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Protagonista da série A Pequena Grande Família: "Ser anã não é piada"

Amy e Chris - Divulgação/TLC
Amy e Chris Imagem: Divulgação/TLC

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

23/03/2019 04h00

Amy Roloff, a portadora de nanismo protagonista da série "A pequena Grande Família", do TLC, esteve no Brasil e conversou com a Universa sobre fama, filhos, sucesso, ativismo e sexo com um companheiro de estatura normal. Com 1,27 de altura e 54 anos (mas aparenta bem menos), Amy é aquela celebridade que todo repórter quer entrevistar: fala de tudo, sem pudores.

No dia da entrevista, eu, que tenho 1,68m, estava de salto alto. Amy foi delicada ao dizer que quando se apresenta a um estranho sempre cumprimenta com aperto de mãos, pois não quer constranger o interlocutor a abaixar para abraçá-la. O efeito comigo, no entanto, foi contrário, ela provoca essa vontade de abraçar -- o que fiz imediatamente. Logo no primeiro encontro, parecia que já havia conversado com ela várias vezes.

"Você é maior, mas eu sou a sua mãe"

Amy contou que foi questionada quando, junto ao ex-marido, Matt Roloff, também portador de nanismo, decidiu ter filhos. "Muitas pessoas perguntavam porque escolhemos ter filhos sabendo que eles poderiam ser anões, e eu pensava: qual seria o problema se ele tivesse nanismo? Um anão não é menos que nenhuma outra pessoa."

Amy e Matt, seu ex - Divulgação/ TLC
Amy e Matt, seu ex
Imagem: Divulgação/ TLC

Mãe de três filhos de estatura normal e um filho com nanismo, ela conta que manter a autoridade era uma preocupação. "Eu tinha em mente que, na primeira ou na segunda série, as crianças já seriam do meu tamanho. E eu tinha que prestar muita atenção à forma como eu falava com meus filhos ou como os disciplinava. Precisava que me respeitassem e levassem a sério. Que eles soubessem que, mesmo sendo maiores que eu, sou a mãe deles", conta.

Fazer compras é mais difícil que parece

Para Amy, há atitudes simples que ajudariam muito as pessoas de sua estatura em lojas e mercados de maneira geral. "Seria importante ter funcionários que circulassem pelos estabelecimentos atentos às necessidades e dispostos a ajudar. Pedir ajuda para alguém que está fazendo as próprias compras para alcançar uma prateleira mais alta é incômodo e desagradável", afirma.

Sexualização e piadas com anões

Amy diz que pode não concordar com as escolhas de outras pessoas de baixa estatura, mas nem por isso deve julgá-las. "Acho que há muito mais que anões podem fazer além de conteúdo pornográfico e da fetichização. Também há um tipo de luta chamado 'midget wrestling', considerada entretenimento. Ou ainda aqueles que se vestem de duendes no Natal. Não gosto. Mas não serei eu a apontar o dedo e dizer para essa pessoa que ela não é um bom representante da nossa comunidade. O que mais me incomoda, no entanto, é quando vejo pessoas de estatura normal fantasiadas de anões, fazendo graça daquilo. Não é uma piada", diz

No sexo, criatividade conta

Depois de muitos anos casada com Matt Roloff, Amy agora namora um homem de estatura normal e contou um pouco sobre sua vida amorosa e sexual.

"Quando eu era novinha, eu nunca saía com pessoas, o que eu acho que tinha muito a ver com a minha personalidade, já que era muito tímida. E acho que provavelmente me casei com um anão porque achava que éramos mais compatíveis, talvez. Eu nem pensava que uma pessoa de estatura normal poderia sequer me achar atraente. Uma coisa que ensinei aos meus filhos, especialmente ao Zack (portador de nanismo) foi: não pense que você precisa necessariamente se casar com uma anã. Aos outros filhos, também sempre falei que poderiam namorar quem tem nanismo -- por quê, não? O que importa é o tipo de relação que você deseja. Eu sempre quis me assegurar que uma pessoa de estatura normal não pensaria em mim como alguém que precisa ser cuidada ou fetichizada. Matt, meu ex-marido, e meu atual namorado, Chris, têm personalidades completamente distintas e acho que isso importou muito mais que a estatura. Chris me aprecia, gosta de mim pelo que sou. E, sobre o sexo: funciona perfeitamente para nós dois. Um pouco de criatividade resolve essas questões."

Reações na vida e na internet

Amy Roloff: "criatividade resolve sexo" - Divulgação/TLC
Amy Roloff: "criatividade resolve sexo"
Imagem: Divulgação/TLC

Haters não têm vez na vida de Amy, que procura realmente se blindar dos comentários. "Honestamente, depois que me tornei uma celebridade, eu procuro não ouvir, não ler e não notar o que as pessoas dizem, nem os olhares. Sempre haverá comentários do tipo "ela é estranha, anda de um jeito engraçado, é gorda" ou sei lá", ela diz.

"Outra coisa que acontece é quando as crianças apontam para mim e comentam com os pais, o que não me incomoda nem um pouco, porque sei que são inocentes, mas os pais mandam que eles se calem, ficam constrangidos, quando, na verdade, seria uma ótima oportunidade de dizer 'sim, eles são pessoas de baixa estatura' e explicar como isso funciona", sugere.

Abordagem sem noção

Amy contou uma situação muito constrangedora que viveu em um jantar com amigos de seu namorado. "Eu cheguei, cumprimentei as pessoas. Tudo normal. Fui ao banheiro, e havia uma amiga dele que eu não conhecia ainda. E quando eu saí do banheiro, no corredor, ela veio na minha direção se apresentar, disse que eu era muito fofinha, uma gracinha e me levantou no colo como se eu fosse uma criança! Foi muito constrangedor e demorou mais um ano para eu contar pro meu namorado sobre o episódio."

Ídolo anão

Como metade do mundo, Amy é fã de "Game of Thrones" e torce para que Tyrion Lannister (o perosnagem vivido por Peter Dinklage, que tem nanismo) sentasse no trono de ferro.

"Eu adoraria conhecer o Peter, sou fã, adoro a maneira como ele representa a si mesmo. Muita gente acredita que ele deveria estar mais envolvido nas questões das pessoas com nanismo, mas acredito que ele não deve nada a ninguém. Ele faz um grande trabalho e geralmente não pega papéis que comumente são destinados aos anões. Não necessariamente cômicos."

Avanços para a comunidade

Seu reality show, A Pequena Grande Família, está entrando em sua 14ª temporada nos EUA. Eles mostram sua família -- ela e o ex, Matt, vivem na mesma propriedade, onde plantam abóboras.

Amy acredita que o programa foi responsável por muitos progressos para as pessoas de baixa estatura.

"O show com certeza ajudou muito a comunidade portadora de nanismo. Chamou a atenção para a situação, trouxe conhecimento para as pessoas, reconhecimento das pautas, maiores oportunidades de emprego e avanços, como por exemplo, caixas eletrônicos adaptados", ela afirma.

Para ela, o programa continua lembrando que as pessoas com nanismo são diferentes, mas estão aqui. "Uma das minhas grandes preocupações é que as pessoas estejam inseridas no mercado de trabalho e saibam que podem fazer quase tudo sendo anões. Eu sempre quis ser professora e até hoje me arrependo muito de não ter seguido essa carreira. Achava que com minha estatura não seria respeitada ou teria autoridade sobre os alunos. Quero que os anões saibam que podem muito, que há muito ao nosso alcance", diz ela, dando aula de inclusão.

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