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Fiscais de máscara, febre e movimentação: como é nosso futuro com drones

Marcel Lisboa/UOL
Imagem: Marcel Lisboa/UOL

Rodrigo Trindade

De Tilt, em São Paulo

12/06/2020 04h00

O mundo pós-covid-19 talvez precise se acostumar com uma vigilância aérea ostensiva com drones. Começou na China, onde os equipamentos mandavam para casa pessoas que circulavam nas ruas sem máscaras. Mas eles estão prontos para ir além, com controle automático, reconhecendo rostos e até medindo a febre das pessoas na rua.

A tendência de usar drones na pandemia deu as caras aqui no Brasil causando aglomerações de curiosos quando a finalidade era dispersá-los. Já nos Estados Unidos, empresas já oferecem para autoridades tecnologias que unem drones e IA (inteligência artificial) que percebe até se uma pessoa está de máscara ou não.

Uma dessas empresas é a Airspace Systems, que desenvolve software para drones e adaptou, nestes primeiros meses de 2020, sua IA para controle de circulação e limpeza de ambientes públicos. A empresa diz ter pronto um sistema capaz de ordenar centenas de drones em uma cidade.

"Temos tudo pronto para jogar mil drones pela cidade de forma autônoma, coletando dados de máscara, dispersando multidões e pulverizando com spray", afirma o engenheiro brasileiro residente nos EUA Aislan Foina, executivo-chefe da empresa Geo-X e parceiro da Airspace nesta iniciativa.

O engenheiro conta que "cidades americanas com milhões de habitantes" têm interesse nestes recursos e que foram abertos processos semelhantes a editais para a contratação de fornecedores.

No fim de abril, uma outra empresa, a canadense Draganfly, anunciou um acordo com um condado do estado de Connecticut para utilizar drones capazes de identificar febre, respiração e batimentos cardíacos, assim como pessoas que espirrarem ou tossirem em público.

A proposta era usar os drones em praias, estações de trem, parques e outras áreas públicas, mas a iniciativa recebeu resistência pública e acabou engavetada.

Para o advogado Renato Opice Blum, coordenador do curso de direito digital e proteção de dados da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), se a finalidade do uso do drone for bem definida e respeitada pelas autoridades, não há abuso na adoção do recurso —apesar de uma eventual rejeição popular.

"Eu faria um parelelo do drone com as câmeras de rua. Desde que a finalidade seja pública, para gestão da pandemia, identificar aglomerações e até acompanhar testados descumprindo normas, não vejo problema. Soa estranho porque é um drone, é novo, fica em cima da gente", argumenta.

"O que o poder público não pode é desviar dessa finalidade e começar a usar essas capturas, imagens, para outras coisas que não a finalidade pública, que terá que ser declarada", complementa o advogado.

O drone na pandemia

Em vez de alguém pilotando e olhando pela câmera do drone se pessoas estão sem máscara nas ruas, a tecnologia atual permite que o equipamento sobrevoe regiões sozinho e detecte anormalidades por reconhecimento de imagem. O procedimento é automatizado, mas não 100% autônomo, de acordo com as regulações atuais.

"Existe voo manual, automatizado e autônomo. O autônomo praticamente o mundo inteiro não permite. O que é permitido é o automatizado: você define uma determinada missão e o drone vai cumpri-la", explica Lincoln Kadota, presidente da ABM (Associação Brasileira Multirrotores).

Segundo Foina, para que o uso do drone seja viável, por exemplo, em um contexto de controle da utilização de máscaras pelas cidades, o modo manual deve ser descartado. "Não escala bem. Pega a cidade de Los Angeles. Se quiser fazer o controle da cidade inteira, vai precisar de 50 mil pilotos", projeta o engenheiro.

Além do voo automatizado, estes novos drones também funcionam sem interferência humana em tarefas como detecção de pessoas sem máscaras ou a pulverização de ruas.

"Um diferencial é procurar por bocas. Vemos gente usando máscara no pescoço, pendurada", conta Foina. Ou seja, o sistema não só detecta máscaras no rosto, como bocas descobertas também. Isso importa porque as pessoas estão usando indevidamente opções alternativas, como bandanas e camisetas, além de máscaras fora do lugar correto, como no pescoço.

A máscara, no entanto, ainda é a que gera as maiores taxas de acerto no sistema (90%), embora a detecção das demais variáveis melhora conforme o sistema é exposto a mais imagens, por meio do aprendizado de máquina. O All-Clear, sistema da Airspace, ainda identifica grupos de pessoas andando próximas uma das outras, podendo alertar autoridades quando o distanciamento social não é respeitado.

"O que fazemos no sistema: convertemos a detecção em uma coordenada de latitude e longitude e mandamos para o cliente a localização da pessoa sem máscara", detalha o chefe da Geo-X.

A empresa diz se preocupar com a privacidade da população e descreve seu sistema como um detector de proteções faciais, não de reconhecimento facial — recurso banido em lugares como a cidade de San Francisco. Entre os cuidados adotados está o não-armazenamento dos rostos registrados, mas as imagens são transmitidas em tempo real para as agências de segurança.

Em se tratando de um sistema de vigilância, as práticas são positivas quanto à privacidade de dados. "Se é apenas um registro de quem está usando máscara e não possibilitar a identificação, isso se aproxima do dado anonimizado. Dado anonimizado é dado sem informação", analisa Opice Blum.

Limitações e marketing

Ok, drones já conseguem atuar como vigias, dispersar multidões, desinfetar ruas e medir a temperatura corporal de pessoas nas ruas. Mas, por trás de todo esse poder há uma limitação significativa: autonomia de bateria. Eles têm pouco mais de dez minutos para fazer suas tarefas antes de voltar para uma base e recarregar.

"O drone vai ficar 20, 15 minutos no ar. Pode até usar equipamentos mais elaborados com autonomia um pouco maior. A viabilidade existe, mas o gargalo hoje é a autonomia", afirma Kadota.

Flavio Lampert, diretor executivo da ABM, é mais incisivo. "Drone é apaixonante, é pop", diz. "É marketing hoje (usar drones para vigiar uso de máscaras), ainda não tem tecnologia suficiente."

Como a bateria tem pouca duração, a operacionalização de um sistema desses pode acabar sendo cara para os cofres públicos, apesar de mais chamativa e inovadora.

Uma alternativa mais econômica com resultados semelhantes seria usar reconhecimento de máscaras pelas câmeras de segurança da cidade. Mas perderia-se a flexibilidade de um drone.

Além disso, autoridades têm algumas questões legais pela frente, mas em muitos casos podem usar se a finalidade for pública, como no controle da pandemia. "Se a LGPD estivesse em vigor, ela permitira isso. Desde que ele avise que está coletando dados e que a administração pública diga quem é o encarregado na proteção desses dados", afirma Opice Blum.

A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), responsável pelas regras no uso de drones no Brasil, informou que não foram feitos estudos sobre monitoramentos de uso de máscaras ou pulverização de cidades com drones no contexto da pandemia. Mas, ela permite que órgãos de segurança pública usem drones sem a necessidade de autorização para voos, contanto que os equipamentos estejam registrados para os fins de uso.