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Em busca do 'corpo perfeito', gays sofrem para serem aceitos: "Torturante"

Caio mostra foto de "antes e depois" de aceitar corpo gordo; pressão o levava a dietas restritivas  - Reprodução
Caio mostra foto de 'antes e depois' de aceitar corpo gordo; pressão o levava a dietas restritivas Imagem: Reprodução

Marcos Candido

De Universa

17/03/2020 04h00Atualizada em 18/03/2020 09h48

Caio Revela, 30, teve anorexia aos 15 anos e fez dietas "à base de nada" para emagrecer. Aos 20, começou mais uma dieta, alimentando-se apenas de coisas consideradas saudáveis e sofreu com dezenas de paranoias sobre o corpo. Assim, perdeu 60 quilos. Nas duas ocasiões, o objetivo era o mesmo: emagrecer para se tornar mais aceito e atraente.

O corpo magro foi mantido por quatro anos. Quando retomou os quilos antigos, Caio foi recepcionado na comunidade "bear", formada por gays fora dos padrões magros ou musculosos. Apesar disso, até mesmo entre os ursos encontrou restrições e críticas relacionadas ao peso.

Homem objeto

O caso de Caio não é isolado. Como ele, muitos homens da comunidade gay sofrem para se manter dentro de um determinado padrão. "Por ser excluído de tanta coisa, o homem gay não quer sofrer mais essa exclusão. Ele pensa que ser não for sarado, não vai conseguir transar, beijar na boca, ser visto na balada. É como se a vida dele começasse a partir de ter o corpo magro", diz. "A busca pelo corpo perfeito adoece física e mentalmente. E, muitas vezes, é uma busca por algo inalcançável."

No início do mês, o debate veio à tona por um artigo do psiquiatra Bruno Branquinho. No texto, ele conta como um paciente de 45 anos narra a ida à academia como uma obrigação da idade. "Você sabe como é, já estou velho. Se eu não me cuidar, ninguém vai me querer", disse o homem.

Em entrevista a Universa, Bruno diz não ter uma explicação definitiva para o desconforto. Mas tem alguns palpites: desde pequeno, a família e a sociedade estimulam os homens a serem viris e a explorarem o próprio corpo. O estímulo dado desde pequeno não tem a ver com a orientação sexual, afeta a homens gays e héteros antes até de compreenderem a própria sexualidade, quando pais sugerem "levá-los a prostíbulos ou estimulá-los a serem 'comedores'", diz.

"Uma coisa que vemos em pesquisa é que, por exemplo, as mulheres lésbicas têm menos problemas com o corpo e distúrbios alimentares do que as mulheres héteros e homens gays ou bis. O que é semelhante entre eles é se relacionar com homem", diz. "Talvez, isso mostre que a cultura do patriarcado que objetifica a mulher também pode objetificar o homem gay."

Padrão de beleza no mundo gay

Caio conta que um de seus amigos prejudicou o rim por superdosagem de suplementos. Outros tantos entraram em depressão. Na própria comunidade, Caio diz receber dezenas de mensagens que o acusam de descuidado, e já foi tratado como "aberração".

Poucas pesquisas exploraram como padrões de beleza afetam homens gays. Em um dos estudos encabeçados pela revista gay britânica Attitude, em 2017, 84% dos leitores disseram sofrer em busca de um "corpo legal". Das 5.000 respostas, 10% responderam que estão muito infelizes e 49% assumiram infelicidade com o próprio corpo.

Um estudo feito com usuários do Grindr por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás concluiu que a gordofobia é o segundo requisito mais importante para encontrar sexo no aplicativo. A restrição fica atrás apenas de insinuações machistas contra "gays afeminadas". Em terceiro, há uma restrição explícita a se relacionar com homens gays mais velhos.

"Em meio aos afetos e aos desafetos, gays afeminados, gordos, negros ou deficientes físicos constroem seus relacionamentos como podem, sob violência das normatizações históricas. São corpos marginalizados, menos preferidos pelos usuários nos aplicativos porque existem padrões machistas, racistas, gordofóbicos e etaristas criados e mantidos socialmente", diz a pesquisa.

'O corpo do homem gordo é de domínio público'

"A pressão para emagrecer e viver com um corpo sarado é torturante para mim. Todas as vezes em que fiz dieta foram muito dolorosas. Eu fazia mais exercícios do que aguentava", desabafa Caio. Hoje, ele é um influenciador que tenta servir como referência de homem gordo e feliz nas redes sociais. Ao contrário da própria vida que teve, na qual homens gordos e gays não eram galãs ou com assuntos que iam além do peso nas novelas e filmes.

"Mas convivo com esse estereótipo de que homem gordo não se preocupa com o corpo, enquanto 'a' gay sarada está com a saúde em dia, o que não é verdade. Apesar disso, sempre palpitam sobre mim. O corpo gordo é de domínio público", diz.

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