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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como descobrimos que humor das playlists do Spotify afeta até a Bolsa

Jeremy Bezanger/ Unsplash
Imagem: Jeremy Bezanger/ Unsplash

Ivan Indriawan, Adrian Fernandez-Perez, Alexandre Garel e Alex Edmans*

Especial para Tilt

17/10/2021 04h00

Gostamos de pensar que nossas decisões de compra são baseadas em fatos e cálculos racionais, mas acontece que elas também são influenciadas por nossas emoções. Quando gastamos muito dinheiro em uma refeição, roupas ou aparelhos eletrônicos, estamos realmente calculando os custos e benefícios ou estamos respondendo ao estresse, à frustração, à excitação ou à alegria do momento?

A mesma questão se coloca para os mercados financeiros. A teoria da eficiência afirma que os preços são o resultado de cálculos racionais. Mas os traders são humanos —e humanos estão sujeitos às emoções. Será que essas emoções afetam as decisões comerciais e, consequentemente, os preços das ações?

O estudo dessa questão continua difícil porque, embora as emoções das pessoas se traduzam em ações visíveis (com um comportamento ou linguagem agressiva, por exemplo), elas não são diretamente observáveis.

No entanto, com o advento do big data —e em particular, dados sobre as escolhas musicais dos usuários do Spotify—, está se tornando possível medir o humor médio dos indivíduos em um país e vincular isso aos movimentos dos preços das ações da Bolsa de Valores.

Nossa pesquisa, publicada no "Journal of Financial Economics", baseia-se na ideia de que existe uma correspondência entre as escolhas musicais de um indivíduo e seu humor.

Usando a positividade média da música ouvida no Spotify por indivíduos de um país, podemos, então, construir um indicador do sentimento médio dos investidores do país, e mostramos que isso prevê as mudanças no índice da bolsa de valores nacional.

Capturar o humor

O "sentimento" do investidor pode ser definido como o humor médio dos investidores sobre um mercado ou um ativo. Em outras palavras, é uma vontade de comprar ou vender que não pode ser explicada pelos fundamentos.

Há muitas medidas possíveis para este sentimento. Entretanto, a confiança do consumidor, o crescimento de um país, o nível de desemprego ou o número de mortes ou casos de coronavírus têm efeitos diretos na economia, o que torna difícil identificar claramente o papel das emoções.

Quando a confiança dos consumidores aumenta, ela afeta diretamente os mercados financeiros através de melhores fundamentos (melhores expectativas de vendas), e não apenas através de sentimentos positivos.

Uma alternativa é estudar fatores tidos como impactantes no humor das pessoas, mas não diretamente na economia de um país, a fim de estudar a relação entre as emoções e os mercados financeiros. Os pesquisadores já utilizaram, entre outras coisas, os resultados de grandes competições esportivas.

Nossa abordagem é diferente. Propomos uma nova maneira de captar o humor médio dos indivíduos em um país usando dados do Spotify.

Um problema potencial com as escolhas musicais das pessoas é que elas podem optar por ouvir música positiva diante de um sentimento triste, não refletindo seu estado de espírito do momento.

Mostramos que este não é o caso. A positividade média da música que as pessoas em um país ouvem é maior nos dias ensolarados e quando as restrições pandêmicas são retiradas, ou seja, quando o humor médio das pessoas deveria ser melhor.

A novidade de nosso estudo é que ele propõe uma medida que reflete o sentimento das pessoas em um país, independentemente do que possa estar causando as mudanças de humor: seja o resultado de uma partida de futebol, causas pessoais ou um aumento dramático nos casos de covid-19.

Esta capacidade dos dados do Spotify de refletir o estado de espírito médio dos indivíduos se reflete nas previsões de confiança dos consumidores. Os dados preveem com mais precisão do que as pesquisas de consumo.

Reação exagerada

Estudando a relação entre nossa medida de sentimento baseado na música e os mercados de ações, descobrimos que, em média, uma melhoria no sentimento dos investidores está associada a um rendimento significativamente positivo das ações na mesma semana.

Este aumento de preço é seguido por uma queda de magnitude semelhante na semana seguinte, sugerindo que a reação inicial do mercado acionário foi impulsionada por emoções e não por mudanças nos fundamentos.

Mostramos que nossos resultados não são o produto de apenas um dos quarenta países de nossa amostra. Consistentemente, também mostramos que uma melhoria no sentimento do investidor está associada ao aumento das compras de fundos mútuos de ações.

Nossa pesquisa não tem como objetivo descobrir uma estratégia comercial lucrativa. Em vez disso, mostramos que as emoções realmente afetam os mercados de ações.

Essas e outras descobertas convidam os investidores a prestar atenção a suas próprias emoções ao tomar decisões de investimento ou ao tentar entender os movimentos do preço das ações, especialmente durante períodos de especulação.

Nosso estudo também destaca o papel que o big data pode desempenhar na agregação e medição do sentimento do investidor.

Os dados musicais do Spotify, com seu alto grau de comparabilidade internacional e atualizações diárias, permitem medir o sentimento dos investidores de um mercado em tempo real.

* Ivan Indriawan é professor sênior de Finanças na Universidade de Tecnologia de Auckland; Adrian Fernandez-Perez é pesquisador sênior em Finanças na Universidade de Tecnologia de Auckland; Alexandre Garel é pesquisador em finanças na Audencia Business School; Alex Edmans é professor de Finanças e diretor acadêmico do Centro para Governança Corporativa, do London Business School.

* Artigo publicado originalmente no site The Conversation.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL