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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Reconhecer servidores inovadores ajuda a melhorar o setor público

@wavebreakmedia/ Freepik
Imagem: @wavebreakmedia/ Freepik
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

11/09/2021 04h00

O mundo do trabalho está em intensa transformação. Não me refiro somente aos efeitos trazidos pela revolução tecnológica que, como sempre discuto aqui e em minhas redes sociais, deve demandar novas profissões, mas também, e principalmente, ao sentido mais intrínseco do que é trabalhar.

Provavelmente você também já teve contato com esse debate, especialmente se tem em sua rede profissional pessoas da geração dos millennials - que nasceram entre as décadas de 1980 até o ano 2000.

Se nossos avós e pais viam no trabalho o sentido de garantir status e estabilidade financeira, os profissionais do mercado cada vez mais buscam atrelar sua atuação profissional ao seu propósito de vida.

Já há evidências concretas deste fenômeno e os números só impressionam.

Segundo levantamento do Núcleo de Estudos Sodexo, 83,4% dos entrevistados consideram que a atividade profissional que exercem contribui para melhorar a qualidade de vida de outras pessoas, enquanto que 53,8% dos brasileiros acreditam que seu propósito de vida está conectado com seu trabalho atual.

Essa nova visão também está sendo incorporada pelos tomadores de decisão, já que, de acordo com pesquisa da consultoria PwC, 79% das lideranças entendem que o propósito é central para o desenvolvimento do negócio.

A palavra propósito pode assumir diferentes significados. Quando falamos do mundo do trabalho, em geral, o termo está relacionado à ideia de sentido, objetivo, significado: as pessoas buscam, cada vez mais, a oportunidade de colocar suas habilidades e conhecimentos em prol de um trabalho que gere resultados evidentes, relevantes e, preferencialmente, que contribua para o avanço da sociedade.

O slogan "trabalho com propósito" pode ser benéfico para a comunicação das empresas e como atrativo para processos de seleção de talentos, mas a sua relevância vai muito além disso, estando relacionada a dois elementos fundamentais: performance e motivação.

Pesquisas mais recentes mostram que os seres humanos, em toda a sua complexidade, não são movidos somente por recompensas externas e materiais, mas também por fatores intrínsecos e não-financeiros, como experiências, emoções, valores e, especialmente, a identificação com a cultura, os valores e o propósito da organização.

Performance e motivação

Evidências trazidas a partir do trabalho do People in Government Lab da Universidade de Oxford apontam para a importância do propósito no trabalho dos servidores públicos: compreender como a sua contribuição individual está conectada a sentidos e objetivos maiores tem se mostrado como um fator decisivo para aumentar a motivação intrínseca.

E nada disso tem a ver com aumentos salariais, pagamento de bônus ou promoções na carreira. O que profissionais do setor público têm buscado atende por outro nome: reconhecimento social, ou seja, a confirmação de que determinada contribuição é relevante para o bem-estar coletivo.

Todas essas evidências embasaram a criação do Prêmio Espírito Público, implementado pela República.org, pelo Instituto Humanize e pela Fundação Lemann.

Trata-se da maior iniciativa de reconhecimento e celebração das trajetórias de profissionais do governo que, comprovadamente, demonstram ter construído uma carreira íntegra e dedicada à coisa pública.

Ao longo dos últimos anos, a iniciativa tem sido um verdadeiro sucesso: foram recebidas mais de 4.300 inscrições vindas de todos os estados do país.

Tive a oportunidade de contribuir com as últimas duas edições do Prêmio Espírito Público, em 2019 e 2020, na categoria Governo Digital, por conta do meu trabalho empreendendo o BrazilLAB, que selecionou seis profissionais públicos como destaques.

Dentre eles:

  • Rodrigo Lara, servidor público do governo de Minas Gerais, e que esteve envolvido na elaboração do MG APP, aplicativo oficial do governo que já conta com mais de 1 milhão de downloads e mais de 70 serviços de diversos órgãos e entidades do Estado;
  • Guilherme Almeida, servidor público do governo federal, responsável pela criação do GNova, um dos maiores laboratórios de inovação pública do país, vinculado à Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) e;
  • Luana Roncaratti, que liderou projetos de revisão e digitalização de serviços públicos, como a Carteira Digital de Trânsito, o Passe Livre e o Seguro Desemprego.

Em sua atual edição, o Prêmio Espírito Público reconhecerá profissionais públicos em três categorias:

  1. Pessoas que transformam a Assistência Social, Gestão de Pessoas, Meio Ambiente, Saúde e Segurança Pública;

  2. Equipes que transformam a Educação;

  3. Instituições que transformam e que tenham contribuído de maneira efetiva e relevante para o tema da segurança alimentar no contexto da pandemia de covid-19 no Brasil.

As inscrições estão abertas até o dia 19 de setembro e podem ser feitas aqui.

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Iniciativas como o Prêmio Espírito Público são fundamentais para ampliar a motivação e o engajamento de servidores públicos. Mas arrisco a ir além: as trajetórias premiadas e celebradas são inspiradoras para todos, servidores públicos ou cidadãos, porque são a evidência de que há pessoas imbuídas de propósito atuando para transformar e promover avanços para o governo e para a sociedade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL