, somos orientadas a ter paciência para que nada de pior aconteça e a analisar o que está a nossa volta, como o número de pessoas e se existe a presença de alguma arma", diz.

"O sentimento de insegurança está relacionado não apenas com a agressão física, mas com a maneira como somos desrespeitadas, como quando não nos chamam pelo nosso nome social. E, graças ao jiu-jitsu, já noto uma mudança em mim nesse sentido, pois me sinto mais forte e segura para argumentar e sair de um problema", diz Lara Safyra, outra aluna.

Além disso, Nik, que também participa das aulas, considera que o que se aprende no jiu-jitsu pode ser aplicado para vencer outros desafios do dia a dia. "É uma arte marcial que carrega toda uma filosofia de correr atrás dos seus sonhos e objetivos, de não desistir deles. E isso, direcionado para a nossa realidade, nos faz perseverar por oportunidades profissionais, por mais direitos e igualdade", explica.

Ajudar os vulneráveis a vencer os mais fortes

Inventado no Japão e desenvolvido no Brasil desde o início do século passado, o jiu-jitsu é uma modalidade marcial baseada na inteligência, paciência e disciplina. "Também tem por característica ajudar os mais vulneráveis a vencerem os mais fortes", explica o professor Milton. "Por acreditar nisso é que resolvi doar parte do meu tempo e desenvolvê-lo na casa."

Em se tratando de defesa pessoal, o professor diz que ensina a sua turma a neutralizar o adversário sem precisar machucá-lo e que a orientação que dá é sempre não reagir. Exceção mesmo só em situações extremas, quando a aluna corre risco de vida e foi agarrada ou está sofrendo uma tentativa de sufocamento, imobilização ou abuso sexual, por exemplo.

"Mas o jiu-jitsu vai além. Tem entrado na vida dessas pessoas como autovalorização e autoconhecimento para que se fortaleçam e consigam enfrentar os desafios lá fora. E como uma possibilidade de trabalho, o que já vem acontecendo com quem vem da periferia", diz Milton.

No momento, por conta da pandemia do novo coronavírus, as aulas de jiu-jitsu na ONG Casa Transformar são oferecidas apenas para as pessoas trans e travestis acolhidas, mas o objetivo, depois que essa situação passar, é ampliar a ação para que mais LGBTs possam ter acesso.

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