Pela continuidade de algo grande, importante e glorioso

Nina Silva | Por Helton Simões Gomes, editor de diversidade do UOL

O exame de DNA se popularizou. Mais barato e fácil de fazer, ele virou uma importante ferramenta para resgatar a ancestralidade negra do povo brasileiro. Tilt propôs, e 20 personalidades toparam fazer o teste e olhar para essa cicatriz histórica gerada pela escravidão no Brasil (veja abaixo). Se você quer entender o papel da ferramenta genética e como o Estado brasileiro moeu memórias, leia o texto "Quando o DNA diz de onde vim", que dá início ao projeto documental Origens. Agora, é hora de elas contarem o que descobriram e de onde vieram. Com a palavra, Nina Silva:

Não há um 'Nina pré-teste' ou 'Nina pós-teste'. Eu me autodeclaro uma africana nascida na diáspora e já sabia que não tinha grandes mestiçagens e raízes no Brasil"

Este é um capítulo da série

Origens

Quem não sabe de onde veio não sabe para onde vai?

Olhar para o lado e não ver semelhantes é cada vez menos comum para a executiva Marina Silva, a Nina. De tanto intensificar o contato com o empresariado negro, a fundadora do Movimento Black Money e da fintech D'Blackbank já colhe os frutos e se cerca dos seus. Agora, anda inquieta por buscar negócios fora do país. A nova caminhada foi impulsionada pelo resultado do teste de DNA, que trouxe detalhes sobre quais regiões guardam seus laços genéticos.

"Devo dar entrada em alguma cidadania. Do Benin, nigeriana, angolana... Vou pedir para todo mundo, quem me der deu. Tem branco com cidadania de 500 lugares, chave da cidade e tal. Quero a chave de todas as cidades possíveis na África."

Agora ligue o som, no canto superior direito.

Nascida e criada em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, Nina recebeu pouquíssimos detalhes de suas raízes. A família da mãe vem de uma região de plantação de cana-de-açúcar no interior do Estado, enquanto a do pai é toda de Salvador (BA). Ninguém sabia onde as histórias começam, antes de chegarem ao Brasil. As reflexões sobre ancestralidade eram escassas dentro de casa, e o "letramento racial", raso. "Faziam outros tipos de proteção à criança preta, mas não verbalizavam", lembra.

O processo escravocrata em torno do canavial marcou a família materna. Todos moravam em uma comunidade remanescente de um quilombo, além de ter o mesmo sobrenome, igual ao do antigo senhor. E, da avó à mãe, passando pelas tias, seguiram na mesma labuta. Isso contribuiu significantemente para as memórias serem limitadas. "Passei o resultado do teste para meus pais e eles ficaram bastante felizes de terem algumas informações, mesmo sem saber de que lado veio. Não tinham a mínima noção", conta.

"Na minha cabeça, sempre fui muito preta, não tem como fugir", diz Nina. Só adulta, entretanto, ela percebeu que, ao seu redor, havia muitas pistas da herança deixada pelos antepassados. Na área remanescente do quilombo, por exemplo, viu pela primeira vez o jongo, dança em roda de matriz africana, e guardou a referência de sabores e jeitos de lidar com o alimento.

"Já sabemos dos pormenores da história [da escravidão], mas as consequências também são muito pesadas", afirma a empresária. O racismo, diz ela, não só impediu o surgimento de memórias como apartou a própria família: como o avô não criou o pai de Nina, ela foi afastada da família paterna e conviveu com diversos tios; envolvidos no intenso trabalho no canavial e na pesca, os avós maternos passaram pouco tempo com filhos e neto; desde muito cedo, a mãe foi trabalhar como doméstica na cidade grande...

"É um processo de desconexão familiar que acontece desde que somos desembarcados aqui, e as famílias são separadas. A gente continua sofrendo isso ao longo dos séculos: famílias separadas por brigas afetivas, pela não-construção familiar de um homem negro encarcerado, por um homem negro morto, pela mulher negra que vive e trabalha essa solidão... É um processo estrutural".

Ainda que o teste tenha sido uma ferramenta importante na construção de sua identidade, Nina temeu fazer o exame. "Não passava pela minha cabeça: 'nossa, será que vai dar um porcentual grande fora do continente africano e eu vou ficar mal com isso ou vou descobrir estupros na família ou que sou menos preta do que a minha melanina representa'. Foi muito mais uma não-confiança na branquitude do que medo dessa exposição genética", diz.

Ela receava duas coisas: que o resultado não fosse satisfatório, porque os bancos genéticos são muito eurocêntricos e poderiam ter detalhes insuficientes sobre povos africanos, e que as informações fossem usadas propositadamente de forma negativa em áreas da saúde pública —por exemplo, criarem remédios ou vacinas que não atendam o DNA dos afrodescendentes.

Depois da pandemia, Nina pretende visitar países da África, a começar pelo Benin —por conta das "histórias de mulheres rainhas, guerreiras, onde é muito forte o matriarcado e a resistência aos processos de colonização". O teste de DNA reforçou a vontade de estar lá e se aproximar de algo que já havia conseguido por meio da religião. "Sou candomblecista, tenho o conhecimento da linhagem espiritual. Com o teste, consegui fazer esse match com a espiritualidade também."

O plano é buscar uma cidadania e começar uma conexão formalizada. Buscar mais referências fenotípicas e ancestrais, mas também recriar negócios, conhecer soluções e estabelecer trocas construtivas. "Um tráfego de informações, um hackeamento de sistemas", diz. "E também falar: eu tenho lugar no mundo, sei de onde vim e esse lugar me reconhece como filha desta terra."

"Eu posso recriar esse afro futuro, alimentando minhas origens e tentando deixar um pouco de lado esse processo cruel dos últimos quatro séculos no Brasil."

Nina planeja virar mãe em um futuro próximo e quer passar aos filhos e também sobrinhos todo o conhecimento recém-adquirido para fortalecê-los. "Esse mapeamento traz subterfúgios para eles saberem mais e se orgulharem", acredita. "Eu espero poder dar deste alimento, um pouquinho mais de enegrecimento sobre a história ancestral."

Este é um capítulo da série

Origens

Quem não sabe de onde veio não sabe para onde vai?

Testes de DNA:

  • Como o teste é feito: o DNA é coletado pela própria pessoa que esfrega uma haste flexível com algodão na parte de dentro da bochecha. Na sequência, este material deve ser enviado para a empresa;
  • O que o teste mostra: As empresas fornecem detalhes da ancestralidade, que pode retroceder de cinco a oito gerações, e pode mostrar a linhagem de pai e mãe ou até busca de parentes;
  • Quem oferece no Brasil: Genera, meuDNA (Mendelics) e MyHeritage;
  • Quanto custa: os testes variam de R$ 200 a R$ 500.

Publicado em 29 de abril de 2021.

Reportagem: Helton Simões Gomes e Lola Ferreira

Coordenação e Edição: Fabiana Uchinaka e Helton Simões Gomes

Produção: Barbara Therrie

Arte: Suellen Lima

Fotos: Keiny Andrade