PUBLICIDADE

Topo

Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Covid-19: calamidade no Brasil é reflexo do que é o governo Bolsonaro

Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) provoca aglomeração durante cerimônia de posse de ministros no Palácio do Planalto - Divulgação/Júlio Nascimento
Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) provoca aglomeração durante cerimônia de posse de ministros no Palácio do Planalto Imagem: Divulgação/Júlio Nascimento
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

28/02/2021 04h00

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem promovido o caos em todos os aspectos de sua gestão. Remar na contramão do razoável — em relação ao Estado democrático de direito — é seu projeto político desde que assumiu o poder, em 2019. Esse posicionamento, antes percebido como "uma aposta em outro jeito de fazer política", agora deixa evidente a opção pela destruição. Exemplos concretos são a obsessão em armar a população, a disposição em militarizar o Executivo e seu esforço em transformar policiais militares em apoiadores fieis, que respondem mais ao presidente que aos governos estaduais.

Na opinião de Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública (governo Temer), trata-se de um iminente "risco de gravíssima lesão ao sistema democrático em nosso país com a liberação, pela Presidência da República, do acesso massificado dos cidadãos a armas de fogo", como registrou em carta enviada ao Supremo Tribunal Federal no início da semana passada. É uma fórmula autoritária e populista, que frequentemente testa os limites da democracia e normaliza o inaceitável, como intimidar os poderes da República, ameaçar governadores, apoiar manifestações antidemocráticas, produzir dossiês com listas de pessoas antifascistas (inimigos do governo), escolher agentes da Abin para atuar nos ministérios, entre outras muitas ações.

Com a pandemia do novo coronavírus, Bolsonaro adotou um papel negacionista, escolheu um fantoche para assumir o cargo de ministro da Saúde, que obedece suas ordens, não questiona declarações e propostas absurdas e não se compromete com informações transparentes ou com medidas de contenção da pandemia para aliviar UTIs lotadas, comprar vacinas ou garantir oxigênio ao SUS. Abdicou de coordenar o enfrentamento à crise sanitária. Nesse filme (de ficção), Jair seria o herói mundial ao encontrar a cura para a Covid-19, comportamento típico de quem se enxerga mito — e põe em risco toda a população do país que comanda.

Em um ano desde o primeiro caso de Covid-19 no Brasil, o presidente jamais fez um gesto a favor do uso de máscaras, do distanciamento social, da testagem em massa ou da vacinação. Dedica-se justamente ao oposto. Causa ele mesmo as aglomerações, desacredita ele mesmo os protocolos de proteção, boicota ele mesmo a disponibilidade de vacinas. Passa seus dias tentando provar que a Covid-19 não é grave. Não consegue se solidarizar com as mais de 250 mil famílias que perderam entes queridos. Ao contrário, o presidente do Brasil debocha do luto silencioso de milhares de pessoas, ignora a dor gerada pela morte e a angústia de quem está doente, toureando a morte minuto a minuto.

No dia mais letal do coronavírus no país (26/2), Bolsonaro foi ao Ceará e agitou uma aglomeração sem máscara. Não se importa com o fato de mais de 90% dos leitos de UTI no estado estarem ocupados. Estava acompanhado de seu ministro da Infraestrutura, o militar da reserva Tarcísio Gomes de Freitas, que também estava sem máscara. Na quinta, Bolsonaro mentiu sobre um estudo acerca da eficácia do uso de máscara em sua live semanal. Nenhum líder mundial tomou atitude semelhante.

Aceno à base

A falta do auxílio emergencial preocupa o governo. Sua reprovação não para de aumentar e chegou a 35,5%, 8 pontos percentuais acima que há quatro meses. Bolsonaro sabe que a transferência de renda emergencial é a única saída para manter a sua popularidade em alta até 2022, quando pretende disputar as eleições outra vez. O auxílio também interessa aos deputados, que enfrentarão a avaliação das urnas no ano que vem. E a oposição também defende a manutenção do auxílio, ajuda necessária para frear a pobreza extrema no meio da pandemia e da crise econômica, que trouxe desemprego e inflação.

A intervenção de Bolsonaro na Petrobras tinha o objetivo de sustentar um discurso populista de que uma estatal precisa ter "visão de social". Mas esse não é o papel da empresa, que não é um órgão do governo. É o Estado, por meio de seu orçamento, que pode agir pela "visão de social". A intervenção foi um desastre. A Petrobras, que tinha tido o maior lucro da sua história, perdeu 100 bilhões de reais de seu valor de mercado. Para se ter uma ideia, o auxílio emergencial que está em eterno planejamento precisaria de 30 bilhões de reais.

Para sanar as críticas ao processo na Petrobras, Bolsonaro colocou Paulo Guedes para "garantir" a privatização da Eletrobras. Não funcionou. A bolsa seguiu caindo, o dólar seguiu subindo e o investidor segue não acreditando em estabilidade no país. Guedes acabou com a sua credibilidade no mercado e já não é seu fiador.

Vacinas

Com a incompetência do governo, seu desleixo com a vida e sua omissão com a população mais pobre será difícil sustentar a popularidade até as eleições. Ficará cada vez mais complicado na medida em que outros países começam a diminuir a incidência da pandemia em uma gestão responsável da crise sanitária, como deve acontecer até abril nos Estados Unidos e em breve em Israel.

Se o Brasil continuar neste caos, até julho chegaremos às 500 mil vidas perdidas, sabendo que muitas teriam sido evitadas não fosse Bolsonaro. É muito triste. Trata-se de uma crise humanitária. O que parece mais grave é o fato de que o governo Bolsonaro não tem a menor aptidão para um olhar humanitário, que exige planejamento visando o coletivo, diálogo, estratégia coordenada e competência. O presidente deixa aos outros poderes e aos governos estaduais, sob ameaças, a tarefa de reconstituir um país desesperado, despedaçado, enlutado e cada vez mais vulnerável. A gente precisa de um plano consistente de vacinação para conseguir, ao menos, respirar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL