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Man of Medan segue a fórmula de Until Dawn, mas acaba derrapando

"Man of Medan" é a primeira parte da antologia "The Dark Picture" - Reprodução
"Man of Medan" é a primeira parte da antologia "The Dark Picture" Imagem: Reprodução

Makson Lima

Colaboração para o START

07/09/2019 04h00

Por muitos anos, a Supermassive Games foi um braço europeu da Sony. Depois de servir de suporte no desenvolvimento de jogos como "LittleBigPlanet", a explosão veio com o sucesso absurdamente inesperado de "Until Dawn" (PS4), em 2015. O terror adolescente (e com um orçamento parrudo) caiu nas graças dos fãs de terror e, daí em diante, a Supermassive evoluiu bastante.

"Man of Medan" serve como uma espécie de "volta ao básico" para a desenvolvedora. É, sem tirar nem por, "Until Dawn" até o último grito esganiçado e pelo da nuca arrepiado. Depois de ótimos títulos como "The Inpatient" e "Hidden Agenda", trata-se, infelizmente, de um retrocesso.

O começo de uma antologia

O formato da antologia é muito comum em cinema, literatura e TV. Stephen King tem sua coleção de contos, assim como Lovecraft e Edgar Allan Poe; seriados se dispõem dessa maneira, como "American Horror Story" e "Contos da Cripta"; e o cinema mistura linguagens em obras como "V/H/S" e "The ABCs of Death". Acho que deu para notar como o terror se beneficia da antologia, certo? O segmento rápido e rasteiro, independente, funciona bem. A Supermassive sabe disso, torna-se multiplataforma e começa a sua própria "The Dark Pictures Anthology" com "Man of Medan" - e o próximo capítulo, "Little Hope", já anunciado para 2020.

Nosso anfitrião na aventura, O Curador - Divulgação
Nosso anfitrião na aventura, O Curador
Imagem: Divulgação

O jogo tem até o seu próprio "Cript Keeper" (lembra a caveirinha contadora de histórias de "Contos da Cripta"?) no papel do Curador. De ato em ato, "Man of Medan", de forma metalinguística, coloca seu anfitrião para conversar com quem joga, a fim de sintetizar os acontecimentos até ali de forma um tanto misteriosa, até oferecendo dicas.

E aqui cabe um parênteses: com os gráficos cada vez mais fotorrealistas, tem sido senso comum levar atores e atrizes de cinema para os videogames. Longe de ser um hábito recente (vide "Onimusha", por exemplo), só se torna mais frequente, e o quanto isso é realmente válido para a imersão? Caso Snake, de Metal Gear, fosse mesmo Kurt Russell em cada polígono e pixel, o impacto seria o mesmo? O quanto isso se faz necessário? Rami Malek protagonizou "Until Dawn" antes do sucesso de "Mr. Robot" e "Queen", e o impacto, em retrocesso, é atenuador. Acredito termos aqui um debate bastante válido, mas voltaremos ao tema em outro dia.

Decisões, decisões... tantas decisões - Divulgação
Decisões, decisões... tantas decisões
Imagem: Divulgação

Causa e consequência

"Until Dawn" reforçava à exaustão a ideia do Efeito Borboleta, onde cada decisão, cada apertar de botão falho, traria resultados e com direito, inclusive, a premonições via totens indígenas. "Man of Medan" é exatamente assim também, basta substituir as esculturas dos nativos por quadros nas paredes. Nada inspirado.

A trama começa pouco tempo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Uma enorme embarcação abriga uma carga misteriosa, além de caixões fortemente vedados. A loucura acomete os soldados a bordo e, sem grandes explicações, mas já de entendimento do gameplay extremamente básico do jogo (essencialmente, quick time events, exploração superficial e tomadas de decisão, sempre ponderando entre o racional e o passional), chegamos aos dias atuais, com nosso grupo de jovens prestes a embarcar num passeio sem volta para o além.

O elenco jovem, belo e superficial de "Man of Medan" - Divulgação
O elenco jovem, belo e superficial de "Man of Medan"
Imagem: Divulgação

Assim como em "Until Dawn", esse primeiro segmento da antologia faz questão de explicitar, da forma mais rasa possível, os traços marcantes de seus personagens. Alex é inseguro; Julia é inconsequente; Conrad é cheio de si, e por aí vai. Longe de haver qualquer tipo de necessidade quanto a isso, pois os personagens são tão unidimensionais e superficiais, que basta a primeira cena com todos interagindo para concluirmos o óbvio. E sem espaço para surpresas, por mais que o jogo tenha inúmeros desdobramentos, inúmeros desfechos. Há até barras de entrosamento entre os protagonistas. A ideia é mantê-los todos vivos (e há dezenas de formas de cada um encontrar seu trágico fim), mas não houve nenhum vínculo de importância ou interesse para mim, salvo exceções, como Fliss, a capitã do barco.

Quando penso em quem assina o roteiro, aí a decepção só aumenta: trata-se de Larry Fessenden, veterano do cinema de horror, de obras importantes, especialmente no meio indie, como "Wendigo", "Habit" e "A Casa do Diabo". Conhecer o trabalho de Fessenden é mais problemático, nesse caso específico. E a parceria entre o cineasta e a Supermassive tem sido duradora, pois foi ele, juntamente a Graham Reznick, quem assinou o texto de todos os jogos de horror desde "Until Dawn". Certamente é ele o roteirista em "Little Hope".

O verdadeiro protagonista do jogo - Divulgação
O verdadeiro protagonista do jogo
Imagem: Divulgação

JUMPSCARE!

Chegar até o palco principal de "Man of Medan" é só parte do processo. O navio de guerra está à deriva faz décadas e os gráficos saltam aos olhos. Vez ou outra, literalmente. Enquanto o dito "uncanny valley" é bastante constante em relação aos personagens, sua movimentação e, especialmente, interação com objetos do cenário, o total oposto pode ser dito da embarcação mal-assombrada. Cada corredor, cada aposento, da proa a popa, é meticulosamente criado e feito para assustar. A Supermassive soube onde posicionar as câmeras para tirar o máximo de proveito do espaço, situando seus passageiros como figuras indefesas, dignas de pena.

Dado o formato fragmentado do jogo, muitas vezes tive a impressão de lidar com esquetes distintas entre si, que mal se encaixam. Alex é o irmão mais velho de Brad e estava a algumas horas sem saber de seu paradeiro. Quando, por fim, se encontraram, não houve nenhum tipo de reação de nenhum deles. Estranho, e "Man of Medan" é cheio de momentos derrapantes, que tiram o foco do mais importante: seus fantasmas, zumbis e demais monstruosidades do além. Algumas são ótimas, como a maruja dançarina e a aberração de duas cabeças.

A Supermassive soube onde posicionar as câmeras para tirar o máximo de proveito do espaço, situando seus passageiros como figuras indefesas, dignas de pena

"Man of Medan" é repleto de monstros bem reais - Divulgação
"Man of Medan" é repleto de monstros bem reais
Imagem: Divulgação

Os sustos são por minuto, repleto de barulhos altos no vazio, e a ideia da jogatina compartilhada, seja online, seja no clássico cooperativo de sofá, é muitíssimo bem-vinda. Sou adepto do terror solitário, madrugada adentro, mas entendo o apelo. "Noite de Filme" e "História Compartilhada", como bem nos contou o diretor do jogo numa entrevista recente, oferecem novas abordagens ao já clássico formato de terror em videogame.

The Dark Pictures Anthology: Man of Medan

Divulgação
Imagem: Divulgação
É difícil admitir, mas "Man of Medan", assim como "Until Dawn", não funcionou para mim, principalmente com seus personagens rasos e momentos derrapantes, que tiram o foco do que deveria ser mais importante, como os fantasmas e sustos. Mas fica o apelo: se você curtiu o jogo de 2015, embarque nessa nova empreitada da Supermassive sem pensar duas vezes.

Lançamento: 30/08/2019
Plataformas: PC, Xbox One
Preço sugerido: R$ 129,90 (PC), R$ 159 (Xbox One, PS4)
Desenvolvimento: Supermassive Games
Produtora: Bandai Namco

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