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Cientistas captam imagem mais nítida já feita de buraco negro na Via Láctea

Guilherme Tagiaroli

De Tilt*, em São Paulo

12/05/2022 10h09Atualizada em 12/05/2022 16h00

Cientistas do EHT (Event Horizon Telescope), uma colaboração internacional de radiotelescópios e observatórios, conseguiram captar a imagem mais de um buraco negro no meio da Via Láctea, a galáxia onde fica o Sistema Solar e, consequentemente, nosso planeta.

O anúncio da imagem do Sagitário A*, como foi batizado o buraco negro, foi feito nesta quinta-feira (12) em evento internacional com cientistas do EHT e do ESO (Observatório Europeu do Sul).

"Ficamos impressionados em como o tamanho do anel [do buraco negro] está de acordo com as previsões da Teoria da Relatividade Geral de Einstein", disse o cientista Geoffrey Bower, do projeto EHT, em comunicado à imprensa.

Buraco negro Sagitário A* Imagem: Reprodução/YouTube

"Essas observações sem precedentes têm melhorado nossa compreensão sobre o que acontece no centro de nossa galáxia e oferece novos entendimentos de como estes buracos negros interagem com seus arredores", acrescentou.

Por que a imagem parece borrada?

Quem não acompanha de perto a astronomia pode achar a imagem divulgada pelos pesquisadores esquisita, dado que ela tem características um pouco borradas. Isso ocorre, pois essa "foto" foi resultado de milhares de captações feitas, com diferentes orientações de movimentação do buraco negro e a mudança dos pontos brilhantes.

"É como se você quisesse tirar uma foto nítida de um cachorro que quer pegar seu rabo", comentou Chi-Kwan Chan, cientista do EHT, à agência de notícia AFP.

Como os buracos negros não emitem luz, o grande desafio em ter uma imagem deles é captar a "silhueta" causada pela flexão gravitacional da luz em gravidade extrema. Por essa razão, a única forma de ter uma "foto" deles é usando o espectro de micro-ondas, combinando o poder de diferentes observatórios.

O que é exatamente um buraco negro?

De forma resumida, buracos negros são objetos espaciais muito densos com gravidade tão forte que nem a luz nem a matéria conseguem escapar deles.

Algo que sempre intrigou cientistas é o estudo do "horizonte de eventos" ou ponto de não retorno, que marca a região entre o espaço e a parte de dentro do buraco — uma vez que algo entra lá, não consegue mais escapar.

Imagem do observatório ALMA, no deserto do Atacama (Chile), com perspectiva do buraco negro Sagitário A* Imagem: José Francisco Salgado/ESO e EHT

Características importantes do Sagitário A*

O que chama a atenção no Sagitário A* é justamente sua proximidade com a Terra. Enquanto o buraco negro M87 descoberto em 2019 (cuja imagem viralizou à época) fica a mais de 50 milhões de anos-luz da Terra, o do anúncio de hoje fica a apenas 27 mil anos-luz.

À esquerda, a imagem do buraco negro M87* descoberto em 2019, e à direita, o Sagitário A*, que fica no centro da nossa galáxia Imagem: EHT

Sem contar que o Sagitário A* é muito menor que o M87*. Este que fica no nosso "quintal" tem 4 milhões de vezes a massa do Sol, enquanto o segundo tem quase 7 bilhões de vezes. Seu tamanho reduzido foi um dos desafios para a captação de imagem dele, que reuniu vários telescópios espalhados por toda a Terra.

O importante de ter registros dos dois em imagens, em locais tão distantes e com tamanhos tão distintos, é justamente entender a diferença de comportamento entre eles.

"Temos imagens de dois buracos negros para que possamos ir muito mais além em testar como a gravidade se comporta nesses ambientes extremos", disse o cientista Keiichi Asada, do EHT, em comunicado.

Equipe gigantesca fez parte do registro inédito

O EHT é uma rede internacional de oito observatórios radioastronômicos, incluindo um localizado em Sierra Nevada (Espanha) e outro no deserto de Atacama (Chile).

A imagem apresentada é o resultado de várias horas de observação realizadas essencialmente em 2017, além de cinco anos de cálculos e simulações realizados por mais de 300 pesquisadores de 80 institutos.

O gás que o envolve precisa apenas de 12 minutos para dar a volta nesse objeto galáctico, quase à velocidade da luz, enquanto no caso do M87* leva duas semanas. Isso significa que a luminosidade e a configuração do gás mudaram muito rapidamente durante a observação.

O que vem a seguir

Pesquisadores agora vão estudar novas teorias e modelos de como o gás se comporta em torno desses buracos negros.

Esse é um processo desconhecido e acredita-se que ele possa ajudar a entender a formação e evolução das galáxias. Além disso, especialistas poderão explorar fenômenos como as deformações do espaço-tempo perto de um objeto supermassivo, previstas na teoria da relatividade geral que Albert Einstein formulou em 1915.

*Com informações da AFP.

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