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Pandemia no banheiro: venda de bidês explode nos EUA e sugere novo hábito

Bidê da Tushy, com controlador de fluxo de água fria - Reprodução/Instagram
Bidê da Tushy, com controlador de fluxo de água fria Imagem: Reprodução/Instagram

Fernanda Ezabella

Colaboracão para Universa, de Los Angeles

09/09/2020 04h00Atualizada em 09/09/2020 16h50

Quando a pandemia se instalou nos Estados Unidos, uma revolução silenciosa foi finalmente consagrada na intimidade dos banheiros dos norte-americanos: o bidê tomou o trono. As vendas explodiram no país, e muitas lojas esgotaram seus estoques.

Keith Chamblin, dono da Hygiene For Health, que se intitula o maior e mais tradicional vendedor de bidês dos Estados Unidos, viu suas prateleiras esvaziarem em março. "Em 30 anos de empresa, nunca vi nada parecido. As pessoas ligavam para comprar um, dois, três bidês", disse. "Os fabricantes disseram que o mesmo aconteceu na Austrália e um pouco na Europa, mas nada como nos EUA."

Não se trata do bidê clássico de porcelana instalado ao lado da privada, embora o nome tenha colado. Trata-se de um acessório acoplado ao vaso comum que transforma a privada num bidê, com um controle lateral para o fluxo de água. Há também o assento completo, como os popularizados no Japão nos anos 1980.

"Com a guerra de papel higiênico, os usuários apaixonados pelo bidê saíram das sombras para compartilhar suas experiências. Eles não estavam preocupados com falta de papel", disse a Universa Steve Scheer, presidente da Brondell, empresa de San Francisco, nos EUA, especializada em bidês. "Por alguns meses durante a pandemia, tivemos 400% de aumento na demanda."

O assento completo pode ter firulas viciantes como água quente e odorizador, ao custo de algumas centenas de dólares. Já o acessório é muito mais em conta, pode ser instalado facilmente debaixo do assento tradicional e oferece um jatinho de água fria a preços que variam entre US$ 70 e US$ 150.

"Foi uma loucura. Tivemos nosso primeiro dia de US$ 1 milhão [cerca de R$ 5,35 milhões] em vendas durante a pandemia", afirma por telefone Miki Agrawal, cofundadora da Tushy, que vende os acessórios online e tem uma das campanhas de marketing mais agressivas do mercado. "Os números estabilizaram, mas ainda estamos vendendo 10 vezes acima do que em 2019."

Tradição francesa x americana

O bidê clássico, criado na França no final do século 17, nunca pegou nos Estados Unidos apesar de inúmeras tentativas. Soldados americanos na Segunda Guerra Mundial foram apresentados à novidade ao frequentar prostíbulos na Europa, o que acabou associando o vaso a práticas pouco nobres e também à higiene feminina --o bidê era usado como contraceptivo e para limpeza de menstruação.

Mas o assento com chuveirinho acoplado tem história nos EUA. Em 1928, John Harvey Kellogg, o mesmo do cereal Kellogg, patenteou uma versão similar e, em 1964, outro americano tentou emplacar algo parecido para tratar hemorróidas, ambos sem sucesso. A ideia acabou aprimorada pelos japoneses décadas depois.

bidê de louça - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Foi uma viagem ao Japão que fez a cabeça dos fundadores da Brondell, criada em 2003. "Chegamos cedo à festa. Rapidamente percebemos que seria bem difícil introduzir algo tão novo nos EUA", disse o presidente Steve Scheer. "Nos primeiros seis anos, quase quebramos."

Devagar, a empresa criou uma base de clientes que espalharam a novidade no boca a boca. Nos últimos cinco anos, a competição aumentou bastante e provou o interesse do norte-americano pelo acessório, que promete limpar melhor e poupar papel higiênico. Hoje, já há muito mais fabricantes e importadores no mercado, sem contar as inúmeras firmas chinesas que vendem acessórios de plástico na Amazon por até US$ 35.

Marketing fala em bunda e ri do constrangimento

miki - Divulgação - Divulgação
Miki Agrawal, da Tushy
Imagem: Divulgação

Miki, da Tushy, investiu no marketing voltado aos millennials, sem medo de falar em bunda, cocô e limpeza anal. A executiva já tinha uma boa experiência em temas tabus ao criar a Thinx, uma marca de calcinhas para o fluxo menstrual.

Numa festa da Tushy em 2018, em Williamsburg, em Nova York, os docinhos tinham formato de cocô, e as bebidas jorravam de um jatinho Tushy. Os convidados aprendiam a fazer bolinhas anais, enquanto um educador sexual falava sobre os prazeres do sexo anal.

"Todo mundo faz cocô. Sou mãe de um menino de três anos, falo de cocô o tempo todo", disse Miki a Universa, cuja mãe é japonesa e o pai é indiano, duas culturas acostumadas com o bidê. "Quando não falamos de algo e isso vira um tabu, há muito pouco espaço para inovação."

No site, a Tushy usa uma linguagem direta e engraçadinha, e lança mão da questão ambiental para tentar tornar seu produto uma necessidade.

"Você entraria no chuveiro para tomar banho e usaria só papel para se limpar? Ou, se um passarinho caga na sua jaqueta, você usa só papel ou passa uma água também?", pergunta Miki, sem papas na língua. "É a mesma coisa quando cagamos. De alguma forma, fomos doutrinados a usar papel para limpar a parte mais suja do nosso corpo."

A empresa entrega no Brasil, mas está à procura de parceiros na América do Sul e promete um site em espanhol em breve. "O Brasil é um grande mercado para nós. Sabemos que o brasileiro se importa e cuida muito bem dessa parte do corpo", disse.

Papel higiênico do futuro

Os EUA são os maiores consumidores de papel higiênico do mundo, com algumas estatísticas apontando para média de uso de dois rolos por semana por pessoa. Para Agrawal, a obsessão pelo rolinho é porque os americanos nunca foram apresentados a outras opções desde a chegada do papel higiênico ao país em 1890.

No início da pandemia, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, filas nos supermercados eram formadas por pessoas focadas em estocar o material.

Mesmo George Costanza, personagem da série "Seinfeld" nos anos 1990, consegue impressionar uma namorada com essa ideia. "Você tem noção de que o papel higiênico nunca mudou durante toda a minha vida? E daqui a dez mil anos, vai continuar sendo exatamente igual? Porque, realmente, o que pode ser inventado para melhorar?", filosofa George.

Bem, segundo Miki, muito pode ser melhorado. Além do acessório para acoplar no assento da privada, a Tushy vende papel higiênico de bambu e promete um novo modelo que vem numa caixa e permite a saída de apenas uma folhinha de cada vez. "Não é para ficar enrolando o papel na mão. Duas folhinhas bastam para se secar. Você economiza de todos os jeitos", diz.

George também não previu os lenços umedecidos, uma mania que tomou os EUA nos anos 2000, hoje uma indústria que movimenta US$ 2 bilhões. O novo hábito, no entanto, vem causando problemas sanitários de primeiro mundo: os lenços não se desintegram totalmente depois de descartados no vaso sanitário e se aglomeram em grandes bolas monstruosas entupindo as redes de esgoto do país.

Para os entusiastas, água continua sendo a melhor opção, ecológica e higiênica, para limpar o número dois. Esse segmento da indústria espera crescimento anual de 20% pelos próximos cinco anos nos EUA, diz Steve Scheer. "O bidê moderno é para homens e mulheres. E se tem assento aquecido, água quente e controle remoto, qual a razão para não experimentar? É uma viagem sem volta", profecia.

E no Brasil?

Depois de a tradição francesa de manter uma louça com jato de água ao lado do vaso sanitário, comum em meados do século passado, o bidê caiu em desuso nas casas brasileiras —apesar de ainda poder ser encontrado em parte delas.

Com banheiros cada vez menores, veio a ducha higiênica, instalada ao lado do vaso sanitário como um chuveirinho, e encontrada amplamente nos imóveis construídos nos últimos anos. Ela pode ser comprada por cerca de R$ 60, enquanto um bidê tradicional custa R$ 200.

Já o sistema que faz sucesso hoje nos Estados Unidos ainda é tímido no Brasil: uma pesquisa em lojas de materiais para construção indica uma empresa com sede no Japão, que aposta em um produto tecnológico de R$ 3.800, e uma importadora que traz o produto da China, por R$ 249,90, na versão com água fria.

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