Resgatar e devolver o bem que os ancestrais fizeram

Lisiane Lemos | Por Guilherme Tagiaroli, repórter de Tilt

O exame de DNA se popularizou. Mais barato e fácil de fazer, ele virou uma importante ferramenta para resgatar a ancestralidade negra do povo brasileiro. Tilt propôs, e 20 personalidades toparam fazer o teste e olhar para essa cicatriz histórica gerada pela escravidão no Brasil (veja abaixo). Se você quer entender o papel da ferramenta genética e como o Estado brasileiro moeu memórias, leia o texto "Quando o DNA diz de onde vim", que dá início ao projeto documental Origens. Agora, é hora de elas contarem o que descobriram e de onde vieram. Com a palavra, Lisiane Lemos:

Por um lado, é triste não ter acesso a gerações de nossa família. Ao mesmo tempo, um teste de DNA, uma parte boa da tecnologia, pode reescrever essa história"

Este é um capítulo da série

Origens

Quem não sabe de onde veio não sabe para onde vai?

Não foi fácil para Lisiane Lemos, 31, nascer em uma cidade do interior, no estado com o maior número de pessoas que se declaram brancas do país. Em Pelotas (RS), viveu o racismo desde sempre e precisou criar maneiras de ultrapassá-lo.

Não à toa, depois de construir sua carreira nas grandes empresas de tecnologia, passando por Microsoft e Google, criou a ONG Rede de Profissionais Negros, que ajuda a inserir mais pessoas como ela no mundo corporativo. Por esse trabalho, foi considerada uma das pessoas negras mais influentes do mundo pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Para se ter uma ideia, sua cidade natal é um marco da colonização portuguesa e, nos séculos 18 e 19, recebeu os escravizados rebeldes. Na cidade de clima temperado, bem diferente do Nordeste de onde partiam, eles trabalhavam como punição em charqueadas (propriedades onde se fazia o charque), manipulando o sal que era usado na carne seca —o que reduzia drasticamente a expectativa de vida dessas pessoas.

"Fui criada numa cidade que tem essa história de opressão e separação racial e classista. O primeiro monumento, quando você entra na cidade, é o escravo puxando uma embarcação pelo dente."

Foi nesse contexto que a advogada ganhou consciência racial e estabeleceu desde muito jovem uma conexão profunda com o continente africano. Ela ansiava por saber mais sobre seu povo de origem e isso foi alimentado ao longo da vida por pais muito atuantes e uma tradição de mulheres acadêmicas em sua família —a avó formou-se professora e dedicou-se a comunidades carentes e sua mãe é pesquisadora de patrimônio material relativo à população negra.

Agora ligue o som, no canto superior direito.

"Eu literalmente não sei de onde eu vim, e essa é uma pergunta que norteou a minha vida. Na infância, me apresentaram como gaúcha, né? Mas todos os meus colegas sabiam de que vilarejo [da Europa] eles vinham. Eu só sabia que minha trisavó morreu de bala perdida no campo de Canguçu, uma cidade aqui do lado. Não vai muito longe. Ninguém sabe de onde vieram os escravos."

A vontade de saber mais também aumentou quando vieram os primeiros episódios de racismo na escola. Logo menina, já foi a única preterida de uma festa de aniversário, e os pais a chamaram "para ter aquela conversa". Depois, numa aula de história sobre a escravidão, que romantizou o papel da princesa Isabel na "solução do problema", sentiu vontade de visitar a África e tentar entender de verdade como tinha vindo parar aqui. Nessa época, apesar da violência vivida no colégio, refugiou-se no estudo e descobriu pela leitura cidades, culturas e outros idiomas.

Lisiane já fez dois testes de DNA. No primeiro, o foco eram as informações de saúde que apontam propensão a desenvolver algumas doenças. O segundo foi o que traçou sua ancestralidade. E uma pessoa que trabalha no mundo tech teme expor seus dados genéticos? "Todo mundo tem medo e fala 'ah, por que vou entregar os dados'... Gente, o [Mark] Zuckerberg já sabe tudo o que eu faço e também a operadora do cartão de crédito já sabe como eu me comporto. Não é minha maior preocupação."

Ela conta que foi movida pela curiosidade, mas que já esperava o resultado sobre a parte africana da história. O que não esperava eram detalhes sobre a ascendência europeia: 23,4% de norte da Europa, o que significa antepassados na Dinamarca, Finlândia ou Suécia.

"Essa quarentena me deu a oportunidade de conversar muito com os meus pais sobre isso, até minha avó veio ficar com a gente e pude conviver com ela. Era um assunto que eu não conversava antes. Mesmo assim, só consigo voltar duas gerações."

"Olha a carinha dela, que escandinava essa menina", brincaram os familiares, depois que ela mostrou o exame. Esta foi a parte mais intrigante e inesperada do mapa genético. Mas, além das piadas, o teste desencadeou uma conversa sobre semelhanças. A mãe de Lisiane, que trabalhou com imigrantes nas periferias de Portugal, começou a ver semelhanças físicas, como o rosto arredondado ou o formato do nariz.

O teste não preencheu todas as lacunas, mas deu a Lisiane, que já morou em Moçambique, uma oportunidade de resgatar mais da história dos antepassados e se aproximar de Angola, uma antiga paixão. "Agora, quero que essa vacina chegue de uma vez para eu poder ir a Angola e conseguir o meu visto, que vai demorar uma vida, mas tudo bem", diz.

Curiosamente, sua ligação mais próxima com o norte da Europa é seu marido, um brasileiro descendente de dinamarqueses. E esse novo dado sobre genes escandinavos em seu sangue fez surgir novos olhares para o impacto que esse tipo de informação pode ter na sua família interracial.

"E considerando que nós dois somos da mesma cidade, que a família do meu marido está há muitas gerações aqui, é bem provável que a família dele tenha sido dona de alguns dos meus ancestrais."

Testes de DNA:

  • Como o teste é feito: o DNA é coletado pela própria pessoa que esfrega uma haste flexível com algodão na parte de dentro da bochecha. Na sequência, este material deve ser enviado para a empresa;
  • O que o teste mostra: As empresas fornecem detalhes da ancestralidade, que pode retroceder de cinco a oito gerações, e pode mostrar a linhagem de pai e mãe ou até busca de parentes;
  • Quem oferece no Brasil: Genera, meuDNA (Mendelics) e MyHeritage;
  • Quanto custa: os testes variam de R$ 200 a R$ 500.

Publicado em 12 de maio de 2021.

Reportagem: Guilherme Tagiaroli

Coordenação e Edição: Fabiana Uchinaka e Helton Simões Gomes

Produção: Barbara Therrie

Fotos: Keiny Anrade

Colagens: Marcel Lisboa

Este é um capítulo da série

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