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Warcraft III: Reforged não é o remaster que os fãs mereciam

Daniel Esdras

Do GameHall

28/02/2020 04h00

Warcraft III fez parte da vida de inúmeros jogadores. Último título de estratégia em tempo real da franquia antes de migrar para o mundo dos MMOs com World of Warcraft, esse jogo tão amado da Blizzard marcou época, redefiniu seu gênero e se diferenciou da concorrência com várias abordagens únicas. Além do jogo base, o seu "World Editor" foi responsável por milhares de mapas feitos por uma comunidade vibrante, entre eles o DOTA Allstars, que deu origem aos colossos League of Legends e DOTA 2.

Por conta de todo esse passado, o anúncio de Warcraft III: Reforged foi recebido com muita alegria pelos fãs de longa data. Em um período em que o gênero de estratégia em tempo real parece cada vez mais de nicho e com cada vez menos lançamentos de peso, uma versão "tunada" de um dos melhores parecia algo incrível. Infelizmente, o resultado passou longe do esperado. A pior parte é que a análise desse jogo e da história recente da Blizzard são inseparáveis, o que lança uma sombra de desconfiança sobre o futuro de outras franquias da casa.

Uma mão de tinta na campanha

Warcraft Jaina e Arthas - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A campanha de Warcraft III é uma das mais marcantes que já joguei. Embora os diálogos pareçam bobos após anos de evolução da mídia e as animações não sejam lá muito eficientes em passar a emoção que senti na época, ainda é surpreendente ver o desenrolar da história de humanos, orcs e elfos noturnos contra a praga espalhada pela Legião Ardente. Nesse contexto surgiram alguns dos personagens mais interessantes do mundo dos games: Illidan, Thrall, Arthas, Jaina e muito mais.

Em termos de conteúdo na campanha, o remaster mandou bem, o problema foi em relação às promessas feitas para as outras partes do jogo, e especialmente os quesitos técnicos

A versão Reforged teve a chance de trazer tudo isso para um novo público e ser uma celebração para os fãs de longa data. Para isso foram incluídos no pacote o jogo base, Reign of Chaos, e a sua expansão, Frozen Throne. Além disso, novas traduções e dublagens foram acrescentadas, inclusive o português brasileiro. Em termos de conteúdo na campanha, o remaster mandou bem, o problema foi em relação às promessas feitas para as outras partes do jogo, e especialmente os quesitos técnicos.

Em 2018, quando Warcraft III: Reforged foi anunciado na Blizzcon, foram mostrados os novos modelos para os heróis (marca registrada do jogo), além de várias promessas: uma campanha com visuais trabalhados e mapas refeitos, uma nova interface, resolução 4k e novas abordagens, como "cinematics" mais modernas. A impressão deixada na época foi das melhores.

Embora parte disso esteja em Reforged, como os modelos, alguns mapas e a resolução 4k, em outras frentes o jogo não só não cumpriu as promessas, como ficou inferior ao seu antecessor. As animações, por exemplo, que no primeiro trailer pareciam muito bem feitas, foram simplificadas em várias unidades. Algumas unidades que tinham três animações para ataques agora têm apenas uma. E e o pior: com um tratamento de frames ruim, que deixa a sensação que estão rodando fora do tempo do jogo, quase em "stop motion", algo para lá de feio nas batalhas.

Já as novas "cinematics" prometidas foram a pior ofensa aos fãs de longa data dessa jornada. As que seriam novas e eram promissoras foram abandonadas após uma mudança de direção na arte (alguém lembrou de Diablo 3?). A justificativa foi deixar o jogo mais próximo da experiência original, mesmo argumento dado para a ausência da nova interface, que parecia muito boa no trailer de anúncio e foi retirada para a manutenção da antiga sem correções. Os textos durante a campanha aparecem enormes na tela em conjunto com a interface padrão e atrapalham a todo o momento. Chega a ser inacreditável.

Warcraft III Review 1 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Isso tudo, por si só, já pega mal, mas o pior está em algumas cinemáticas clássicas que rolam após completar as histórias das facções. Em vez de serem refeitas, foram alteradas de forma bizarra. A clássica luta entre Arthas e Illidan sequer tem música, e a nova animação fica longe do que representou a qualidade da anterior naquela época. A Blizzard sempre foi conhecida pelo altíssimo nível das suas "cinematics" e literalmente definiu novos patamares para a indústria, mas aqui falhou até mesmo no que faz de melhor.

Com apenas algumas das novidades prometidas e a deterioração de parte do que existia no jogo original, a impressão é de que passaram uma mão de tinta na campanha, meio que na correria, e entregaram algo que já nasce desbotado. Uma oportunidade perdida que tem a ver com mais um episódio de comunicação pobre da Blizzard com seus fãs e falta de tempo para o desenvolvimento.

Uma horda de ausências

Warcraft III Review 2 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Diferente da campanha, o multiplayer foi liberado com antecedência, para que os jogadores pudessem experimentar a "nova" forma de jogar. A expectativa era de uma renovação do cenário competitivo do Warcraft III, que continua vivo até hoje mas carecia de uma nova leva de jogadores para ser relevante de novo. Mas aqui também há pouco o que comemorar.

As ranqueadas não estão presentes nessa versão, o que de cara já quebra bastante da expectativa por uma renovação do competitivo. A montagem de clãs, os clássicos torneios e até partidas em LAN também não estão presentes. Algumas vão chegar em futuras atualizações, outros, como os torneios, foram removidos e não voltarão mais.

Como o novo jogo substitui o antigo cliente do Warcraft III, esses modos agora também não estarão mais presentes para quem tinha a versão original mas não embarcou no remaster. Para quem tem um PC defasado e de alguma forma não conseguiu rodar o novo cliente, também não há solução no momento.

A quantidade de bugs desse novo cliente também não ajuda. Tive diversos problemas para conectar em jogos, muitas vezes com a autenticação para entrar na Battle.Net, que me obrigava a ficar offline. Outros jogadores estão reclamando de mais problemas que vão desde travadas constantes durante o jogo até o encerramento aleatório de partidas tanto na campanha quanto no multiplayer. Mais uma vez, a sensação é de que o lançamento foi apressado e carecia de mais um tempo no forno.

Por fim a maior bola fora e a ausência mais sentida, que inflamou a comunidade para todos esses outros problemas: o novo contrato de direitos autorais para o "World Editor". Ele fez boa parte dos mapas antigos ficarem ausentes e a vontade dos criadores de produzir novos ou atualizar os originais lá em baixo. Está proibido utilizar propriedade intelectual de terceiros e todo e qualquer mapa criado agora pertence à Blizzard, que pode inclusive utilizar as ideias e os nomes colocados ali sem dar satisfação para os jogadores. Com isso centenas de jogos clássicos não foram para o Reforged e parte mais divertida do Warcraft 3 para mim foi minada, o que sedimentou de vez a impressão de que Reforged fez mais mal para o título do que bem.

Blizzard deixou de ser a queridinha do PC

Warcraft III Review 3 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A Blizzard foi por mais de uma década a referência para os jogos de PC. Warcraft, Starcraft e Diablo foram franquias revolucionárias na sua época e empurraram seus gêneros para frente. A empresa era conhecida por elevar o padrão em várias frentes, do design à execução das "cinematics" em computação gráfica. Isso não é mais o caso em 2020, quando no momento em que essa análise é escrita "Warcraft III: Reforged" tem a pior nota de usuários da história do Metacritic, com quase trinta mil análises.

Muita gente atribui os recentes problemas da Blizzard, como a saída de veteranos, a demissão de centenas de funcionários após um ano de recordes de lucros, os problemas com a censura do jogador de Hearthstone que apoiou Hong Kong em um torneio, o anúncio estabanado de Diablo: Immortal e agora os problemas com Warcraft III: Reforged à fusão com a Activision. Embora isso possa ser boa parte do problema, muito poderia ter sido evitado a partir de uma boa comunicação com a comunidade, que vêm se afastando cada vez mais da empresa.

As mudanças de direção no Reforged poderiam ter sido melhor explicadas, já que até dias antes do lançamento ainda estavam fazendo o marketing com imagens de sistemas e conteúdos que não estavam no jogo final. As mudanças no contrato do "World Builder" poderiam ter sido debatidas e especialmente o fã de longa data - e aqui vale até para vários outros problemas recentes, como o do Diablo, ter sido levado em consideração. Do anúncio de um jogo mobile em um evento voltado para os jogadores de PC que aguardavam novidades da franquia, até a união mal feita dos clientes do Reforged e do Clássico, tudo parece ser feito sem levar em consideração aqueles que por anos deram suporte para a empresa e fizeram dela o que é.

Se mais esse acontecimento infeliz vai minar as vendas de jogos futuros como o já controverso Overwatch 2 ou o desejado Diablo IV, só o tempo vai dizer, mas o sinal de alerta está ligado. Em uma nova geração onde a promessa é de muitas mudanças tanto na forma como jogar quanto nos modelos de negócio, nem mesmo gigantes como a Blizzard podem se acomodar. Se ela um dia foi a queridinha dos jogadores do PC e o farol para novos desenvolvedores, hoje, com certeza, é vista com desconfiança pelos seus fãs mais antigos e sem muito apreço por uma onda de novos jogadores.

Warcraft III Reforged

Conclusão

Warcraft III: Reforged devia ser uma celebração para os fãs de RTS e especialmente da franquia emblemática da Blizzard, mas acabou prometendo muito e entregando não só menos que o esperado, como também menos que o antecessor, que por incrível que pareça também conseguiu ser afetado negativamente.

A comunicação pobre da Blizzard com os seus fãs fez com que todos os problemas do título ficassem ainda mais evidentes e se tornou mais uma bola de neve para o departamento de marketing da empresa lidar por meses. Se o jogo vai ser consertado só o tempo dirá, mas esse capítulo é mais uma mancha na história bonita da Blizzard que não parece ser mais a mesma.

Warcraft 3 capa - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação
Plataforma: PC
Lançamento: 28/01/2020
Preço sugerido: R$ 79,00 (padrão) R$ 159,00 (Spoils of War)
Classificação indicativa: 14 anos (Violência)
Desenvolvimento: Blizzard
Publicação: Blizzard
Jogue também: Diablo III, World of Warcraft, DOTA 2, StarCraft II

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