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Irmã Dulce: primeira santa brasileira trocou o futebol pela igreja

A beata Irmã Dulce, que será canonizada pelo Vaticano - Divulgação/Arquivo OSID
A beata Irmã Dulce, que será canonizada pelo Vaticano Imagem: Divulgação/Arquivo OSID

Camila Brandalise

Da Universa

17/05/2019 04h00

Irmã Dulce será a primeira brasileira a ganhar o título de santa. O Vaticano confirmou sua canonização na segunda-feira (13), ao anunciar o reconhecimento do segundo milagre da religiosa, a cura de um homem cego que rezou pedindo a ajuda dela e acordou enxergando. A freira morreu em 1992 e beatificada em 2011, quando foi confirmado seu primeiro milagre, a salvação de uma mulher de uma hemorragia pós-parto.

Segundo as normas da Santa Sé, alguém só se torna santo depois de comprovado um segundo milagre. A canonização de Dulce ainda não tem data definida, mas o Vaticano afirmou que será em uma data próxima.

Há vários fatos marcantes na trajetória religiosa baiana, a começar pela infância: ela assistia a jogos de futebol no estádio todos os domingos e só deixou de frequentá-los quando passou a se dedicar à igreja, aos 13 anos. Nessa mesma idade, começou a levar mendigos para a casa da família, em Salvador, para lhes dar comida.

Divulgação/Arquivo OSID
Imagem: Divulgação/Arquivo OSID

O nome de batismo de irmã Dulce era Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes. Ela o trocou para Dulce quando se tornou freira, em 1933, em homenagem à mãe. É conhecida também pelo apelido: "anjo bom da Bahia". Depois de canonizada, será chamada de Santa Dulce dos Pobres, em referência à ajuda prestada a moradores de rua e a doentes sem condições de se tratar durante 65 anos.

Abaixo, leia mais sobre a vida da primeira santa brasileira:

Fã de futebol

Torcedora do Esporte Clube Ypiranga, ia ao estádio todos os domingos para assistir aos jogos de futebol com o pai e os irmãos. Jogar bola também era uma de suas brincadeiras preferidas. Aos 13 anos, foi recriminada por uma tia chamada Madalena. "Não fica bem para uma moça de família divertir-se dessa maneira".

A tia então a convidou para ir à igreja com ela e, depois, acompanhá-la em visitas à casa de pobres e doentes da periferia de Salvador, para levar remédios. A menina aceitou o convite e deixou o futebol de lado: seus domingos eram reservados para o programa religioso com Madalena.

Pobres para dentro de casa

Divulgação/Arquivo OSID
Imagem: Divulgação/Arquivo OSID

Maria Rita, Mariinha para os familiares, ficou tão impactada ao ver pessoas miseráveis, acamadas e esquálidas nas periferias de Salvador que decidiu ajudá-los mais ativamente.

Levava mendigos para comer em sua casa, no bairro Nazaré, de classe média. O pai, o dentista Augusto Lopes Pontes e professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia), pediu à filha que continuasse com o trabalho, mas longe da casa da família.

Muito nova para ser freira

Ainda com 13 anos, Dulce pediu para entrar para o Convento de Santa Clara do Desterro, mas foi recusada por ser muito jovem. O pai também pediu à filha que esperasse um pouco.

Aos 19, se formou professora na Escola Normal da Bahia e, no dia da colação de grau, o pai quis lhe dar um anel de presente. Ela recusou a joia e pediu, no lugar, a bênção para se tornar freira --o que foi concedido por ele.

"Não lhe ensinaram a ter pudor?"

Irmã Dulce e seu acordeão - Divulgação/Arquivo OSID
Irmã Dulce e seu acordeão
Imagem: Divulgação/Arquivo OSID

Em 1934, Dulce fazia visitas às fábricas de Salvador para catequizar operários na hora do almoço. Um dia, o arcebispo da capital baiana, Dom Augusto Álvaro da Silva, lhe chamou para uma conversa. "Isso é indecente", ele disse. "Não lhe ensinaram a ter pudor? Estar ali entre homens que usam calças curtas e mostram as pernas nuas é uma indecência que prejudica a sua reputação."

A freira conseguiu convencê-lo de sua intenção respondendo com outra pergunta. "Como posso olhar para as pernas dos operários se tenho sempre entre as mãos a imagem do Sagrado Coração de Jesus?" E foi autorizada a continuar seu trabalho.

Criadora do movimento operário cristão

O contato com operários deu a ideia de criar um grupo em que eles pudessem, juntos, reivindicar melhores condições de trabalho. No dia 31 de outubro de 1936, Dulce fundou a União Operária de São Francisco, considerado o primeiro movimento operário cristão de Salvador, que depois deu origem ao Círculo Operário da Bahia (COB).

Invasão de casas desocupadas

Irmã Dulce arrumou briga com proprietários de casas desocupadas de Salvador. No fim dos anos 1930, levou um menino de rua que apareceu com febre no convento até o bairro de Ilha do Rato, onde sabia haver casas desocupadas.

Arrombou uma delas e o deixou descansando lá. Levou para o mesmo lugar uma senhora moribunda e um homem com tuberculose. Outros doentes apareceram e ela arrombou mais duas casas. Quando os proprietários a processaram, desocupou as casas e levou os doentes para a rampa do Santuário Senhor do Bonfim, dessa vez atiçando a fúria do prefeito. "A senhora colocou ali as fezes desta cidade", disse o prefeito. "Aqueles a quem o senhor chama fezes são nossos irmãos". E foi obrigada a tirá-los dali em uma semana.

Do galinheiro fez-se um hospital

Irmã Dulce entre doentes abrigados no espaço criado por ela - Divulgação
Irmã Dulce entre doentes abrigados no espaço criado por ela
Imagem: Divulgação

Dulce precisava de outro lugar para abrigar os doentes e pobres que ajudava. Em uma visita ao Convento Santo Antônio, olhou para o galinheiro e pediu à madre superior que cedesse o espaço para construir um centro de assistência. O espaço foi concedido, e Dulce solicitou ajuda para todos que conhecia para construir o prédio.

Conseguiu colchões, camas de madeira, cobertores e lençóis e, depois da construção finalizada, acomodou ali 60 pessoas, a maioria sofrendo de câncer, tuberculose e gangrena. Ela só não tinha dinheiro para pagar por todos os serviços.

Ajuda do presidente

Em 1948, o então presidente Eurico Gaspar Dutra visitou Salvador e se encontrou com irmã Dulce. Na conversa, ela disse estar endividada com a construção do albergue e pediu ajuda para sanar uma dívida de seis milhões de cruzeiros. O pedido de financiamento foi concedido em 1950 e ajudou a criar o que hoje é conhecido como Hospital Santo Antônio, um dos maiores da Bahia.

Noites de ronda

Todos os dias, das 20h30 às 23h30, Dulce e outras duas freiras faziam uma ronda pela cidade e levavam para o abrigo todos os pobres que encontravam. Lá, eles tomavam sopa e podiam dormir até as 5h.

"Mulher frágil" indicada ao Nobel da Paz

Dulce tinha 1,48, era magra e franzina. Sua aparência era motivo frequente de comentários e desconfiança. Quando foi indicada ao Nobel da Paz pelo presidente José Sarney, em 1988, a carta enviada à instituição começava com a descrição de Dulce como "uma mulher frágil e determinada".

30 anos dormindo em uma cadeira

Irmã Dulce dormiu 30 anos em uma cadeira de madeira para cumprir uma promessa, feita em 1955. Ela pediu que a irmã, também chamada Dulce, sobrevivesse a uma gravidez complicada e ao risco de morrer. O desfecho foi o que ela queria, e por três décadas a promessa foi cumprida. O objetivo era dormir na cadeira até morrer, mas, em 1985, aos 71 anos, seus médicos conveceram a freira a voltar a dormir na cama para evitar problemas de saúde.

Fontes: OSID (Obras Sociais Irmã Dulce) e livro "Irmã Dulce - O Anjo Bom da Bahia" (ed. Paulinas), de Gaetano Passarelli

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