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Bom de jogo? Cérebro de gamers será usado para treinar exército de robôs

Jovem tem as ondas cerebrais monitoradas enquanto joga vídeo game - Universidade de Buffalo
Jovem tem as ondas cerebrais monitoradas enquanto joga vídeo game Imagem: Universidade de Buffalo

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

13/02/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Inteligência artificial pode comandar exército de robôs que agem como humanos
  • Cientistas vão usar um game baseado em jogos como StarCraft e Stellaris
  • Informações coletadas vão virar algoritmos capazes de tomar decisões complexas
  • Serão selecionados 25 gamers habilidosos para os experimentos

Uma equipe da área de inteligência artificial da Universidade de Buffalo, em Nova York, Estados Unidos, vai estudar as ondas cerebrais e o movimento dos olhos de jovens enquanto jogam vídeo game.

Os dados coletados serão utilizados no desenvolvimento de um algoritmo avançado, modelado no comportamento humano, capaz de coordenar as ações de tropas de robôs militares autônomos.

Para os mais velhos, semelhanças não faltam com o filme 'O Último Guerreiro das Estrelas' (The Last Starfighter), de 1994. Nele, um adolescente viciado em um jogo, chamado Starfighter, descobre que ele era, na verdade, um meio para recrutar pilotos para uma batalha espacial real, em um planeta alienígena distante.

O jogo utilizado é exclusivo. Ele ainda não tem nome, mas já foi totalmente desenvolvido pelos pesquisadores, com base em games de estratégia em tempo real como StarCraft e Stellaris - com a diferença de não durar por horas e horas. O objetivo é usar os recursos disponíveis para construir unidades, cumprir objetivos e derrotar os inimigos.

Os cientistas já formularam uma metodologia para os experimentos, que inclui rodadas de jogos com duração entre 5 e 10 minutos. Serão 25 jogadores, cada um atuando em 6 ou 7 delas, com diferentes configurações e níveis de complexidade. Assim, já seriam coletados dados suficientes para medir estratégias de tomada de decisão e, com base nelas, criar a nova inteligência artificial.

Mas não é como jogar do conforto do seu quarto. Cada pessoa será conectada a um aparelho de eletroencefalograma, com diversos sensores colados à cabeça, para registrar a atividade cerebral. Câmeras especiais de alta velocidade, por sua vez, gravarão exatamente como os olhos reagem às ações no jogo.

A Darpa (Defense Advanced Research Projects Agency ou Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa), do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, contemplou a equipe com US$ 316 mil (cerca de R$ 1,37 milhão) para que os estudos possam evoluir rapidamente.

Agora, só falta selecionar os 25 gamers. Mas você não deve conseguir participar - jovens aficionados em jogo é o que não falta dentro da própria universidade.

As informações coletadas vão virar algoritmos capazes de tomar decisões complexas. Com eles, os pesquisadores esperam desenvolver uma inteligência artificial para treinar um enorme exército de robôs.

"Seres humanos conseguem criar estratégias únicas, que a inteligência artificial talvez não consiga aprender. Muito do frisson que vemos sobre inteligência artificial é relativo a atividades em ambientes relativamente determinísticos. Mas e se falarmos de raciocínio contextual para conseguir fazer coisas em um ambiente real? Isso ainda está em um estágio embrionário", disse Souma Chowdhury, um dos líderes do projeto, ao Digital Trends.

O novo sistema seria capaz de coordenar grupos de 250 robôs, em solo e no ar, conferindo às frotas a habilidade de enfrentar situações complexas e ambientes imprevisíveis, de maneira autônoma. Por exemplo, lidar com a falta de visibilidade devido à fumaça em um combate sem precisar do controle de um ser humano.

inteligencia artificial robos militares - Universidade de Buffalo - Universidade de Buffalo
Estudantes criam ambiente simulado para demonstrar como robôs poderiam trabalhar juntos
Imagem: Universidade de Buffalo

"Os humanos não vão controlar cada robô individualmente. O nosso papel seria de criar a tática, como um supervisor. Centenas de robôs vão trabalhar sob o comando desse supervisor, mas com hierarquia e autonomia. Não é necessário dizer a cada um deles exatamente o que fazer, eles tomarão decisões independentes", disse Chowdhury.

O grande objetivo é fazer com que máquinas pensem mais como humanos e aprendam a trabalhar em grupo. Para isso, o projeto usa a chamada 'inteligência de enxame' (IE, ou swarm intelligence), que foca no comportamento coletivo em sistemas descentralizados. Assim, é possível realizar procedimentos complexos e significativos ao atribuir um papel definido para cada robô, da mesma maneira que acontece em um coral ou em uma companhia de dança.

"Em vez de usar um único robô de US$ 1 milhão, podemos empregar um grande número de robôs mais simples e baratos. Há muitas aplicações para isso", afirmou Chowdhury.

Claro que é muito mais difícil treinar diversos robôs para realizarem atividades diferentes do que ensinar um único a realizar todo o processo. Acrescente ambientes imprevisíveis à equação e o desafio é ainda maior. Serão necessárias milhares de simulações para chegar no algoritmo - processo que deve ser acelerado com os experimentos com os jogadores.

Chowdhury exemplificou: "Imagine uma sala de aula sem professor. Vamos aprender álgebra? Dá para usar livros e exercícios, mas levaria muito tempo. Vendo como os humanos jogam, as táticas e decisões estratégicas, o processo de aprendizagem da inteligência artificial seria acelerado".

A Darpa foi criada em 1958, por militares e pesquisadores dos Estados Unidos, em uma reação à vitória tecnológica da então União Soviética após o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik 1, no ano anterior.

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