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Isabela Del Monde

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Contra assédio, instituições devem supervisionar médicos e professores

O professor Leonardo Ávilla, da Unirio, acusado de assédio sexual e moral por estudantes e pesquisadoras. Ele nega as acusações - Reprodução/TV Globo
O professor Leonardo Ávilla, da Unirio, acusado de assédio sexual e moral por estudantes e pesquisadoras. Ele nega as acusações Imagem: Reprodução/TV Globo
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Isabela Del Monde

Isabela Del Monde é feminista e advogada. Coordenadora do movimento MeToo Brasil, cofundadora da Rede Feminista de Juristas (deFEMde) e sócia da Gema - Consultoria em Equidade

Colunista de Universa

16/12/2021 04h00

Nos últimos dias o Brasil foi impactado por dois grandes casos de relatos de condutas misóginas por dois homens. Um deles é o professor Leonardo Ávilla, da UniRio, que foi acusado de assédio sexual e moral por estudantes e pesquisadoras, e outro é o médico obstetra Renato Kalil, indicado por algumas pacientes como agressivo, inclusive no parto, e assediador.

A probabilidade, considerando o que já vimos em casos anteriores, como de João de Deus e Roger Abdelmassih, é que mais vítimas desses dois homens apareçam nos próximos dias. As primeiras denúncias públicas causam esse efeito cascata na medida em que demais mulheres se sentem encorajadas pelas que vieram antes. Por isso o relato público pode ser tão importante.

O que chama atenção nesses casos de assédios com múltiplas vítimas é que sempre são cometidos por homens que detêm poderes sobre aspectos centrais das assediadas. No caso de médicos, é o poder sobre a saúde e a vida da vítima e, em alguns casos, de suas crianças. No caso de professores, é o poder sobre a carreira acadêmica e profissional.

Evidentemente, não serão todos os homens em posição de poder que abusarão dele, mas alguma parte de homens fará exatamente isso.
A soma do acesso ao poder com a masculinidade dominante, sustentada no ódio às mulheres e no mito de que homens são superiores às mulheres, resulta, naquela parte de homens, no conforto em agir com mulheres de forma completamente abusiva, desrespeitosa e, muitas vezes, criminosa. E, claro, a subjugação social das mulheres que nos obriga ao silêncio para não perdermos nossos empregos e bolsas de estudo, nossa saúde ou até mesmo nossas vidas, conclui a lista de ingredientes do abuso de poder.

É preciso fiscalizar homens que acumulam poder

Considerando, portanto, que essa é a realidade, é fundamental que as instituições, sejam elas escolas, universidades, hospitais, empresas, clubes esportivos, igrejas, veículos de comunicação e todas as demais contem com mecanismos de governança que fiscalizem a atuação cotidiana de todos os homens que acumulam muito poder, especialmente muito poder sobre mulheres.

Não é o primeiro caso de uma universidade que tem um professor abusador moral e sexual de suas orientandas. Por que essas instituições ainda não têm políticas institucionais que determinem que professores com orientandas mulheres passem por treinamento sobre gênero e respeito às mulheres? Por que os hospitais não acompanham a qualidade do compliance de gênero antes, durante e no pós-parto com suas pacientes, com perguntas específicas sobre a conduta do médico?

Infelizmente, ainda há muita inércia para enfrentamento da misoginia e do machismo. Essa inércia é, inclusive, reflexo da ocupação dos espaços de poder e tomada de decisão majoritariamente por homens. Mais mulheres são necessárias para que novas formas de prevenir e tratar dessas questões sejam criadas e implementadas.

Não podemos mais tolerar que homens concentrem enormes poderes sobre a vida de mulheres sem qualquer fiscalização e responsabilização.
Não são casos isolados. Os casos são sempre parecidos, com elementos similares e dezenas, centenas e milhares de mulheres com suas vidas devastadas. Se já sabemos as causas e as consequências, por que ainda vamos continuar agindo como se fosse um problema inédito sem solução? Há soluções simples que podem salvar a vida das mulheres. O que ainda falta é disposição de conhecê-las e implementá-las.