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Uma dose é melhor do que nenhuma? Estudo sobre bebida alcoólica é descartado

Getty Images
Imagem: Getty Images

Roni Caryn Rabin

22/06/2018 17h33

O diretor da principal agência de pesquisa de saúde dos Estados Unidos descartou completamente um estudo sobre os efeitos do álcool, afirmando que um cientista de Harvard e alguns funcionários de sua própria instituição ultrapassaram "tantos limites" em busca de financiamento da indústria de bebidas alcoólicas que "as pessoas haviam ficado realmente chocadas".

A pesquisa interna de 165 páginas preparada pelo doutor Francis Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês), concluiu que Kenneth J. Mukamal, principal pesquisador do estudo, esteve em contato próximo e frequente com executivos da cerveja e do álcool enquanto planejava a pesquisa.

Nesse documento aparecem exemplos perturbadores da ligação entre os cientistas e seus patronos da indústria. Mukamal estava ansioso para acalmar as preocupações destes, responder suas questões, atender sugestões e garantir a adesão do setor.

Mukamal negou várias vezes ter se comunicado com a indústria de bebidas alcoólicas enquanto planejava o teste, dizendo ao Times no ano passado que não tinha "literalmente nenhum contato com a indústria do álcool".

Em um comunicado feito na sexta-feira, afirmou que ele e seus colegas "continuam garantindo com vigor a integridade científica" do estudo.

O relatório, no entanto, documentou reuniões telefônicas que Mukamal teve com empresas de bebidas alcoólicas e incluiu memorandos escritos para responder às preocupações da indústria, muito antes de o NIH anunciar que iria apoiar a pesquisa.

As empresas de cerveja e de bebidas alcoólicas ofereceram suas próprias sugestões para a realização do estudo. A fabricante dinamarquesa de cerveja Carlsberg chegou a sugerir que os centros de testes clínicos fossem estabelecidos na Rússia, na China e na Dinamarca. (Um deles ficou em Copenhagen, mas não houve nenhum na Rússia nem na China.)

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A estratégia de engajamento com a indústria foi efetiva. Cinco grandes empresas de cerveja e bebidas alcoólicas acabaram concordando em pagar a maior parte dos US$ 100 milhões (cerca de R$ 376 mi) do teste randomizado que durou dez anos.

O estudo pretendia testar a hipótese de que uma dose por dia é melhor para o coração do que nenhuma, entre outros benefícios do consumo moderado. Mas o estudo foi concebido de uma forma que não apuraria os danos, como um aumento nos cânceres ou na falência cardíaca associada ao álcool, segundo a investigação.

Os cientistas que desenvolveram o estudo estavam cientes de que o teste não era grande o suficiente para detectar um aumento no câncer de mama, e em 2016 reconheceram aos avaliadores que a pesquisa focava apenas nos benefícios e "não havia sido desenvolvida para identificar os efeitos negativos".

Havia uma sensação clara de que o estudo fora montado de maneira a maximizar as chances de mostrar um efeito positivo do álcool."

Foi o que disse Collins na semana passada, quando aceitou as recomendações dos conselheiros para encerrar o estudo.

"É compreensível que a indústria de bebidas alcoólicas gostaria de ver esse resultado."

Ao mesmo tempo em que Mukamal e membros da equipe do Instituto Nacional de Abuso do Álcool e Alcoolismo (NIAAA, na sigla em inglês) do NIH compartilhavam detalhes do estudo com fabricantes de bebidas alcoólicas e cervejas, os funcionários do instituto estavam envolvidos em subterfúgios dentro da agência.

Eles negaram que discussões com a indústria estavam acontecendo, segundo o relatório, e esconderam informações importantes de Collins.

Em 30 de junho de 2013, quando estavam marcando uma reunião sobre o estudo, membros da equipe trocaram um e-mail avisando que um funcionário que estaria presente não "sabe NADA sobre a possível fonte de financiamento e provavelmente devemos mantê-lo assim por enquanto".

Desde o início, os membros mais antigos da equipe do instituto tinham consciência de que a indústria poderia usar as descobertas com propósitos promocionais e de marketing.

Em junho de 2013, parte da equipe do instituto elaborou um plano de negócios que defendia o apoio financeiro do setor. "Assim que os dados forem liberados para o domínio público através de publicação, a indústria poderá usar a informação para fazer ou reforçar qualquer argumento e reivindicação que quiser", dizia o texto.

E continuava: "Nesse ponto, o NIAAA e o NIH vão estar fora do processo".

Se o estudo não encontrasse benefícios para a saúde no consumo moderado, mas também não oferecesse evidências de danos, os resultados ainda seriam bons para os fabricantes de bebidas. Os resultados iriam contrariar um documento de 2014 da Organização Mundial de Saúde segundo o qual não há níveis seguros de consumo de álcool porque essas bebidas aumentam o risco de câncer.

Na verdade, em 26 de fevereiro de 2015, Mukamal e membros da equipe do instituto de álcool editaram um e-mail para um grupo da indústria para dizer que uma das descobertas importantes do estudo "será mostrar que o consumo moderado é seguro".

"Como discutimos, esta será a primeira evidência de um teste clínico randômico 'padrão-ouro' dessa informação. E é importante responder a afirmações feitas pela OMS e por outros de que 'nenhuma quantidade de álcool é segura' com certeza", escreveram eles.

O álcool, que é classificado como um carcinogênico, está ligado a um pequeno aumento de câncer de mama mesmo com apenas uma dose por dia. Uma das principais críticas do estudo desde o começo é que não seria grande nem duraria tempo suficiente para detectar aumento no número de cânceres, que são de crescimento lento, entre as pessoas que tomam bebidas alcoólicas.

Barry S. Kramer, diretor de prevenção de câncer do Instituto Nacional do Câncer, que analisou o plano do estudo como parte do relatório do comitê consultivo, concordou com essa avaliação. "O teste foi montado para mostrar os benefícios e deixar de lado os danos" do consumo de álcool, escreveu.

As anotações da comunicação de Mukamal com os fabricantes de bebidas alcoólicas sugerem que ele queria acalmar as preocupações de que o estudo pudesse encontrar um aumento no câncer de mama.

O protocolo do teste pedia a inscrição de adultos com 50 anos ou mais, que correm mais riscos de sofrer de doenças do coração. Mas as taxas de câncer de mama também são maiores nessa idade.

"Câncer de mama será um dos resultados de segurança medidos?" Essa foi uma das perguntas que um grupo apoiado pela indústria de bebidas alcoólicas fez.

"A intenção é publicar os resultados mesmo se eles sejam pouco desejáveis, ou seja, negativos ou mistos?", perguntou um representante da Suntory, empresa que vende vinhos, cerveja e uísque durante uma teleconferência com Mukamal em 8 de dezembro de 2014.

"Sim", respondeu Mukamal, segundo anotações da chamada publicadas no relatório do comitê consultivo. "Não estamos inscrevendo pessoas com alto risco de câncer de mama."

Antes, na mesma ligação, um representante da indústria do álcool perguntou se era possível que outra agência de saúde como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, pudesse "gostar da ideia" de um estudo sobre o álcool "e ter resultados diferentes".

"Sim, fomos abordados por diversos grupos, e alguns deles têm intenções muito diferentes, por exemplo, investigar a relação do álcool e do câncer de mama", respondeu Mukamal.

Talvez os primeiros sinais de que algo estava errado pudessem ter sido percebidos nos e-mails entre os membros da equipe do NIAAA em que debatiam que nome dar ao estudo. É normal que cientistas criem siglas que sirvam de apelidos para os estudo e abreviações para títulos científicos longos e complicados.

Um membro da equipe informou a outro em 13 de junho de 2013 que o nome desse estudo clínico seria "Cheers" (saudação em inglês feitas nos brindes) ¬– abreviação de "Cardiovascular Health Effects of Ethanol Research Study" (Estudo sobre os efeitos do etanol na saúde cardiovascular).

"E será um novo jogo com as bebidas", afirmou o funcionário. "Toda a vez que você ouvir o nome, deve achar que é um brinde e tomar uma dose."

Mais tarde, essa ideia foi abandonada em favor de uma sigla mais sóbria, MACH, para "Moderate Alcohol and Cardiovascular Health" (Consumo moderado de álcool e a saúde cardiovascular).