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O general transgênero que lutou com exército de Zapata na Revolução Mexicana

Amelio Robles Ávila nasceu em 1889 e morreu em 1984 - FOTOTECA NACIONAL/INAH
Amelio Robles Ávila nasceu em 1889 e morreu em 1984 Imagem: FOTOTECA NACIONAL/INAH

Darío Brooks

BBC News Mundo

11/12/2021 18h13

A menina da zona rural, criada no México conservador do final do século 19, havia acabado de sair da adolescência quando entrou para a Revolução Mexicana.

Na luta armada, ela atingiu o posto de coronel, superando todos os preconceitos de uma época na qual os homens não podiam dar evidências contrárias à sua masculinidade. E, o mais importante, ela formou sua nova identidade nos campos de batalha — a identidade que exibiu ao mundo pelo resto da sua vida.

"Encontramos uma pessoa para quem a Revolução serviu de pretexto, caminho e trânsito para se converter no que queria ser", declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) a historiadora Noemí Juárez. "Foi um momento em que os papéis, os bons costumes e os espaços se diluíram para que ela pudesse ser o que quisesse."

Aquela jovem adolescente passou a chamar-se Amelio Robles Ávila, um dos primeiros casos documentados de uma pessoa transgênero no México.

A jovem Amelia Robles

Aquele coronel da Revolução Mexicana nasceu como Amelia Malaquías Robles Ávila em uma família estabelecida no Estado de Guerrero, no sul do México, no dia 3 de novembro de 1889.

Nas montanhas de Xochipala, sua vida era o campo, sem grandes janelas para o mundo.

"Crescendo nesse ambiente, Amelia aprendeu a usar armas e a cavalgar. Essas habilidades se sobressairiam no processo revolucionário", afirma Juárez.

Muitas mulheres pegaram em armas, mas sua participação na Revolução Mexicana foi minimizada nos relatos da época - Getty Images - Getty Images
Muitas mulheres pegaram em armas, mas sua participação na Revolução Mexicana foi minimizada nos relatos da época
Imagem: Getty Images

As posses da família deram a ela uma educação muito religiosa em um colégio para meninas, as Filhas de Maria Imaculada da Medalha Milagrosa.

"Foi ali que começou a mostrar seus primeiros sinais de rebeldia. Andava muito com uma colega, mantinha uma espécie de relacionamento com ela", relata a historiadora.

Eclode a revolução

Os grupos de oposição ao governo do general Porfirio Díaz, liderados por Francisco I. Madero, tomaram as armas no dia 20 de novembro de 1910, dando início à Revolução Mexicana.

A "bola" — como eram chamadas as multidões que recrutavam guerrilheiros em cidades e povoados — esteve em Xochipala e chamou a atenção de Amelia Robles e de muitos outros jovens.

Aquele grupo armado era o recém-criado Exército Libertador do Sul, chefiado por Emiliano Zapata, um dos líderes mais importantes da Revolução Mexicana. Zapata lutava pela reforma agrária com sua proposta chamada de Plano de Ayala.

Mas a causa não era o mais importante na mente da jovem Amelia Robles. Anos depois, ela confessou que entrou para a "bola" por "mera loucura de juventude".

"Ou seja, eu disse: 'Eu não sei o que é o Plano de Ayala, nem o que está acontecendo. Mas a 'bola' veio e eu fui com ela'", declarou Robles em uma entrevista ao jornal mexicano El Universal em 1927.

Sua ideia era "ser totalmente livre".

Noemí Juárez afirma que costuma passar despercebido como eventos como a Revolução Mexicana provocaram mudanças profundas na vida cotidiana das comunidades afetadas em muitos sentidos. "Ela (Robles), eventualmente, foi beneficiada. Repentinamente, ela aprende que existe um mundo lá fora, no qual ela pode se envolver com armas, cavalos e interagir com outros grupos", acrescenta.

Masculinizar-se para sobreviver

Na história da Revolução Mexicana, é comum incluir a participação das mulheres conhecidas como "soldaderas" ou "adelitas" — encarregadas de trabalhos de apoio às tropas.

Mas as mulheres também desempenharam papel armado e muitas vezes precisaram adotar a aparência de homens para prosseguir. Algumas chegaram a precisar mudar seus nomes.

"De fato, houve muitas mulheres que foram para as fileiras de batalha como soldados. Mas elas precisaram se masculinizar. E Amelio não foi o único — temos outros exemplos", explica Juárez.

Petra Herrera foi o revolucionário Pedro Herrera e Ángela Jiménez passou a ser o combatente Ángel Jiménez. Apenas algumas, como a coronela Rosa Bobadilla, mantiveram seus nomes e aparência. Mas por que elas fizeram isso?

"Muitas vezes, para defender-se da violência sexual", ressalta a historiadora. "Se, atualmente, em um suposto contexto de momento pacífico que estamos vivendo, a violência contra as mulheres é um problema diário, imagine em um contexto de guerra."

"Elas também adotavam uma identidade que lhes permitisse assumir o comando de tropas, o que, por serem mulheres, muitas vezes teria sido impossível", explica Juárez.

Após sua participação na Revolução, personagens como Petra Herrera e Ángela Jiménez voltaram às suas localidades para seguir a vida como mulheres.

Mas o caso de Amelia Robles foi diferente.

A batalha de Amelio

Assim que entrou na luta armada, as habilidades de Amelia Robles chamaram a atenção, especialmente o planejamento e a execução de emboscadas contra o Exército Federal nas montanhas do sul do México.

Ela participou da tomada de Chipancingo, que levou à queda do presidente golpista Victoriano Huerta. E, em um combate, chegou até a roubar o cavalo de um general do Exército Federal, o que demonstrou não apenas sua grande capacidade de dirigir ataques, mas também sua destreza.

Os relatos da Revolução Mexicana costumam restringir as mulheres a trabalhos de apoio, como cuidar dos filhos, sem mencionar seu papel na luta armada - FOTOTECA NACIONAL/INAH - FOTOTECA NACIONAL/INAH
Os relatos da Revolução Mexicana costumam restringir as mulheres a trabalhos de apoio, como cuidar dos filhos, sem mencionar seu papel na luta armada
Imagem: FOTOTECA NACIONAL/INAH

"Existem testemunhos de que ela entrou na Revolução de saiote ou vestido vermelho, com tranças. Mas, nesse processo da Revolução, ela começa a mudar de identidade para tornar-se Amelio 'el güero' Robles ('o loiro')", segundo Juárez.

Robles passou rapidamente de tenente para major e depois, coronel. Teve sob seu comando grupos de até mil homens. E, nesse ponto, começou o grande debate sobre a figura do coronel Amelio Robles, que até hoje é motivo de discussões sobre identidade de gênero, progresso dos direitos da comunidade LGBTQIA+ e o feminismo.

Qual era o propósito de Amelio Robles?

A decisão de Amelio Robles de viver plenamente sua identidade de gênero durante a Revolução Mexicana foi libertadora: a jovem se converteu no homem que queria ser desde a infância.

Mas, com isso, Robles adotou o sistema de valores — basicamente machistas — dominante na época.

"Como coronel transgênero, Amelio expõe os valores dos homens daquela época. Pode-se pensar que o zapatismo foi muito aberto ao aceitar esse coronel, mas a homossexualidade era muito mal vista", diz Noemí Juárez.

"A aceitação de Amelio ocorreu porque, afinal, ela representava os valores do revolucionário: de masculinidade, homem forte, valente, macho. Do macho revolucionário orgulhoso", acrescenta.

Por outro lado, houve outros revolucionários que atingiram altos postos, como Manuel Palafox no exército de Zapata, cuja homossexualidade foi questionada e combatida. "Para ele, sim, as portas começaram a ser fechadas, já que a homossexualidade era equivalente a ser afeminado, o que era símbolo de fraqueza", segundo a historiadora.

A figura de Amelio Robles gera muitas perguntas: foi uma pessoa que defendeu o papel da mulher na Revolução Mexicana, escolhendo ser homem e adotando o sistema predominante? Defendeu os direitos das pessoas transgênero e suas aspirações? Ou simplesmente reforçou o machismo?

Este debate encontra-se em aberto até hoje.

Para Juárez, "a homossexualidade era mal vista, mas esse coronel transgênero — que, por fim, representa o masculino com status de poder — é o aceito naquele momento".

O que a história mostra é que Amelio Robles serviu a Revolução Mexicana e a Revolução se serviu dele, para seguir pelo resto da vida no caminho que procurava aquela jovem fazendeira de Xochipala.

"Acredito que isso seja o importante. Ela se utiliza da revolução para fazer essa mudança na sua vida. E foi o que queria ser."

"Ela se torna livre, mantendo-se assim até a morte", conclui a historiadora.

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