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"Natureza me escolheu para cacique", diz 1ª mulher a liderar índios Pankará

Cacique Maria das Dores dos Santos Silva ou Dorinha Pankará - Arquivo Pessoal
Cacique Maria das Dores dos Santos Silva ou Dorinha Pankará Imagem: Arquivo Pessoal

Fabiana Maranhão

Colaboração para Universa

10/08/2019 04h00

Dorinha, 55, deixou a Serra do Arapuá, no sertão de Pernambuco, há poucos dias em direção a Brasília. Ela participa até a próxima terça da Marcha de Mulheres Indígenas. É a primeira vez que mulheres indígenas se mobilizam nacionalmente em uma marcha para reivindicar direitos. Até a próxima terça, são esperadas 2.000 mulheres de várias partes do país, de acordo com a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).

Há 16 anos à frente do povo Pankará, ela conta que não é apenas a primeira cacique mulher do seu povo, mas a primeira chefe política com essa denominação. "Antes o meu povo não tinha cacique. Eu sou a primeira cacique do povo Pankará. Antes nos organizávamos de outra forma. Sempre teve pajé, tinha contramestre, tinha dona do terreiro, tinha conselheiro, mas até então não tinha cacique".

Maria das Dores dos Santos Silva, em português, ou Nawá, na língua indígena, "que significa 'o ar, a força encantada'", cita a data exata em que foi escolhida para ser a cacique do seu povo: 24 de maio de 2003. O papel de Dorinha é representar politicamente e cuidar da organização do seu povo, que inclui cerca de 5.000 pessoas, distribuídas por 50 aldeias. "O cacique não tem poder sozinho. Ele só existe se tiver um povo. Não existe cacique sem povo."

"Eu me tornei cacique pela natureza. O povo Pankará reconhece o cacique através da indicação da natureza, dos nossos encantados, dos nossos mais velhos e das forças. Cacique do povo Pankará não é querer, é nascer. É um dom, é uma missão que trazemos dos nossos antepassados que já se foram".

Estima-se que, no país, existam cerca de 20 lideranças indígenas femininas. A Funai (Fundação Nacional do Índio) afirma não possuir essa informação.

Nessa missão, Dorinha conta que enfrenta preconceito por ser líder mulher. "É muito difícil, pois o machismo prevalece. Mas o importante é que meu povo me respeita e tem confiança em mim. Assim, me sinto fortalecida para dar continuidade à luta dos povos indígenas e, em especial, do meu povo. Existem dificuldades? Sim. Mas sempre procurei e procuro unir forças com os parentes para seguir a minha missão".

Sem créditos no celular que a permita receber ligações telefônicas, a conversa com a cacique se dá por meio de trocas de mensagem de WhatsApp. É por texto que ela explica o que a motivou a deixar sua aldeia por alguns dias para lutar em conjuntos com milhares de outras mulheres.

"Pensando no cenário nacional, nos retrocessos que a cada dia acabam com os direitos sociais, em especial dos povos indígenas, resolvemos unificar as forças para dizer ao desgoverno que estamos unidas em defesa dos nossos direitos", afirma.

Durante a marcha, as indígenas vão debater e elaborar documentos, que serão entregues às autoridades responsáveis, em relação a temas como a "demarcação continuada dos territórios indígenas, saúde e educação de qualidade, não ao marco temporal e que os governos respeitem e cumpram o que determina a Constituição Federal, em seus artigos 231 e 232".

O marco temporal é uma tese jurídica que questiona demarcações de terra ocorridas antes da Constituição de 1988. "[Se adotado, o marco legal] abre brecha para o garimpo, a exploração do subsolo e para grandes empreendimentos dentro dos territórios". Os artigos 231 e 232 da Constituição tratam sobre os territórios indígenas.

Dorinha fala com preocupação sobre questões indígenas tratadas pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Entre elas está a polêmica em torno da responsabilidade sobre a demarcação das terras indígenas. Uma medida provisória do presidente Jair Bolsonaro transferiu a tarefa da Funai para o Ministério da Agricultura. No começo deste mês, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu tornar sem efeito a medida.

Bolsonaro também tem defendido reiteradas vezes a legalização e regulamentação do garimpo em reservas na Amazônia.

Na terça (13) e na quarta-feira (14), as indígenas vão se unir a milhares de trabalhadoras rurais que são esperadas na Marcha das Margaridas, uma ação conjunta de mulheres trabalhadoras da América Latina.