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Para Qualcomm, Brasil acertou ao adotar 5G de transição, mas deve ir além

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Imagem: Reprodução

Rodrigo Trindade

De Tilt, em São Paulo

30/07/2020 04h00

O Brasil viu neste mês a chegada das primeiras redes 5G DSS (Compartilhamento Dinâmico de Espectro, da sigla em inglês), uma tecnologia de transição que irá coexisitir com outros tipos de 5G e entrega uma velocidade dez vezes maior que o 4G. Isso levantou uma dúvida-chave: foi a melhor decisão para acelerar a chegada da quinta geração da telefonia no país?

Para Durga Malladi, vice-presidente de engenharia da fabricante de processadores e modems Qualcomm, não havia uma "melhor maneira" de lançar a tecnologia por aqui, já que o adiamento do leilão das frequências do 5G ficou para 2021. A empresa é parte interessada no processo, pois foi parceira da Claro na primeira rede 5G DSS.

O DSS pode ser considerado um meio termo entre o 4G e o 5G, capaz de alternar as frequências de forma dinâmica para obter mais velocidade de conexão. Na visão de Malladi, que também é gerente da divisão 5G da Qualcomm, a tecnologia serviu para dar o pontapé inicial na nova rede, mas não será o suficiente se o restante da infraestrutura do Brasil não for atualizada para as ondas médias e milimétricas, usadas em outros países.

Durga Malladi - Qualcomm/Divulgação - Qualcomm/Divulgação
Durga Malladi, gerente geral da divisão 5G e vice-presidente da Qualcomm
Imagem: Qualcomm/Divulgação

Com mais de 20 anos de experiência na área, Malladi acompanhou as transições do 2G para o 3G, e deste para o 4G. Segundo o executivo, a quinta geração chega ao Brasil em um momento onde a conectividade é mais necessária do que nunca, pois várias atividades remotas se tornaram imprescindíveis durante a pandemia da covid-19.

Tilt - As operadoras brasileiras lançaram as primeiras redes 5G do Brasil, usando a tecnologia DSS. Que impacto essa novidade deve ter no nosso mercado?

Durga Malladi - Na verdade, estou mais empolgado pelo fato de que o Brasil lançou o 5G DSS. Temos trabalhado de perto com a Ericsson [fabricante sueca de estrutura de telefonia] e promovido o FDD (Frequency Division Duplex, tecnologia que usa duas bandas de frequência, uma para enviar e outra para receber dados) como algo que vai mudar o jogo. Permite combinar a nova geração de tecnologia celular com a anterior: usuários de 5G e 4G vão usar a mesma banda ao mesmo tempo. Nunca fizemos isso antes.

É um bom começo [para o Brasil], mas não é o suficiente. Para o 5G crescer, a banda FDD DSS providencia cobertura nacional. Mas para capacidade real, você precisa das outras duas bandas também: a de 3.5 GHz e a de ondas milimétricas, para a maior capacidade. Os EUA começaram com as ondas milimétricas e foram para a FDD; a China começou com a sub-6 GHz e está adicionando FDD e ondas milimétricas.

Tilt - Existe uma maneira ideal de fazer a transição ao 5G, começando com o DSS e avançando para as frequências mais altas, ou seguindo os exemplos de Estados Unidos ou China?

Durga Malladi - No final das contas, você precisa dos três (DSS, 3.5 GHz e ondas milimétricas). O que eu acho único sobre o Brasil é que aí e a T-Mobile (operadora dos Estados Unidos) são provavelmente os únicos que começaram com o FDD DSS, mas é importante adicionar as outras duas bandas. Eu não diria que tem uma só maneira de chegar lá. Para cobertura nacional, você chega lá com o DSS. Mas você não alcança velocidade de gigabits com DSS, então você precisa das outras bandas.

Tilt - O Brasil é o terceiro país da América do Sul a lançar uma rede 5G. Quais países você diria que estão ganhando essa corrida e receberam quais vantagens por terem sido os primeiros a adotar a rede?

Durga Malladi - Ano passado, todo país tentou dizer que foi o primeiro a adotar o 5G. Da perspectiva da Qualcomm, ficamos felizes de ver isso porque empoderamos os fabricantes de dispositivos com os chips, mas acho que diferentes países podem clamar a liderança por diferentes formas.

A dos EUA foi em baseada em tecnologia (com ondas milimétricas), enquanto a da China foi em escala (ondas sub-6 GHz). O Brasil, ao lançar com o FDD DSS, acredito que cai na categoria tecnologia, porque ninguém começou assim. Mesmo nos EUA, a T-Mobile veio depois.

Tilt - Você está na Qualcomm há 23 anos e acompanha as transições desde o 2G. Em termos de velocidade de adoção, como você avaliaria o 5G?

Durga Malladi - Eu já vi alguns Gs, mas há dez anos, quando lançou o 4G, era uma tecnologia relativamente simples. Os lançamentos foram em dois ou três países. E só. Depois, gradualmente, houve uma expansão. Se comparar com o 5G, no primeiro ano apenas, tivemos Estados Unidos, China, Europa, Austrália, Coreia do Sul, Japão, Oriente Médio... todos tiveram lançamentos. Então a escala e o ritmo da adoção do 5G ao redor do mundo é muito diferente e maior na comparação com o 4G.

Tilt - Por que você acredita que a adoção tem sido mais rápida?

Durga Malladi - Se eu sou uma operadora, por que eu quero lançar o 5G? Qual meu problema com o 4G hoje? É que a capacidade do 5G é tão grande que o custo médio por bit entregue é muito menor na comparação com o 4G. Então existe um incentivo para a operadora. O que ela pode fazer é incentivar que os clientes mudem para o 5G porque é melhor para atendê-los.

Tilt - Por que sai mais barato para a operadora?

Durga Malladi - Digamos que há dez usuários em um sistema e estou usando 4G, com uma taxa de dados de 1 Gbps. Isso significa que cada usuário recebe apenas 100 Mbps 4G. No 5G, todos os usuários podem receber 1 Gbps. Então, minha taxa de dados é de 10 Gbps, uma capacidade muito maior. Por isso o custo por bit entregue é menor, o que é um incentivo para a operadora.

O 5G não é uma tecnologia apenas para smartphones. Eu consigo habilitar novos serviços com ele. Podem ser serviços corporativos, em estádios e espaços para eventos, automação de fábricas, internet das coisas industrial. Então tem um motivo para as operadoras investirem nisso também.

Tilt - Qual o impacto que o 5G já causa na vida dos consumidores? E para empresas e negócios?

Durga Malladi - Digamos que você gosta de assistir vídeos. Com o 4G você consegue imagens em resolução 480p e 720p. Com 5G, você recebe em 1080p (Full HD) e 4K em 95% do tempo, então a qualidade dos vídeos melhora dramaticamente. Se você baixa filmes no 4G para assistir depois, o download leva até dezenas de minutos. Você vai levar literalmente um ou dois minutos para baixar o mesmo vídeo no 5G.

Depois que a covid-19 chegou, estamos trabalhando de casa. De repente, conectividade importa. Você precisa de uma banda larga em casa. Se você tem cobertura 5G perto da sua casa, você pode simplesmente usar seu celular como roteador e talvez não precise mais da banda larga.

E tem outra coisa, usando a Qualcomm como exemplo. A maioria de nós mudou para o Microsoft OneDrive [para trabalhar remotamente]. Todos os dados não estão mais nos nossos laptops. Estão na nuvem. Se eles estão na nuvem, você precisa de conectividade o tempo todo. Os consumidores sentem isso, não querem ficar em uma posição na qual estão desconectados da nuvem.

Tilt - E como ficam as franquias de internet nesse cenário? O mercado e os planos precisarão se adaptar para maiores limites de uso de dados?

Durga Malladi - Temos visto serviços de 5G vindo mais frequentemente com planos sem limite de dados. Dou um exemplo da Coreia do Sul, onde os planos costumam ser muito bons. Pagando US$ 10 a mais que o melhor plano, você tinha uso ilimitado. Na Europa, a Vodafone também deu dados ilimitados para quem está no 5G. Esses tipos de oferta ficaram mais comuns com o 5G, o que é muito importante para o consumidor.

Tilt - O 5G vem com muitas promessas para internet das coisas, telemedicina e streaming de games, mas quais dessas promessas se tornaram realidade? E quais estão perto de se materializar?

Durga Malladi - As aplicações de jogos se tornaram realidade. Tem muitos desenvolvedores de jogos aproveitando as altas taxas de dados e baixa latência do 5G e modificando os jogos de acordo. A Qualcomm está envolvida com isso, mas também com internet das coisas industrial, com automação de fábricas e habilidade de digitalizar uma fábrica por meio de tecnologia sem fio.

Esse era um uso emergente; agora estamos envolvidos em projetos-piloto e demonstrações, para provar que funciona e preparando o terreno para a comercialização. Quando isso vai ser eu não sei exatamente, mas já fomos além de apenas falar sobre isso. Estamos testando em fábricas, o que eu considero um momento-chave na direção das novas aplicações.

Tilt - Como a pandemia tem interferido na adoção do 5G ao redor do mundo? No Brasil ela contribuiu para o adiamento do leilão das frequências mais altas.

Durga Malladi - O 5G está permitindo que pessoas trabalhem de casa e façam serviços remotos de forma mais eficiente do que antes. Telemedicina, por exemplo, é uma coisa que não é só mais falada em um PowerPoint. Apesar da pandemia, a demanda por conectividade está muito alta. Por isso, vimos a taxa de adoção do 5G continuar a se expandir. Ela continua se expandido no ritmo que pensamos originalmente, e em algumas áreas talvez até mais.

Tilt - Além da pandemia, tem geopolítica interferindo na adoção do 5G. Quão danoso isso é para os países?

Durga Malladi - Difícil responder sem comentar a geopolítica, então não posso falar muito. Eu diria que, apesar de tudo, os lançamentos continuam a acontecer. Veja a Claro, lançaram (o 5G DSS) apesar de tudo. Acreditamos que soluções serão encontradas de uma forma ou outra, independentemente da geopolítica.

Tilt - Em que ano você acredita que a maioria dos novos smartphones se conectarão ao 5G?

Durga Malladi - Baseado apenas na Qualcomm, o número de dispositivos compatíveis com 5G lançados esse ano passou de 150. É um número muito grande. Estamos comprometidos em garantir que o 5G esteja não apenas na categoria premium de dispositivos. Lançamos nos top de linha, já descemos para os intermediários, então estamos tornando o 5G acessível aos outros níveis também.

Tilt - Quando a maioria dos smartphones do mercado for compatível com 5G, você acredita que a infraestrutura estará pronta?

Durga Malladi - Acreditamos que sim. Pela primeira vez, temos muitos aparelhos 5G prontos. E, talvez, seis meses depois, alguém liga a rede e, então, seu aparelho vai funcionar com o 5G. É algo que tem ocorrido nessa transição de geração. Mas, em geral, a infraestrutura anda lado a lado com os aparelhos lançados.

Tilt - Quando o 4G lançou, havia quem o desligasse porque ele gastava muita bateria. Como é o 5G em relação a isso?

Durga Malladi - Sabemos os erros que tivemos nos primeiros lançamentos de 4G e estamos comprometidos a não repeti-los. É uma notícia muito boa que ninguém reclamou do consumo de energia do 5G. É incrível que, com os celulares, o tamanho não mudou muito. A célula de bateria também, foi de 3.200 mAh para 4.000 mAh ou um pouco mais. Embora a taxa de dados seja muito alta, o consumo de bateria é basicamente o mesmo que costumava ser. Nos esforçamos muito para isso acontecer.