PUBLICIDADE
Topo

Motoristas de Uber relatam agressões sexuais de passageiros e questionam segurança

A motorista do aplicativo Uber, Margaret Bordelon, vítima de agressão sexual por parte de um passageiro nos EUA - Callaghan O"Hare/Reuters
A motorista do aplicativo Uber, Margaret Bordelon, vítima de agressão sexual por parte de um passageiro nos EUA Imagem: Callaghan O'Hare/Reuters

Por Tina Bellon

10/03/2020 13h15

Margaret Bordelon ainda sente as mãos do homem bêbado que tentou beijá-la no final de sua corrida de Uber em setembro passado, em Lafayette, Louisiana.

Motorista da Uber por apenas alguns meses, Bordelon, de 45 anos, finalmente convenceu o cliente a deixá-la ir. Como ele pediu a corrida através de uma amiga, ela não sabia o nome dele.

Depois de relatar o incidente por telefone à Uber na mesma noite, um representante da empresa disse que ela não seria mais emparelhada com a titular da conta. Além disso, havia pouco mais que ela poderia fazer para se proteger.

"Quando perguntei à Uber o que iriam fazer para proteger a mim e a outras mulheres, não recebi resposta", lembrou Bordelon.

A Uber reiterou a mensagem por escrito no dia seguinte, dizendo que qualquer comportamento que envolva violência, má conduta sexual ou atividades ilegais "pode resultar na perda imediata de acesso ao aplicativo" para o cliente.

A Uber se recusou a dizer especificamente como respondeu no caso de Bordelon, e outras 14 motoristas norte-americanas com quem a Reuters conversou disseram que a Uber nunca lhes disse que medidas a empresa tomou depois de denunciarem agressões ou assédio sexual por parte dos clientes.

"A segurança é essencial para a Uber", disse um porta-voz em comunicado. "Nos últimos dois anos, lançamos mais recursos (de segurança) do que nos oito anteriores".

As 15 mulheres entrevistadas pela Reuters, contatadas por meio de grupos de apoio em redes sociais, não representam uma revisão abrangente da resposta da Uber a alegações de atos de violência contra motoristas. Mas os dados publicados pela Uber em dezembro mostraram que motoristas eram as vítimas em quase metade dos cerca de seis mil relatos de violência sexual durante corridas nos Estados Unidos em 2017 e 2018.

As entrevistas e os dados mostram como os esforços da Uber para proteger a privacidade do cliente às vezes entram em conflito com a segurança de alguns de seus motoristas. A extensão da responsabilidade da Uber pela segurança de seus motoristas, de acordo com especialistas jurídicos e registros judiciais, também está ligada a uma questão legal ainda não resolvida de se eles são prestadores de serviços independentes - como a empresa alega - ou funcionários contratados.

Se os motoristas forem classificados como funcionários, eles poderão se unir para resolver problemas de segurança ou processar a Uber por danos decorrentes do sistema de compensação de trabalhadores dos EUA, disse Pauline Kim, professora de direito da Universidade de Washington em St. Louis.

Por exemplo, na cidade de Nova York, maior mercado de táxis do país, a maioria dos motoristas de táxi é considerada funcionário de acordo com a lei estadual, com direito a proteções de remuneração dos trabalhadores.

No entanto, como independentes, os motoristas não têm esses direitos garantidos e não podem reivindicar benefícios da Uber.

A Uber diz que a maioria de seus motoristas não quer ser funcionário, valorizando a flexibilidade do trabalho sob demanda. Seu modelo de negócios depende de motoristas independentes de menor custo e, em teoria, também protege a empresa de reivindicações legais.

Motoristas que sofrem uma agressão podem processar a Uber por danos, mas advogados disseram à Reuters que estão relutantes em assumir esses casos por um risco de que isso possa consolidar o status independente dos motoristas perante um tribunal.

É claro que os motoristas ainda podem processar o agressor, mas as pessoas raramente têm o patrimônio para pagar pelos processos jurídicos e as apólices de seguro geralmente não cobrem atos criminosos.

A Uber disse à Reuters que seus motoristas, como independentes, têm o direito de recusar ou cancelar qualquer solicitação de viagem e podem encerrar uma viagem se não sentirem-se seguros.

Mas alguns motoristas disseram que os esforços da Uber para resolver as questões de segurança são unilaterais.

"Preciso fornecer minha carteira de motorista, fotos do meu carro, registro, seguro, resultados de inspeção e uma selfie antes de começar a dirigir. Mas os passageiros nem precisam usar seus nomes reais", disse Melissa Campbell, 48, motorista da Uber em Eugene, Oregon.

Mesmo que o passageiro use seu nome verdadeiro, os motoristas não poderão mais visualizar os detalhes do perfil após a viagem ser concluída para proteger a privacidade do cliente. Em respostas por escrito aos motoristas que enviam relatórios de segurança, a Uber disse aos motoristas que podem relatar incidentes à polícia, que pode registrar uma solicitação para obter informações pessoais dos passageiros.

Em um relatório de novembro, a Uber informou que recebeu quase 22 mil solicitações da polícia dos EUA para obter informações sobre usuários em 2018 e entregou pelo menos alguns dados em 72% dos casos.

Quando Bordelon, em fevereiro, perguntou sobre o resultado de seu caso, a Uber disse a ela que analisou completamente o relatório e tomou as medidas apropriadas com a conta desse usuário e a encaminhou para uma linha direta nacional de agressão sexual, de acordo com uma mensagem vista pela Reuters.

Desde o incidente de setembro em Lafayette, Bordelon reduziu pela metade o seu horário de trabalho, que era de cerca de 40 horas por semana, e passou a carregar uma arma de choque não letal, permitido pela Uber, se usada para defesa.