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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil que dá certo: govtechs crescem, mas podemos e devemos ir além

Proxyclick Visitor Management System/ Unsplash
Imagem: Proxyclick Visitor Management System/ Unsplash
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

21/08/2021 04h00

Está difícil assimilar as notícias ultimamente no Brasil: alta da inflação, aumento da pobreza e da desigualdade social, cenário político cada vez mais instável, ameaça da variante Delta, enfim, todo dia somos bombardeados com informações que nos trazem uma certa desesperança em relação ao nosso país.

Indo na contramão desta onda e dando ênfase ao Brasil que dá certo, essa semana fui surpreendida com ótimas notícias sobre o ecossistema brasileiro de govtechs.

O termo govtech é utilizado para referenciar startups com soluções para governos (soluções B2G, ou business-to-government) com o objetivo de promover a transformação digital e superar os diversos desafios enfrentados pelo setor público.

Foram muitas as vezes em que tive a oportunidade de falar sobre o tema na minha coluna - você pode acompanhar alguns desses textos aqui.

Meu entusiasmo com o tema nasceu da minha experiência atuando no BrazilLAB, organização que fundei há cinco anos para apoiar empreendedores do universo govtech.

Ao longo desse período, tive a oportunidade de conhecer soluções extremamente inovadoras e, principalmente, de grande impacto social.

Um bom caso de sucesso é o do Gesuas,startup que faz parte da rede do BrazilLAB, e foi responsável por criar o primeiro prontuário eletrônico para a política de assistência social.

O Gesuas foi também a 1ª startup colocada no Ranking 100 Open Startups de 2020, que avaliou as empresas mais promissoras do setor. Outras seis govtechs que integram a rede do BrazilLAB também fazem parte da lista.

A excelente notícia é que estou longe de estar sozinha em meu entusiasmo e crença no potencial transformador das govtechs. Esse ecossistema está em franca expansão e as cifras impressionam: estimativas apontam que o mercado já ultrapassou o valor de US$ 400 bilhões, possui uma taxa de crescimento anual de, aproximadamente, 15%, e pode faturar US$ 1 trilhão até o ano de 2025.

No mundo, diversos países investem cada vez mais em inovação e no uso de tecnologia para oferta de seus serviços e na resolução de problemas complexos com o apoio de govtechs. Como é o caso da Alemanha, que está investindo 500 milhões de euros para digitalizar todos os processos administrativos até 2022. E da França que possui a meta de até 2022 também digitalizar os seus 250 principais processos.

O Reino Unido, por exemplo, investiu 20 milhões de libras na criação do GovTech Catalyst Fund em 2018, que consiste em um fundo para remunerar startups que resolvessem problemas do setor público utilizando tecnologia digital inovadora.

Já o governo de Portugal lançou a GOVTECH Portugal 2019, uma iniciativa que tinha como objetivo premiar e apoiar produtos e serviços inovadores, criados por startups que lidassem com um dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Do ponto de vista da demanda, há um espaço infinito para a atuação das govtechs. No Brasil, apenas considerando o governo federal, no ano de 2020 houve um aumento de mais de 18% em contratos de serviços de tecnologia da informação (TI), somando o valor de R$ 2,5 bilhões, segundo dados da Effecti.

O Brasil é também uma referência no universo govtech, sendo o país da América Latina que possui o maior número de startups vendendo para o setor público, e ocupamos a 4ª posição mundial no "Índice Govtech 2020", que analisa a maturidade dos ecossistemas nos quais startups e pequenas e médias empresas inovadoras trabalham com governos, estando atrás apenas da Espanha, Portugal e Chile.

De acordo com o relatório "As Startups GovTech e o Futuro do Governo no Brasil", lançado em 2019 pelo BrazilLAB em parceria com o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), temos, ao menos, 80 govtechs que atuam de maneira estratégica junto ao governo.

Mas há muito potencial para ir além: o estudo estima que aproximadamente 1.500 startups do país poderiam facilmente modular suas soluções e ofertá-las para o setor público.

Embora seja um mercado altamente promissor, as govtechs ainda enfrentam grandes desafios em sua atuação junto ao setor público.

Esses desafios são múltiplos e vão desde marcos regulatórios que dificultam a participação de startups em contratações públicas —embora tenhamos tido avanços relevantes com a aprovação do Marco Legal das startups, como discuti aqui— até mesmo a ausência até o ano passado de fundos de investimentos especificamente voltados para o ecossistema govtech, novidade que a KPTL trouxe no início deste ano com a criação do fundo de investimento voltado para govtechs, o primeiro da categoria na América Latina e um dos poucos no mundo dedicados exclusivamente às govtechs.

Incentivar o ecossistema govtech também passa por fortalecer todo o aparato regulatório de compras públicas. No entanto, sem sombra de dúvidas, o principal desafio está relacionado à assimetria de informações.

Os empreendedores precisam de incentivos para perceber que o trabalho junto ao setor público não só é possível, como também é rentável e tem alto impacto. Disseminar essa visão tem sido o principal trabalho do BrazilLAB nos últimos anos.

Acelerando startups com soluções para governos

O BrazilLAB é o primeiro hub de inovação privado e sem fins lucrativos dedicado a acelerar startups que desejem trabalhar com o setor público.

Inspirado em referências internacionais, tais como o MIT Solve e o Mayors Challenge, o programa de aceleração do BrazilLAB seleciona govtechs do Brasil e do mundo que tenham soluções inovadoras, tecnológicas e que possam ser implementadas nos mais diversos contextos, para os mais diferentes problemas.

As empresas selecionadas participam de módulos de formação que têm como objetivo prepará-las para a atuação junto ao setor público.

Temas como experiência do usuário, avaliação de impacto social e legislação são abordados ao longo da formação, que também conta com mentorias realizadas por profissionais de referência nos temas de tecnologia, inovação e políticas públicas.

Ao longo de cinco edições, o BrazilLAB teve mais de 3.000 empresas inscritas, acelerou 120 govtechs e obteve um índice de satisfação de 97%. E está construindo mais uma etapa dessa história, como o lançamento da 6ª Turma de Aceleração do BrazilLAB.

A iniciativa foi lançada no 4º BrazilLAB Talks, evento online realizado no dia 19 de agosto que contou com o depoimento de muitos empreendedores à frente de govtechs com soluções já rodando junto ao setor público. A íntegra do evento pode ser assistido aqui.

Este ano, o BrazilLAB busca soluções em três áreas:

  • Legistech: como ampliar a transparência, eficiência e a participação popular no processo legislativo com o uso da tecnologia?
  • Cidades inteligentes: Como a tecnologia desenvolvida por startups e PMEs pode ampliar ou estimular o uso de energia de fontes renováveis pelo Poder Público?
  • Digitalização do setor público: Como usar a digitalização de serviços públicos para fomentar a inclusão digital e produtiva no Brasil?


Se você tem uma solução interessante que pode contribuir com o desenvolvimento do Brasil ou interesse em conhecer mais sobre o programa, acesse o site do BrazilLAB. Compartilhe com sua rede; as inscrições estão abertas até o dia 20 de setembro de 2021.

A cada ano e a cada ciclo de aceleração renovo meu entusiasmo e certeza de que tecnologia e inovação são fundamentais para alcançarmos o complexo desafio que se coloca cotidianamente ao Brasil: enfrentar seus persistentes problemas do século 19, ao mesmo tempo em que se conecta com as oportunidades do século 21.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL