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Maria Carolina Trevisan

Alok lança instituto por justiça social e racial com fundo de R$ 27 milhões

Alok na Vila Esperança, sertão da Bahia, em projeto de construção de moradia e acesso à água - Bismarck Araújo
Alok na Vila Esperança, sertão da Bahia, em projeto de construção de moradia e acesso à água Imagem: Bismarck Araújo
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

14/12/2020 04h00

O ano de 2020 nos colocou desnudos diante da morte. As perdas de vidas para o coronavírus nos impuseram um luto constante, sem possibilidade de abraços e despedidas. Ao mesmo tempo, nos mostrou que somos fracos sozinhos. O desafio deste ano, estabelecido por essa devastadora e coletiva tristeza, fez com que cada um buscasse dentro de si a fortaleza que significa simplesmente estar vivo. E estampou uma certeza: somos mais potentes quando agimos pelo bem comum.

Esse duplo sentimento foi o que mobilizou o DJ e produtor musical Alok, 29 anos, número 1 no Brasil e quinto melhor do mundo segundo a revista britânica DJ Mag, a criar o Instituto Alok, iniciativa que começa com um fundo de R$ 27 milhões doado pelo artista. Alok contou em primeira mão à coluna que a ideia é financiar projetos de enfrentamento à exclusão social e fomentar o acesso a oportunidades, especialmente para jovens e mulheres em áreas vulneráveis, rurais e urbanas, do Brasil. A iniciativa será lançada no próximo sábado (19), durante seu show virtual "Alive". O fundo foi criado com recursos pessoais e também com os resultados financeiros da parceria com o game Garena Free Fire, em que Alok é um personagem que tem "poder de cura".

"O instituto, para mim, é extremamente importante porque é o que dá sentido para a minha vida", afirma Alok. Há alguns anos, ele vem gestando a iniciativa, tomando contato com a desigualdade social e racial, no Brasil e em países da África, como Moçambique, e conhecendo projetos sociais. Fez doações espontâneas que somam R$ 1 milhão a instituições como GRAAC, Hospital Pequeno Príncipe, Projeto Axé, Médicos Sem Fronteiras, apoiou ações em aldeias indígenas Yawanawá, no Acre, e deve concluir em breve a construção de 20 casas num povoado do sertão baiano.

Agora, com o instituto, Alok pretende engajar novos parceiros para compor o fundo e ampliar as iniciativas, que focam em empreendedorismo, segurança alimentar e desenvolvimento humano. Pretende trabalhar diretamente na instituição e assumir sua responsabilidade como ator social relevante diante de um país cada vez mais à deriva. Entre os valores que orientam a nova instituição está "o sentimento de unidade que abraça culturas, comunidades e a vida de todos os seres. E a convicção de que uma sociedade é realmente democrática quando todos têm oportunidades iguais."

O artista convidou o jornalista Geraldinho Vieira para dirigir o Instituto Alok. Com larga experiência no campo dos direitos humanos e do jornalismo, foi direitor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), representante da Fundação Avina no Brasil e consultor de diversas instituições internacionais de filantropia como a Fundação Ford. É também conhecido como Devam Bhaskar e dirige um centro de meditação na Chapada dos Veadeiros.

Depressão x esperança

Alok e indígenas - Érico Salutti/Acervo pessoal - Érico Salutti/Acervo pessoal
DJ Alok no Acre, aldeia Yawanawa, em 2015, com o cacique Tashka Yawanawa e sua esposa, Laura Yawanawa. Projeto cultural com jovens das aldeias.
Imagem: Érico Salutti/Acervo pessoal

Alok é um profissional bem-sucedido e influente pelo mundo. Tem 15 anos de carreira, é o segundo artista brasileiro mais escutado no Spotify (a primeira é Anitta), tem 23 milhões de seguidores no Instagram (para fins de comparação, são 10 milhões a mais que Felipe Neto) e 4,8 milhões de inscritos em seu canal no YouTube. Seu mais recente lançamento, "Ilusão cracolândia", com MC Hariel, MC Davi, MC Ryan SP, Salvador da Rima e Djay W foi lançado em 13 de novembro e já tem mais de 71 milhões de visualizações. Tudo o que Alok faz tem visibilidade. Ele tem consciência de onde seu trabalho artístico é capaz de alcançar. Por isso, também, a importância de construir o Instituto Alok, para ele e para a sociedade.

Mas o advento da organização é resultado de uma busca profunda. Alok sofre de depressão desde os 9 anos, como revelou em 2019. "Já tive algumas depressões, aos 9, aos 12 e depois aos 16 anos", conta. "A cada hora ela ia voltando de forma mais intensa. Quanto mais eu negava as minhas sombras, mais elas cresciam. O que me dava depressão era o fato de que eu ficava me perguntando o que viria após a morte." Como é uma resposta impossível de se obter, ele ficava extremamente desmotivado.

"De repente, quando eu tinha 24 anos, me vi num lugar em que eu tinha sucesso, popularidade, bens materiais, dinheiro, tudo aquilo que a sociedade me falou que seria o sucesso da vida. Mesmo assim, nunca me senti tão vazio", lembra Alok. Foi aí que percebeu que sua angústia seria amenizada se ele encontrasse e pusesse em prática um propósito maior. "Não falo isso em uma visão clichê. Essa dicotomia entre o medo da morte e o sentido da vida foi me levando."

Começou a viajar pela África e percebeu o potencial de seu trabalho como ferramenta de transformação social. "A gente vive em um mundo extremamente desigual e injusto em vários níveis como o acesso a direitos. Uma das minhas maiores inspirações —para fazer música inclusive —, não é um outro músico, é o Chico Xavier. Não é pelo espiritismo também. Mas pelo ser humano que ele foi e pelo que ensinou sobre amor e a caridade."

Amor, filhos e covid-19

Alok e Romana - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Alok comenta sobre estado de saúde da filha, Raika, que está na UTI após nascer de parto prematuro
Imagem: Reprodução Instagram

Alok conheceu a médica Romana Novais, 28 anos, em 2014, no festival de música eletrônica Universo Paralello, criado por seus pais, Juarez Petrillo, o DJ Swarup, e Adriana Peres Franco, DJ Ekanta. Em janeiro de 2019, se casaram no nascer do sol, aos pés do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Um ano depois, nasceu Ravi, nome escolhido "por simbolizar o sol".

O casal havia decidido ter outro filho o quanto antes. Três meses depois do nascimento de Ravi, Romana engravidou novamente. O parto seria, então, em janeiro de 2021. Mas neste ano peculiar de pandemia, o imponderável se impôs: o casal foi acometido pela covid-19, o que provocou complicações na gestação. No início de dezembro, dia 3, ela sentiu dores, foi à obstetra e teve uma hemorragia severa. Levada às pressas ao hospital em estado grave, Romana deu à luz Raika, aos sete meses de gravidez. Segundo relataram seus médicos, ela teve uma trombose na placenta.

"Sobre o nascimento da Raika, é um ponto um pouco sensível de falar ainda", diz Alok à coluna. "Eu só consigo agradecer hoje por tudo, as coisas estão super bem, estou ficando com a Raika todos os dias, essa noite mesmo [madrugada de sábado, 12] eu cheguei em casa quase 4h30 da manhã. Estou muito orgulhoso dela, tem tido um desenvolvimento muito bom, muito rápido, a Romana e meu filho estão bem também, só posso botar a mão para cima e agradecer."

Enquanto Raika e Romana se recuperam, Alok planeja uma rotina de vida mais tranquila. Com a pandemia, os grandes shows ao vivo não podem acontecer. Mesmo assim, ele mantém todos os funcionários que trabalham nos shows. "A pandemia afetou não só a questão financeira, mas também a emocional: me trouxe uma nova perspectiva para o que eu fazia, para a vida mesmo. Eu fazia muitos shows, muitos, muitos shows, uma rotina muito intensa. Quando as coisas normalizarem eu não quero voltar à vida que eu tinha antes. Eu quero ficar mais com a minha família, curtir mais com meus filhos e minha esposa, minha família toda no geral. Resignifiquei muitas coisas, vieram à tona muitas coisas que são essenciais na minha vida. Quero ter uma vida mais equilibrada", afirma. Não por acaso, Raika significa "deusa do vento", aquela que chega soprando diferente e forte.

O lançamento do Instituto Alok é fruto desse aprendizado pelo ano difícil, da busca por uma vida mais equilibrada e que aponte caminhos para a justiça social e racial. "Por isso estou nessas frentes que mexem com meu coração. Se eu estou colocando R$ 27 milhões, quero que se transformem em R$ 100 milhões, fazendo parcerias institucionais, trazendo parceiros para ter planos mais estratégicos com o dinheiro. Se eu não conseguir fazer essas coisas, a minha vida perde o sentido. É a minha forma de completar meu coração."

De fato, têm sido dias difíceis para todos, mais difíceis para os mais vulneráveis, além do contexto político que torna tudo mais doloroso e incerto. "A gente está passando por um momento de uma camada muito densa. Tem muita gente deprimida, tem muita gente agressiva, muita gente... A gente não pode usar nossos corpos para serem veículos para transportar esses ódios, esses medos, inseguranças. A gente tem que ir em busca de uma cura, não só em relação à vacina, uma cura emocional, importante que as pessoas estejam bem para poder ajudar o outro", diz Alok. "A música sempre foi para mim um instrumento para transformar um pouco as vidas. E trazer cura. Não a cura fisiológica, mas a cura emocional. Mais do que nunca preciso fazer a minha parte também aqui."