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Maria Carolina Trevisan

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Reportagem mostra que combate à corrupção é promessa vazia de Bolsonaro

Jair, Carlos e Flavio Bolsonaro - Flick Bolsonaro/Reprodução
Jair, Carlos e Flavio Bolsonaro Imagem: Flick Bolsonaro/Reprodução
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista de Universa

15/03/2021 10h45

A análise minuciosa feita pela reportagem do UOL sobre o conteúdo de 607.552 operações bancárias de 100 pessoas implicadas na investigação do esquema de "rachadinha" é mais um elemento na caixa de Pandora da família Bolsonaro e revela indícios cada vez mais robustos de que a corrupção não acontecia só no gabinete do hoje senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

As informações obtidas indicam que a prática da rachadinha também fazia parte do cotidiano dos gabinetes do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). Funcionários fantasmas, padrão de pagamentos em dinheiro vivo e a repetição de saques de uma grande parte dos salários dos assessores indicam que a família presidencial pode fazer parte de práticas criminosas.

Agora, um embate deve se travar entre as diferentes esferas da Justiça para que as provas que comprometem a família presidencial não sejam perdidas, anuladas ou escondidas. O esquema desenvolvido nessas operações de "rachadinha" é uma maneira de dificultar o acompanhamento de transações bancárias e obter provas de ações ilícitas. Ao realizar saques e fazer pagamentos em dinheiro vivo, é mais difícil seguir o dinheiro e encontrar quem está por trás dos esquemas.

Mas, ao estabelecer um padrão de comportamento celebrado por anos nos três gabinetes e verificar a troca de funcionários entre os componentes da família Bolsonaro, os indícios se tornam mais evidentes — a ponto de gerar constrangimento aos operadores do direito que não considerarem tais evidências.

Uma das principais bandeiras de campanha do presidente Jair Bolsonaro foi o combate à corrupção. As notícias mostram, no entanto, que se tratava apenas de promessa vazia com a finalidade de chegar ao Palácio do Planalto. Como deve se sentir o eleitor menos fanático de Bolsonaro? Além de acabar com a corrupção, ele também prometeu que não trocaria indicações políticas por apoio do parlamento. Seria o símbolo da "nova política".

"O que está em jogo não é a democracia, não. O que está em jogo é a perpetuação dessa máquina podre que nós temos aí, que vive da corrupção, para tirar de vocês o atendimento médico, a educação, a segurança. É uma máquina podre que sobrevive, se retroalimenta da desgraça, da corrupção. O que está em jogo é a corrupção, são os grupos que não querem sair de lá porque vivem disso, vivem mamando nas tetas do estado", declarou em suas redes sociais o então candidato Jair Bolsonaro, em outubro de 2018, às vésperas da eleição.

Segundo o empresário Paulo Marinho, presidente do PSDB do Rio, que participou da campanha de Bolsonaro ao lado de Gustavo Bebianno, um dos primeiros a deixar o governo quando se indispôs com Carlos e foi repreendido, disse que o então candidato temia ser preso. Em tuíte publicado neste domingo em homenagem a Bebianno, morto há um ano, Marinho relatou o receio. E completou: "Hoje eu entendo a sua preocupação e não tenho mais dúvidas de que você será preso, é uma questão de tempo. Sua omissão, negligência e incompetência criminosas já custaram quase 300 mil vidas brasileiras. O seu governo é o beijo da morte!", escreveu.

Nessa maquiagem de uma gestão supostamente ilibada entrou o ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, hoje persona non grata da família Bolsonaro. Moro pulou fora do barco quando percebeu que para encobrir a investigação contra os Bolsonaro teria que cumprir ordens do capitão das quais discordava: colocaria à frente da Polícia Federal alguém em quem Jair pudesse confiar e mandar. Mas Moro serviu como cavaleiro do combate à corrupção do governo Bolsonaro ciente desse papel. Era o verniz que dava brilho àquela demanda.

As evidências indicam que o combate à corrupção não passava de promessa vazia. Assim como a política econômica prometida e assumida na figura de Paulo Guedes, hoje um "posto Ipiranga" com gasolina adulterada. A negligência, incompetência e omissão no ministério da Saúde para conter a pandemia compõe com um governo que se mostra pouco disposto a favorecer as necessidades da população. Está mais comprometido com um projeto de poder que pretende exterminar quem não concorda com ele. É muito mais pessoal e individualista que estadista.

A reportagem do UOL publicada nesta segunda (15), com a análise dos jornalistas Amanda Rossi, Flavio Costa, Gabriela Sá Pessoa e Juliana Dal Piva cumpre um dos papeis mais importantes do jornalismo: fiscalizar o poder. É de fundamental interesse público conhecer quem dirige o país e quais as conveniências pessoais por trás de decisões em nome do Brasil. Se o eleitor de Bolsonaro foi enganado, ele precisa saber.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL