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Filtro anti-5G em parabólica é mais barato, dizem teles; Anatel discorda

Rafael Luiz Azevedo/Agência Pública
Imagem: Rafael Luiz Azevedo/Agência Pública

Felipe Oliveira

Colaboração para Tilt

16/10/2020 15h47

Uma das discussões mais importantes com relação ao 5G no Brasil envolve a interferência de sinal que a tecnologia pode causar nas antenas parabólicas. Apresentado na quinta-feira (15), um estudo da Conexis — sindicato patronal que representa as operadoras de telefonia— apontou como solução a oferta de filtros para a população de baixa renda, alegando ser a mais barata.

Apesar de ainda não ter os números em mãos, o conselheiro da Anatel, Moisés Moreira, discorda dos cálculos do estudo. Para ele, os custos entre a mitigação e a migração do sinal da parabólica são semelhantes.

Atualmente, as opções para resolver a interferência 5G no sinal das parabólicas são duas:

  • Mitigação: opção favorita das teles. Seria instalar filtros nas antenas para manter o uso da Banda C dos satélites;
  • Migração: opção favorita dos canais de TV. Seria levar seus canais para a banda Ku, que hoje é usada pela Sky. Esta opção levaria à troca dos receptores, antenas e equipamentos transmissores dos canais.

As parabólicas são responsáveis por levar sinal de TV aberta para 22,1 milhões de lares em todo o Brasil. Segundo o estudo do Conexis, colocar filtros nas antenas para reduzir a interferência teria um custo 7,8 vezes menor do que migrar o sinal para a banda Ku —faixa de frequência usada nas comunicações com satélites.

Atualmente a base receptora da televisão doméstica está na banda C. Testes mostraram que o uso de uma das faixas de frequência usadas para o 5G, a de 3,5 GHz, gera interferência na transmissão feita por meio dessa banda. Por isso, tem-se discutido migrar o sinal de TV para outra banda, a Ku, que opera de 14 a 14,5 GHz.

Mas o estudo apresentado pela Conexis, realizado pela consultoria LCA, concluiu que essa seria a opção mais cara: sairia, no mínimo, por R$ 1,8 bilhão. Já a oferta de filtros ficaria em torno de R$ 224,1 milhões e, segundo o documento, seria uma solução com "eficiência técnica e econômica".

Custo médio seria de R$ 196 por usuário

Para chegar ao número, a LCA levou em consideração 1,37 milhão de famílias de baixa renda que estão registradas no Cadastro Único do governo federal. Além disso, suas casas estariam em locais de efetiva interferência do 5G e acessariam a TV aberta exclusivamente pelas antenas parabólicas.

A consultoria ainda considerou o dólar na casa dos R$ 4,18 para cálculo. Segundo a LCA, o custo médio para a mitigação seria de R$ 196 por usuário.

Desse valor, R$ 76 seriam para a troca do LNBF Monoponto (peça que faz a comunicação entre o satélite e a antena) e R$ 120 são para custos de deslocamento e mão de obra.

Para efeito de comparação, a consultoria diz que o custo médio por usuário no caso de migração seria de R$ 482,80, sendo R$ 279,50 para o kit recepção (antena parabólica, LNBF Banda Ku, receptor e cabo coaxial RG59/RG6) e R$ 203,30 com mão de obra e deslocamento.

Pelo critério definido pela consultoria, pessoas que não tem acesso a programas como o Bolsa Família teriam de arcar com os custos do próprio bolso. Nesse critério entraria cerca de 6 milhões de famílias, que juntas gastariam um valor total na casa de R$ 1 bilhão.

Anatel discorda dos valores

A Anatel —que deverá decidir entre a migração ou a mitigação— confirmou que ainda não tem os dados do estudo, mas disse que uma apresentação da Conexis está agendada para quinta-feira da próxima semana (22). Mas o conselheiro da agência, Moisés Moreira, já discorda dos cálculos.

"A informação que tive é que eles colocaram o preço do kit em R$ 269. Primeiro, se você entrar em contato com uma empresa aqui em São Paulo, a Eutelsat, por exemplo, já nos cravou que colocaria o kit a R$ 200. Outra coisa que eles consideram é uma mão de obra para implantar o kit da banda Ku. Mas o kit é levinho, você mesmo instala na sua casa. O cálculo que temos hoje para instalação de antena é de R$ 80", afirma.

O conselheiro ainda disse ter informações extraoficiais de que empresas chinesas podem fornecer esse material por um preço ainda menor, o que deixaria a migração mais barata.

"Quando falo que os valores são equivalentes, falo com convicção. Sobre o valor do kit, o estudo da Conexis não considera o receptor digital, que seria importantíssimo", afirmou.

Outro questionamento de Moreira é sobre os 1,3 milhão de domicílios a serem custeados pelo governo. "A interferência não é só na área rural, mas também na área urbana. No Rio de Janeiro tem bairros retirados que são afetados, em Belo Horizonte também. Esse 1,3 milhão não dá para cravar nem de longe", opinou.

Além disso, o conselheiro vê um ponto mais atraente na migração: impediria alterações futuras. Isso porque o edital da Anatel em consulta pública prevê que o 5G vai operar entre 3,3 GHz e 3,7 GHz. Com a mitigação, as parabólicas trabalhariam na faixa de 3,8 GHz. Ou seja, se no futuro as operadoras quiserem ampliar o 5G para uma faixa similar a esta, a discussão seria retomada.

A queda de braço

Para as empresas de telecomunicações, a tecnologia existente já impede a interferência e poderia ser aplicada só onde existir problema. Isso diminui os custos de mitigação, que, na prática, serão pagos pelo Tesouro.

Já as TVs e rádios acreditam que a migração é ideal por resolver o problema de uma só vez. Isso porque o avanço do 5G no mundo está levando o serviço a faixas usadas no Brasil pelas parabólicas. Elas argumentam que, quando esta onda chegar por aqui, novas mitigações serão necessárias.

Tilt entrou em contato com a Abratel (Associação Brasileira de Rádio e Televisão) para comentar o estudo da LCA divulgado pela Conexis. A associação disse ainda estar aguardando um posicionamento da área jurídica e, assim que a informação for repassada, essa reportagem será atualizada.