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"Girl": filme escancara a realidade sobre ser transexual na adolescência

Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Gustavo Frank

Da Universa

20/04/2019 04h00

Vencedor do prêmio Fipresci Prize no Festival de Cannes, "Girl" estreou em janeiro de 2019 na Netflix, mas foi apenas recentemente que o longa-metragem dirigido e coescrito pelo estreante Lukas Dhont começou a ganhar repercussão mundo afora e se destacar como um dos sucessos da provedora global de filmes e séries de televisão via streaming.

Sem rodeios, a trama belga, que tem Victor Polster no papel principal, escancara a realidade de uma adolescente transgênero nos dias de hoje. A bailarina Lara, de 15 anos, é a protagonista do filme, que luta contra seu próprio psicológico e uma sociedade que ainda não está pronta para conviver com a diversidade.

Nome

Girl 1 - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Em uma das cenas, Lara se apressa a arrumar o irmão mais novo para ir à escola. Magoado por não estar se adaptando ao novo colégio, o caçula se irrita com a irmã e a chama pelo nome que lhe foi dado em seu nascimento, Victor -- o mesmo do ator que dá vida ao papel.

A continuidade da cena após a reação impulsiva da criança é acompanhada pelo silêncio de Lara, que posteriormente o alerta sobre nunca mais chamá-la por esse nome.

No Brasil, a questão sobre a mudança de nome e gênero para transexuais evoluiu recentemente. Foi em março de 2018 que o STF (Supremo Tribunal Federal) confirmou o direito de alterar o nome social o gênero no registro civil, mesmo que a pessoa não tenha se submetido à cirurgia de redesignação sexual ou ao tratamento hormonal.

Para a alteração, o indivíduo deve ir ao cartório e declarar seu novo nome. Com a nova decisão, não é preciso entrar na Justiça para pedir a alteração. O cartório não deve expedir nova certidão de nascimento para transexuais, mas mudar os dados no documento já existente. O motivo da mudança ficaria sob sigilo no cartório.

Reconhecimento do próprio corpo e da sexualidade

Girl 2 - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

O tratamento hormonal é outra questão abordada em "Girl", nas cenas em que Lara consulta diversos médicos para passar por esse processo de forma saudável.

A ansiedade da bailarina para reconhecer o próprio corpo, ainda com características masculinas, é gritante. A dosagem hormonal, que pode acarretar diversas complicações de saúde no paciente, é retratada pela personagem, que se olha no espelho e busca constantemente alguma mudança que a faça se sentir mais feminina.

No Brasil, o "Processo Transexualizador", oferecido pelo SUS (Sistema Único de Saúde), oferece o tratamento hormonal nos dois anos antecedentes à cirurgia de redesignação sexual -- embora apenas cinco unidades estejam habilitadas para realizar essa cirurgia, de acordo com a Lei de Acesso à Informação. O tratamento hormonal é considerado de complexidade média e de especialidade ambulatorial.

Girl - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Para Lara, o não-reconhecimento do próprio corpo acarreta diversas consequências, visto que, por volta dos 15 anos, os adolescentes estão começando a descobrir a sua sexualidade e a lidar com ela.

Entre essas consequências estão sua primeira experiência sexual com um homem e o uso violento de fitas colantes para esconder o pênis -- o que é frequente, principalmente durante as aulas de balé, em que as roupas justas destacam os detalhes do corpo que são rejeitados por ela.

Bullying e saúde mental

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Imagem: Reprodução/Netflix

No filme, é incômodo ver como a jovem é tratada de forma segregada pelas pessoas ao seu redor, principalmente no ambiente escolar.

Enquanto um dos professores questiona as demais alunas na sala de aula se alguma dela se incomoda em dividir o vestiário com Lara, é nesse ambiente que as meninas a coagem a assumir o próprio corpo, como se não se importassem com as diferenças, embora o comportamento delas reflita o de espectadoras de um circo.

Lara - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

"Você nos viu nua. Também podemos ver você. Qual o problema? Não tem nada demais. Certo?", pressiona uma das colegas na cena em que as meninas da escola se reúnem para o aniversário de uma delas.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 800 mil pessoas se suicidam por ano no mundo. Os dados, de 2016, apontam uma média de um suicídio a cada 40 segundos.

No Brasil, o índice de suicídios aumentou entre 2011 e 2015. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2011 foram 10.490 mortes, o equivalente a 5,3 a cada 100 mil habitantes. Esta é a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no país.

Relacionamentos com os pais

Girl - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Sem menção ao que aconteceu com a mãe, Lara conta com o apoio do pai, interpretado por Arieh Wortalter, para passar por esse processo. Ao contrário do que estamos acostumados a ver em filmes que falam do mesmo tema, nesse caso, a família da personagem demonstra total empatia e cuidado com a situação.

Enquanto a bailarina preza pela sua intimidade e por seu espaço -- comportamento comum de qualquer adolescente --, seu pai insistentemente frisa a preocupação pelo seu bem-estar, um retrato esperançoso (e raro) para outras pessoas da mesma faixa etária que buscam esse mesmo tipo de postura de seus parentes.

No Disque 100, canal para denúncias de violações contra essa parcela da sociedade, mantido pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH), foram registradas 1.792 agressões contra LGBTs em 2014. Um em cada seis desses crimes foi cometido por parentes das vítimas -- 79 pelos pais; 74 por irmãos; 70 por companheiros, tios ou cunhados; e 57 por outros familiares.

Errata: o texto foi atualizado
A estatística de 800 mil suicídios corresponde ao total anual, e não apenas ao número de pessoas trans. A informação foi corrigida.

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