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OPINIÃO

Podcaster é atacada por criar vaga para negras e indígenas. Lei permite?

Deia Freitas está à frente do podcast Não Inviabilize, um dos mais ouvidos do Brasil Imagem: Déia Freitas / Arquivo Pessoal
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Isabela Del Monde

Colunista do UOL

12/01/2022 12h25

Negacionista foi uma palavra que tomou conta das notícias e conteúdos em todo mundo desde 2020 por causa da pandemia. Muitas pessoas simplesmente negam a existência de um vírus mortal ou negam a ciência e se sentem pessoalmente atacadas pelas recomendações de cuidados oferecidas pelas autoridades do assunto.

É um comportamento que causa espanto na maior parte das pessoas. Afinal, como alguém consegue negar a realidade dessa forma tão contundente? Curioso é que algumas dessas pessoas que não se conformam com o negacionismo a respeito de uma pandemia não conseguem enxergar o próprio negacionismo quando o assunto é racismo e machismo.

A podcaster Déia Freitas, que precisou contar com o auxílio emergencial no início da pandemia e agora comanda um dos podcasts mais ouvidos do país, o delicioso e companheiro Não Inviabilize, é a mais nova vítima do negacionismo das estruturas sociais.

Déia é uma mulher negra que prefere contar com pessoas negras e de povos originários em sua equipe.

Para quem é ouvinte fiel desse podcast, como eu, sabe que isso não é nenhuma novidade e que o público tem uma relação de afeto com todas as pessoas que de alguma forma contribuem para que a gente possa se deliciar com a contação de histórias do programa.

Nesta semana, Déia divulgou mais uma vaga para sua equipe. Ela decidiu que seria exclusiva para mulheres negras ou indígenas e que pagaria um total de R$ 22.000,00 para quatro meses de trabalho.

Foi transparente com o processo de construção da vaga e deixou todas as informações sobre os requisitos das candidatas muito explícitas.

Pronto. Foi isso e apenas isso que despertou a fúria dos negacionistas do racismo e do machismo.

Ela sofreu uma série de ataques, especialmente no Twitter, de pessoas que a acusavam de estar promovendo discriminação contra homens e pessoas brancas.

Foi alvo de tentativas de invasão ao e-mail criado para receber os currículos e recebeu uma séria de candidaturas de pessoas brancas.

Mulheres brancas que se apresentam como feministas (liberais, eu suponho) passaram a colocar em dúvida a veracidade do trabalho de Déia.

As pessoas que atacaram esse processo de seleção com ações afirmativas — assim como fizeram com o programa de traine exclusivo para pessoas negras promovido pela Magalu — simplesmente escolhem negar a realidade do país.

Entre 1550 até 1888 as pessoas negras foram escravizadas no país e a abolição da escravização não foi acompanhada por políticas públicas de acesso ao trabalho, à propriedade e à educação, além de ter havido profunda perseguição às manifestações culturais do povo negro.

Os resultados de mais de três séculos de escravização e abolição não finalizada estão entre nós e não vão desaparecer só porque são frutos de eventos históricos distantes ou porque algumas pessoas preferem negar que eles existam.

Assim como um vírus não some só porque o presidente manda a gente parar de chorar.

Você sabia, por exemplo, que o salário de homem branco supera em até 159% o de mulher negra, mesmo ambos tendo graduação no ensino superior? A informação foi trazida pela pesquisa "Diferenciais Salariais por Raça e Gênero para Formados em Escolas Públicas ou Privadas", publicada em julho de 2020 por Beatriz Caroline Ribeiro, Bruno Kawaoka Komatsu e Naercio Menezes Filho, pesquisadores do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa).

Esse é só um dado sobre a desigualdade histórica e estrutural que atinge mulheres negras. Suas vidas são as mais precarizadas em praticamente todas as instâncias. Basta boa vontade e disposição ao conhecimento para acessar essas informações. Basta não negar a realidade dos fatos.

O Estado brasileiro, no segundo mandato do presidente Lula, reconheceu os impactos do processo de escravização contra as pessoas negras e da abolição sem fim e criou, em 2010, o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/10).

Pela lei, estão previstos programas, ações afirmativas e medidas especiais adotados pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das desigualdades raciais e para a promoção da igualdade de oportunidades.

A lei determina ainda que a participação da população negra, em condição de igualdade de oportunidade, na vida econômica, social, política e cultural do país será promovida, prioritariamente, por meio de adoção de medidas, programas e políticas de ação afirmativa destinadas ao enfrentamento das desigualdades étnicas.

Há, ainda, a determinação o Estado para assegurar o acesso ao crédito para a pequena produção, nos meios rural e urbano, com ações afirmativas para mulheres negras. Ou seja, se a lei estivesse sendo cumprida pelo atual governo, a própria Déia Freitas deveria obter acesso facilitado ao crédito.

Expresso minha solidariedade a Déia, que me faz companhia diárias com suas histórias e refrescos ácidos, e desejo força para que continue seu processo seletivo e seu projeto. Essas ameaças de processo, embora sejam desprezivelmente racistas e misóginas, não têm qualquer fundamento na lei. Se alguém deve ser responsabilizado por algo nesse caso, são essas pessoas que estão promovendo a perseguição.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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