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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como transformação digital marcará o papel do servidor público 'do Futuro'

CDC/ Unsplash
Imagem: CDC/ Unsplash
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

04/12/2021 04h00

No Brasil, até fevereiro de 2021, segundo dados da Pnad Contínua, 11,9 milhões de pessoas se declaravam empregados do setor público.

O ano de 2020 deixou como marca a importância desses atores. Como já discuti aqui, sem o trabalho incansável de homens e mulheres em diversas funções da gestão pública, especialmente na saúde, a pandemia teria sido ainda mais dura para toda a população brasileira.

A crise que vivemos também evidenciou o quanto não estávamos preparados para ela. Não é absurdo afirmar que fomos todos pegos de surpresa. E os servidores públicos foram diretamente impactados.

Nas diferentes instâncias de governo, essas pessoas tiveram de se adaptar e implementar mudanças em um tempo muito curto, muitas delas relacionadas à digitalização de serviços para possibilitar o atendimento de cidadãos, como é o caso do auxílio emergencial.

Embora prever a extensão das transformações trazidas pela pandemia fosse quase impossível, muitos especialistas já alertavam para o potencial surgimento de uma crise global. E se conseguíssemos replicar esse exercício de prospecção para outras áreas? E se fosse possível mapear os sinais de uma grande mudança, proporcionando a chance de nos organizarmos antecipadamente e de maneira mais efetiva?

É exatamente isso o que propõe o projeto "Servidor Público do Futuro". Liderado pela Fundação Brava, a Fundação Lemann, o Instituto Humanize e a Republica.org, e contando com o apoio do Institute for the Future (IFTF), organização de referência localizada no Vale do Silício (EUA), a pesquisa produziu prognósticos de futuro para o serviço público no Brasil.

Esses prognósticos não são previsões sobre o futuro. Trata-se de um modelo teórico que busca examinar mudanças presentes para traçar tendências futuras em diferentes áreas da sociedade. Tendo por base esse exercício de antecipação analítica, espera-se que as chances coletivas de tomar melhores decisões possam ser ampliadas.

Tendo como horizonte o ano de 2031, o estudo aponta oito prognósticos para o futuro dos servidores públicos no Brasil, sendo que a tecnologia é a principal força de mudança em pelo menos quatro deles. E é sobre eles que eu gostaria de falar.

Primeiro, os servidores serão chamados a terem um conjunto diverso de novas habilidades e competências. Conhecimentos técnicos continuam sendo relevantes, mas as competências socioemocionais e humanas passam a ser centrais.

Em um cenário no qual novos desafios, demandas e tecnologias surgem a cada momento, os servidores públicos serão reconhecidos como "generalistas flexíveis" e especialistas na resolução de problemas complexos.

O segundo prognóstico aponta que as emoções dos cidadãos passam a representar um importante elemento de decisão para os governos, e que os servidores serão responsáveis por monitorar as diferentes reações frente a políticas públicas e novas leis.

Conhecer como determinadas medidas impactam as pessoas passa a ser fundamental para mensurar as chances de sucesso de uma determinada ação do governo.

A tecnologia deve fazer com que a transparência governamental seja a regra e o sigilo se torne sempre uma exceção. Com isso, cidadãos e atores privados serão como "supervisores independentes" das ações governamentais, utilizando a tecnologia para acompanhar ações, o orçamento público e todas as medidas implementadas pelos governos.

Os servidores públicos deverão assumir novos papéis para garantir a transparência, muitos deles relacionados ao diálogo direto com os cidadãos, mas também com a construção de ferramentas tecnológicas que permitam o compartilhamento de informações sobre a atuação governamental.

Por fim, o futuro dos servidores públicos deve ser marcado pela automação. Inteligência artificial, algoritmos, machine learning e todas as suas soluções serão responsáveis por conduzir grande parte das ações governamentais, fazendo com que novas funções sejam criadas, todas elas em simbiose e colaboração com as novas tecnologias.

Os prognósticos apontam para algo que sempre discuto aqui: a tecnologia é uma realidade em nossas vidas e sua presença, relevância e influência serão ainda maiores com o passar do tempo. Não há mais volta.

Mas o aspecto analógico da transformação digital segue como algo fundamental. Isto é, sem investir na formação de pessoas, sem promover uma transformação cultural do setor público para que ele seja mais aberto à inovação e sem rever processos atuais para combater a e-burocracia —a transposição das distorções da burocracia no âmbito digital— não conseguiremos usufruir de todos os benefícios que a tecnologia pode nos trazer.

Temos uma fotografia de como pode ser o futuro do servidor público no Brasil nos próximos anos. Não precisamos temê-la, mas devemos nos preparar para a sua chegada e para as transformações que surgem com ela.

Você pode acessar a versão completa do estudo aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL