PUBLICIDADE
Topo

Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na Europa, já está claro que startups ajudarão a modernizar nossos governos

Em entrevista durante o evento, a primeira-ministra da Estônia, Kaja Kallas, fala sobre a experiência do país em construir uma nação digital - Reprodução/ Twitter/ SommetGovTech
Em entrevista durante o evento, a primeira-ministra da Estônia, Kaja Kallas, fala sobre a experiência do país em construir uma nação digital Imagem: Reprodução/ Twitter/ SommetGovTech
Conteúdo exclusivo para assinantes
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

23/10/2021 04h00

É com grande alegria que tenho testemunhado o retorno dos principais eventos da agenda govtech no Brasil e no mundo. Na semana passada, eu tive a oportunidade de acompanhar toda a programação de palestras do Govtech Summit 2021.

O GovTech Summit é um evento que reúne os principais tomadores de decisão no ramo de inovação e tecnologia da Europa, e convida funcionários públicos, startups, acadêmicos e investidores a repensarem como os governos podem trabalhar para um mundo cada vez mais digital, moldando os serviços públicos e os mercados para o futuro.

Lançado em 2018, as edições anuais já somam mais de 3.000 participantes, incluindo palestrantes como o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, e o presidente da França Emmanuel Macron.

Tendo como lema "Build Back Digital", ou "construa de volta o digital", a edição de 2021 contou com a participação de algumas das figuras políticas e públicas mais relevantes que lideram a transformação digital da Europa no setor público.

Os painelistas compartilharam ideias sobre como a tecnologia pode ajudar os governos a criar sociedades mais universais, acessíveis e inclusivas. Entre os temas tratados, sem dúvida, urgência climática, cidadania e sociedade, redesenho das cidades, saúde e o desenvolvimento de habilidades digitais foram os mais frequentes.

E o GovTech Summit fez muito além do que trazer os principais atores e o "estado da arte" da discussão sobre transformação digital: o evento consagrou a relevância que as startups terão para o trabalho desenvolvido por governos de todo o mundo.

Govtech na recuperação pós-pandemia

O ecossistema govtech e a agenda de transformação digital serão pilares fundamentais para a superação dos desafios trazidos pela pandemia de covid-19. Segundo a cofundadora do GovTech Lab Lituânia, Arune Urte Matelyte, a estimativa é que até 2025 todos os países europeus possuirão o seu próprio programa de incentivo às govtechs.

Os sinais dessa relevância são cada vez mais frequentes. Por exemplo, os diversos "fundos de recuperação" criados como estratégia para combater a crise têm parcela significativa de seus recursos exclusivamente destinada para o desenvolvimento de soluções digitais.

É o caso do Horizon Europe, o principal programa de financiamento da União Europeia para pesquisa e inovação. Ele conta com um orçamento de € 95,5 bilhões.

Parte expressiva dos recursos é destinada a projetos de transformação digital nos serviços públicos e governos. E da Comissão Europeia, que elegeu o investimento em tecnologias digitais como um dos pilares chave para a recuperação dos países no pós-pandemia, dedicando, no mínimo, 20% do seu orçamento a essa agenda.

Em nível nacional, alguns países também lançaram os seus próprios fundos de recuperação voltados a investimentos na transformação digital. O governo francês, por exemplo, foi o primeiro no mundo a estabelecer um plano de emergência para startups, com € 4,3 bilhões sendo destinados para apoio ao ecossistema.

Como já discuti aqui, a insuficiência de financiamento é um dos principais desafios enfrentados pelo setor govtech. Nesse sentido, iniciativas como as desenvolvidas no continente europeu são fundamentais e devem criar um forte precedente para o futuro.

Torço para que essas experiências não passem de uma tendência passageira, mas se consolide, nos próximos anos, como uma estratégia voltada à promoção de inovações tecnológicas desenvolvidas por startups e PMEs govtechs.

Ecossistema govtech europeu em números

Em 2021, o mercado govtech europeu foi avaliado em € 116 bilhões. Os países com os maiores mercados potenciais, são a Alemanha, França e Reino Unido, que respectivamente valem 19 bi, 17 bi e € 12 bi.

As cifras impressionam: a Europa representa 28% de todo o mercado govtech global, avaliado em 411 bilhões.

E a percepção dos atores reforça a importância do setor. Segundo a pesquisa da Public, "The State of European GovTech", as govtechs têm sido vistas como um pilar central na estratégia governamental em todo o continente, com 77,3% das startups europeias entrevistadas reforçando que o ecossistema está crescendo rapidamente ou muito rapidamente.

As govtechs atuando no continente europeu estão presentes nas mais diversas áreas e se utilizam das mais diferentes tecnologias. Em comum, elas compartilham a relevância crescente para as políticas públicas.

A Element, por exemplo, é hoje o principal aplicativo de mensagens internas utilizado pelo exército alemão; Cera, solução voltada à contratação de trabalhadores sociais, é o negócio com maior crescimento no setor; a startup Eva tem sido responsável pelos registros de 7% das vacinações no Reino Unido, enquanto que a Practio figura como uma das principais fornecedoras de testes na Dinamarca.

Iniciativas que possam fomentar ainda mais o ecossistema inovador das govtechs são ainda mais necessárias. Ações como a "The CivTech Alliance", um grupo de mais de 16 países que foi criado durante a pandemia com o objetivo de apoiar o desenvolvimento de startups atuando com governos, especialmente em iniciativas inovadoras e disruptivas, capazes de transformar a oferta de políticas públicas.

E a atuação da civtech promete ir além: em 2021, o grupo lançou o "Alliance Global Scaleup Programme". A iniciativa vai selecionar e acelerar até 20 empresas que tenham soluções para combater os efeitos das mudanças climáticas.

As startups vencedoras serão apresentadas na COP26, a Cúpula do Clima da ONU, que acontece em novembro, em Glasgow, Escócia. O BrazilLAB, em parceria com a InvestSP e o IdeaGOV, são responsáveis pela implementação da iniciativa no Brasil —conto mais sobre esse trabalho em minhas redes sociais.

Futuro promissor

A participação no GovTech Summit me trouxe uma onda de esperança. Há quase três anos, quando comecei a escrever a coluna, o termo "govtech" ainda era pouco conhecido. Hoje, as novidades trazidas pelo continente europeu demonstram que as startups têm assumido um merecido papel protagonista junto ao setor público.

Embora muitos desafios ainda estejam presentes —dentre eles, a desigualdade digital, questões regulatórias e poucos investimentos— há muitos motivos e experiências a celebrar.

E o Brasil pode seguir essa tendência e, nos próximos anos, se consolidar como a principal potência govtech da América Latina. A revolução já começou e não há mais volta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL