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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Mistério no ar: ventos na tempestade de Júpiter estão cada vez mais rápidos

A Grande Mancha Vermelha de Júpiter, em imagem da sonda espacial Juno - Nasa/ JPL-Caltech/ SwRI/ MSSS/ Gerald Eichstadt/ Sean Doran
A Grande Mancha Vermelha de Júpiter, em imagem da sonda espacial Juno Imagem: Nasa/ JPL-Caltech/ SwRI/ MSSS/ Gerald Eichstadt/ Sean Doran
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

30/09/2021 04h00

Cientistas norte-americanos anunciaram essa semana que a tempestade da Grande Mancha Vermelha de Júpiter está ficando cada vez mais violenta. Já sabíamos que a mancha é causada por uma região de alta pressão com ventos de centenas de quilômetros por hora, mas é a primeira vez que os cientistas conseguem determinar que os ventos estão ficando cada vez mais rápidos.

A Grande Mancha Vermelha é uma das características mais marcantes de Júpiter. Ela é conhecida desde o século 19, pelo menos, e é maior que o próprio planeta Terra, com mais de 16 mil quilômetros de diâmetro. No entanto, mesmo com essas dimensões impressionantes, sua origem ainda não é perfeitamente compreendida.

Os pesquisadores esperam que os resultados ajudem a entender um pouco melhor o que está acontecendo no planeta gigante.

O astrônomo Michael Wong, da Universidade de Berkeley e líder do estudo, explica:

"São dados interessantes que podem nos ajudar a entender o que está alimentando a Grande Mancha Vermelha e como ela mantém sua energia."

Para chegar à conclusão de que os ventos estão acelerando, a equipe teve de se debruçar sobre diversos anos de observações do telescópio espacial Hubble.

"Não temos uma estação meteorológica para medir a velocidade dos ventos no local", diz Amy Simon, do Centro de Voo Espacial Goddard da Nasa e coautora do estudo.

Assim, a única alternativa era medir a evolução da mancha, como um filme acompanhando as mudanças estruturais da tempestade desde 2009.

Com a distância de Júpiter, os menores detalhes observados tinham cerca de 160 quilômetros, algo como o tamanho do estado de Sergipe.

Era o suficiente para que Wong pudesse analisar as imagens e medir a evolução da mancha.

Os ventos estavam acelerando a uma taxa de cerca de 2 quilômetros por hora a cada ano terrestre.

"É uma mudança tão sutil que se não tivéssemos onze anos de dados do Hubble, não teríamos conseguido detectá-la", diz Simon.

Os pesquisadores viram ainda que a velocidade dos ventos no centro da tempestade são muito menores, de algumas dezenas de quilômetros por hora.

Mesmo com essa quantidade de dados, os cientistas não sabem explicar a origem desta mudança. "É um diagnóstico difícil, já que o Hubble não consegue ver a parte de baixo da tempestade. Qualquer coisa abaixo do topo das nuvens é invisível para nós".

Vejam então como nem o Hubble é capaz de resolver sozinho todos os problemas.

Precisamos de sondas espaciais ou telescópios capazes de observar outro tipo de radiação para obter dados de um forma diferente e complementar, e quem sabe assim resolver o mistério da Grande Mancha Vermelha.