PUBLICIDADE
Topo

Cidades submarinas: como seria se humanos pudessem respirar sob a água?

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

30/03/2021 04h00

Como seria se nós, humanos, não tivéssemos essa limitação e fôssemos capazes de respirar normalmente sob a água? Será que teríamos cidades submarinas ou seríamos capazes de explorar melhor as profundezas dos oceanos?

Por um momento, pense em quanto tempo você consegue ficar sem respirar debaixo d'água. Certamente menos do que o croata Budimir Sobat, detentor do recorde mundial de apneia após consumir oxigênio puro: em 2018, ele ficou 24 minutos e 11 segundos submerso. Mas precisaríamos de muito mais do que isso, claro.

Mamíferos ou peixes?

O primeiro ponto a ser discutido é: se respirássemos sob a água, seríamos humanos? Considerando a descrição da espécie Homo sapiens feita por Carlos Lineu, botânico, zoólogo e médico sueco e considerado como o pai da taxonomia moderna, nós não poderíamos ser enquadrados como exemplares dessa espécie. Mas se não fôssemos humanos, seríamos o quê?

Sim, sabemos que existem mamíferos aquáticos, mas nenhum deles é capaz de respirar sob a água. Eles tem que emergir sempre que precisam de ar.

Então é bem provável que, nesse cenário hipotético, a gente guardasse mais semelhanças com os peixes do que com os mamíferos. Isso porque precisaríamos de uma estrutura básica para nossas aventuras subaquáticas: brânquias.

Nos peixes —e nessa suposta versão de pessoas capazes de respirar sob a água—, as brânquias atuam como uma via de mão dupla: elas fazem uma troca gasosa, absorvendo o oxigênio da água e eliminando o gás carbônico acumulado no corpo do animal.

Descobridor dos sete mares

Ainda que em termos técnicos esses homens-peixes não pudessem ser considerados humanos, vamos para uma abordagem mais prática e considerar que, sim, esses seres inventados por nós neste texto carregariam diversos traços da humanidade.

Um deles é a busca por expandir seus domínios. E se ainda hoje os humanos se aventuram na menor parte do nosso planeta —considerando que apenas cerca de 30% do planeta não é coberto pelas águas dos oceanos— imagina só o quanto seria possível explorar se tivéssemos acesso fácil aos 70% restantes?

Isso, claro, poderia ter resultados positivos e negativos. Dentro do "lado bom" está o fato de que há milhões de espécies marinhas que nunca foram catalogadas. Ter acesso irrestrito ao oceano certamente garantiria avanços nesse sentido.

O lado ruim, porém, seria um provável aumento na presença de lixo no oceano e também de poluição de uma forma geral, afinal é bem provável que esses "homens-peixes" teriam que fazer suas necessidades na água.

De quebra, temos uma natureza predatória, o que poderia significar problemas para a vida marinha como um todo. Afinal, ao viver no mar, comeríamos o que? Algas, peixes? Usaríamos ferramentas para caçar nossos alimentos? Isso certamente causaria um desequilíbrio no ambiente.

Nosso corpo não está preparado

Por incrível que pareça, um dos maiores entraves à exploração dos oceanos não está na nossa incapacidade de respirar sob a água. Claro que ter uma habilidade do tipo sem dúvida ajudaria, mas ela sozinha pouco significa.

Isso porque de que adianta respirar sob a água se você não conseguir armazenar ar nos pulmões? Aqui, a pressão é a maior vilã e mesmo um mergulho de 20 metros praticamente dobra a pressão externa sobre nosso corpo, fazendo com que nossos pulmões sejam capazes de armazenar a metade do ar se comparado ao que ocorre na superfície ou fora d'água.

Precisaríamos, portanto, de um corpo capaz de suportar essa pressão. Ainda assim, dependendo do quão fundo estivéssemos, voltar à superfície rapidamente poderia ser perigoso, já que há o risco de embolia gasosa, que é quando os vasos sanguíneos são obstruídos por bolhas de gás.

Dada a nossa incapacidade de sobreviver em meios de alta pressão, é bastante provável que nossa aventura como "homens-peixes" acabaria bastante limitada. Isso porque a profundidade média dos oceanos é de 3,7 km, o que implica dizer que, se fôssemos construir cidades submersas sem qualquer tipo de pressurização, isso poderia ser feito apenas em áreas costeiras. Já em alto mar, essas construções teriam que ter algum tipo de tecnologia que as fizessem ficar paradas em uma determinada profundidade.

Convenhamos: parece bem mais prático continuarmos vivendo em terra firme, não é mesmo?

Fonte:
Ana Bonassa, bióloga e doutora em ciências pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).