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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Crise de profissionais digitais é grave porque falta gente mais diversa

pressfoto/Freepik
Imagem: pressfoto/Freepik
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

19/06/2021 04h00

A transformação digital demanda um componente estratégico: pessoas. São os profissionais digitais —engenheiros de softwares, programadores, designers— os grandes responsáveis pela construção das diversas soluções tecnológicas que existem hoje e, principalmente, devem surgir no futuro próximo.

E nessa dimensão, o mundo enfrenta um grande desafio: não há profissionais em número suficiente e com a formação necessária para conduzir a revolução tecnológica. No Brasil, o cenário é ainda mais grave.

Segundo pesquisa realizada pelo BrazilLAB e pela Fundação Brava, em parceria com o Center for Public Impact (CPI), caso nenhuma medida seja tomada, o déficit de profissionais digitais pode atingir o alarmante número de mais de 300 mil pessoas até o ano de 2024.

E a situação tende a se agravar ainda mais, em um cenário educacional marcado por profundas desigualdades que caracterizam a população brasileira e que se tornaram ainda mais profundas com a pandemia de covid-19.

Para transformar essa realidade, é preciso inovar a formação de profissionais digitais —e a excelente notícia é que o Brasil tem se tornado referência nesse esforço.

Experiências de sucesso

Profissionais digitais podem ser definidos como aqueles que, dentro de seu conjunto de habilidades, conseguem construir produtos, serviços e estratégias para a transformação digital. Eles não estão relacionados a uma graduação específica e muito menos a um perfil jovem.

Muitas profissões do universo digital ainda nem existem e serão desenvolvidas em virtude do avanço tecnológico.

Dois desafios precisam ser superados quando falamos da formação de profissionais digitais.

Primeiro, garantir escala. É preciso ampliar muito e rápido o número de pessoas capacitadas a trabalhar com tecnologias.

Segundo, a qualidade. Precisamos de profissionais que possam se tornar verdadeiras lideranças em projetos de transformação digital, seja no setor privado ou no setor público.

A Alpha Edtech é um exemplo de uma iniciativa que busca ampliar o número e a diversidade de profissionais digitais. Lançada em 2020, a Alpha é uma escola de programação no modelo bootcamp.

Os alunos selecionados recebem uma bolsa de estudos no valor de R$ 1 mil por mês, patrocinada por empresas do setor, para viabilizar a dedicação exclusiva ao programa de formação e, ao final, são contratados para que possam trabalhar como programadores.

A primeira turma selecionou 31 candidatos de todas as regiões do Brasil e todos já foram alocados em empresas parceiras da iniciativa.

A preocupação com a diversidade é uma constante: 39% da turma é formada por mulheres, número muito superior ao observado no mercado de trabalho de tecnologia, no qual o público feminino representa somente 20% do total de profissionais.

A iniciativa também está alinhada aos desafios do contexto brasileiro, ao mesmo tempo em que prioriza a qualidade da formação. Os alunos passam por cursos de nivelamento para reforçar os conhecimentos de pensamento matemático e inglês, além de terem acesso a conteúdos de soft skills, desenvolvendo as habilidades tão necessárias para a inovação, como resiliência, adaptabilidade e paixão por aprender.

A Alpha Edtech quer ampliar o número de alunos formados em sua metodologia e está com inscrições abertas até 25 de junho. Você pode acessar mais informações aqui.

A Fellowship Tech, iniciativa concebida pela Fundação Estudar, selecionará até o dia 4 de julho (inscrições aqui) talentos de tecnologia de universidades no exterior, em cursos como, ciência da computação, engenharia de software, data science, sistemas de informação, entre outros. No ano passado já foram selecionados alunos de universidades como Carleton College, MIT e Universidade de Notre Dame.

Além de garantir a bolsa de estudo para os selecionados, a Fellowship Tech também oferece mentoria com fundadores de startups e profissionais que são referência em tecnologia, conexões, oportunidades, apoio individual e preparação para processos seletivos.

O resultado do programa será a construção de uma rede de talentos que serão as próximas lideranças da transformação tecnológica no Brasil nas mais diferentes áreas.

Mais diversidade e inclusão

Estamos ainda muito distantes de superar o desafio de formar profissionais digitais em quantidade e qualidade necessárias. No entanto, iniciativas como a Alpha Edtech e a Fellowship Tech são fundamentais e devem se intensificar nos próximos anos caso o Brasil deseje se tornar uma referência e aproveitar as oportunidades trazidas pela revolução digital, como sempre discuto em minhas redes.

Acima de tudo, precisamos garantir a diversidade e inclusão do maior número de pessoas na economia digital, com profissionais preparados para ocupar posições de trabalho que tenham alto valor agregado e retorno econômico.

A revolução tecnológica não precisa representar a substituição de pessoas por máquinas; ao contrário, ela pode ser uma ferramenta de transformação social e de redução das desigualdades. Para que isso se torne realidade, é preciso começar o quanto antes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL