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O desabafo da mulher que teve a origem racial escondida pelos pais adotivos

Da Universa

04/04/2019 13h47

Em um desabafo publicado no site "The Huffington Post", Melissa Guida-Richards contou como se descobriu latina após ser adotada por uma família formada por um casal branco há 26 anos.

No texto, a escritora conta que desde o começo foi condicionada a acreditar que, assim como seus pais adotivos, tinha ascendência italiana e portuguesa.

"Meu irmão foi adotado junto comigo na Colômbia, mas nos disseram que éramos italianos e portugueses. A palavras dos seus pais vale ouro quando você é criança, pelo menos essa é a explicação que eu encontrei para que eu acreditasse nisso ao longo de 19 anos da minha vida", conta ela.

Melissa relembra ainda sempre ter questionado a mãe sobre o motivo de sua pele ser mais escura, pergunta para qual ela sempre tinha uma resposta justificável.

"Eles me diziam que meus bisavôs tinham a pele mais escura que eu, mas nas fotos preto-e-branco não dava para ver muito bem. Diziam ainda que eu tinha nascido durante uma viagem dos dois para a Colômbia. Eu não tinha como confrontar essas informações, não era como se pudéssemos pesquisar as coisas no Google em nossos smartphones dos anos 90".

Melissa Guida-Richards - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Na infância, em que viva em um bairro de classe média, todas as crianças ao redor de Melissa eram, em sua maioria brancas e essa percepção fez com que ela não se sentisse completamente pertencente ao ambiente ou até a si mesma.

"Eu sabia que tinha a pele marrom, mas meu irmão também. Certo? E aparentemente meu bisavô? (...) Quando eu cheguei à puberdade, todos me colocaram como latina, mas eu negava isso. 'Desculpe, eu não falo espanhol. Eu sou italiana', dizia repetidamente. Meus pais podem ter mentido para mim. Minha família pode ter mentido para mim. Mas durante esses poucos anos da minha vida, eu menti para mim mesmo".

Quando tinha 14 anos, Melissa encontrou alguns papéis que diziam sobre a adoção do seu irmão, mas os dela se restringiam a uma certidão de nascimento e um cartão de seguro social.

"Eu sabia que algo estava errado, mas não conseguia admitir. Doeu demais para reconhecer que toda a minha vida era uma mentira. Não só isso, mas minha família sempre disse coisas negativas sobre o povo da minha cultura - os latinos só faziam trabalho no quintal, eram ignorantes e outros estereótipos. Quando criança, eu não tinha permissão para sair com outros latinos - talvez eles temessem que eu descobrisse minha verdadeira nacionalidade", diz ela, que encontrou os documentos que comprovavam a adoção aos 19 anos.

"Como filha adotiva, perdi meus pais biológicos, mas por causa das ações de meus pais, também perdi meu país, minha língua e minha cultura".

Depois de confrontar os pais e passar por um processo de autoconhecimento, hoje a escritora, mãe de duas crianças, usa sua história para conversar com outras pessoas que passaram por situações semelhantes.

"Eu tenho pais amorosos, independentemente do que eles fizeram no passado. E sim, ainda temos nossos problemas, mas estamos superando. Hoje eles me escutam quando falo de racismo. Eles pararam de usar estereótipos. Eles tentam integrar a comida colombiana nos feriados e falar abertamente sobre minha adoção. Eles me ouvem e entendem que é um processo pelo qual ainda estou trabalhando, e que, embora eu os perdoe, isso não apaga a mágoa que as ações deles causaram", conclui.

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