Felipe Zmoginski

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Opinião

De carros a escova de dentes, por que a Xiaomi aparece em todo lugar?

Olhe ao seu redor. Alguém perto de você tem um celular Xiaomi em mãos. Segunda maior fabricante de smartphones do mundo, a empresa chinesa tornou-se um fenômeno entre os consumidores de seu país de origem e, fora da China, passou a despertar preocupação e admiração.

Os motivos de admiração não são difíceis de explicar. A empresa, criada há apenas 14 anos, é um caso estrondoso de sucesso. Em poucos anos, a companhia desenvolveu tecnologias próprias e criou celulares tão bons - ou melhores - que os fabricados por marcas muito mais famosas e bem estabelecidas, como Apple e Samsung.

Nem sempre foi assim. Em seu início, a empresa exibia dispositivos de qualidade duvidosa e rapidamente ganhou o jocoso apelido de "Apple da China", por supostamente imitar os aparelhos da empresa de Cupertino. De fato, o desejo em "parecer com a Apple" evidenciava-se até no comportamento de seu fundador, Lei Jun, que comparecia a eventos de lançamento utilizando jeans e camisetas pretas, em óbvia alusão ao modo de vestir-se de Steve Jobs. Aconselhado a se dissociar da imagem de um "imitador", Lei Jun abandonou o visual jeans e a camiseta preta e até mudou até o design de seus aparelhos, que ganharam, a partir de 2020, cores e curvas criadas por um escritório de design no Japão.

A estratégia de Lei Jun, no entanto, foi criar uma marca de dispositivos móveis para muito além dos celulares. As letras "mi", no final do nome "Xiaomi" são uma alusão a "mobile internet", explicou Jun. Desta forma, a companhia faz coisas que passam muito longe do portfólio de empresas como Apple ou Samsung. Por exemplo? Escovas de dentes, secadores de cabelo, máquina de lavar louça, câmeras de segurança, canetas tinteiro e, mais recentemente, até um carro.

O automóvel Xiaomi SU 7 é um exemplo emblemático do desejo de onipresença da marca. Luxuoso, o veículo elétrico que pode rodar 800 km com uma só carga, exibe tecnologias de ponta, como um método de carregamento rápido que, em 15 minutos, permite ao veículo recuperar 510 km de sua autonomia. Sua sofisticação é tamanha que especialistas em carros o posicionam como um competidor para o Porsche Taycan e o Tesla S.

O apelo especial da Xiaomi em sua linha de produtos é manter os custos baixos, praticar uma margem baixa de lucro e ganhar dinheiro graças à escala de suas vendas. Uma fórmula muito bem aceita pelos consumidores, especialmente os de países emergentes, onde não há tantos consumidores dispostos a gastar R$ 10 mil em um smartphone, como pode ocorrer com os dispositivos topo de linha da Apple, por exemplo.

É claro que a trajetória da Xiaomi é pontuada por polêmicas. As mais comuns são acusações de infração de patentes. Para crescer rápido, a empresa teria copiado, sem permissão, tecnologias de terceiros. Este ponto rendeu até a suspensão temporária das vendas da companhia na Índia, atendendo a um pedido da Ericsson.

A empresa, que usa um sistema operacional próprio baseado em Android, o MIUI, também é alvo de reclamações da comunidade de software livre. Ao utilizar tecnologias abertas, licenciadas sobre as regras de copyleft (um conceito oposto ao copyright), todo desenvolvedor deve manter as contribuições que cria também abertas. O que nem sempre a Xiaomi faz. Ou faz com grande atraso, buscando proteger seus interesses comerciais.

As reclamações mais graves, porém, partiram dos governos de países alinhados aos Estados Unidos, como Austrália e Lituânia. Nestes mercados, autoridades acusaram a Xiaomi de usar suas tecnologias de internet das coisas para espionar seus usuários. Pior: o intuito da espionagem seria repassar informações sensíveis ao Partido Comunista da China. O ministro da Defesa da Ucrânia, em setembro de 2021, pediu textualmente que os cidadãos do país não comprassem produtos Xiaomi.

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A triste verdade é que, dado o superpoder que os recursos digitais conferem às empresas de tecnologia, de fato, qualquer uma delas, tecnicamente, tem o poder de bisbilhotar os dados de seus usuários.

Mas esta realidade não muda se, ao invés de um Xiaomi, você tiver um Apple. A razão não revelada destas acusações contra a empresa de Pequim pode ser apenas lobby de governos pró-Ocidente para defender-se da duríssima competição com os chineses.

À luz das informações que conhecemos, há diferentes respostas possíveis para a pergunta-título deste post.

A primeira é que a onipresença da Xiaomi pode ser apenas uma estratégia de mercado, de explorar o apreço que consumidores têm pela marca em novos produtos.

A segunda é que há um maldoso plano engendrado pelo governo chinês para praticar espionagem em massa.

E a terceira é que pode ser um pouco das duas primeiras.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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