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Mentiras e manipulação: testamos o game proibido de sedução de mulheres

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Imagem: Reprodução

Fernanda Pineda

Colaboração para o UOL

16/03/2018 04h00

No último dia 7, um game descrito como o "simulador de sedução mais realista do mundo" acabou virando notícia ao ser banido pela Sony de sua loja digital. A empresa não deixou claro os motivos que levaram a esta decisão, mas algumas hipóteses apareceram: seria o teor exagerado do jogo ou algo ainda mais grave, como servir de estímulo ao assédio sexual? Tentamos contato com a Sony, mas não fomos atendidos. Assim, para tentar descobrir os problemas do game, só jogando. E foi exatamente o que eu fiz.

"Super Seducer" foi criado pelo britânico Richard La Ruina, conhecido como "guru da sedução", e traz situações reais de paquera para que jogadores possam testar seus conhecimentos de conquista - tudo com o próprio La Ruina em cena. Antes de se tornar personagem do próprio jogo, o coach de xaveco publicou o livro "A Arte Natural da Sedução" (2012) e reuniu suas técnicas num curso que forma "Pick Up Artists", ou "artistas da paquera". As táticas fazem algum sucesso: até mesmo no Brasil basta procurar por "PUA" para encontrar todo tipo de conteúdo a respeito.

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Ao contrário da Sony, a Steam manteve o jogo no ar. A versão para PC segue sendo vendida normalmente por R$ 20,43 (também tentamos falar com a Valve sobre a liberação e também não fomos atendidos). Antes de baixar, é possível ler comentários de outros gamers como "gameplay pobre", "que divertido!" ou "um ótimo jogo se você é um alien sem experiência para lidar com outros seres humanos". Ou seja: nada exatamente empolgante. Some a isso o fato de que eu, como jogadora e mulher, também já estava preparada para o pior acontecer ali na minha frente.

E antes é bom deixar claro: estamos falando de um jogo que não permite escolher um personagem mulher para paquerar um homem (ou outra mulher!). O jogador assume o papel de um homem disposto a conquistar apenas mulheres.

Papo furado e lingerie 

O simulador de namoro de La Ruina segue à risca o que se espera do gênero: você acompanha o conselheiro amoroso em vídeos de diversas situações e lhe ajuda a tomar a melhor decisão para conseguir ficar com uma garota, seja num bar, num café ou numa balada. Cada ato dura em torno de 25 minutos e, entre uma decisão e outra, o professor entra em cena com um discurso sincerão para avaliar seu desempenho.

Super Seducer - Divulgação - Divulgação
Algumas opções de diálogo de "Super Seducer" são, no mínimo, embaraçosas.
Imagem: Divulgação

Logo na primeira missão, que envolve paquera na rua, La Ruina explica que é melhor não ficar tentando andar ao lado de uma garota ("você está perseguindo? É um assaltante ou o que?") e desaconselha a se tocar publicamente para tentar excitá-la. Neste momento exato eu entendi o porquê do comentário do usuário na Steam: ainda é preciso ensinar coisas básicas sobre convivência em sociedade.

Atitudes agressivas, violentas e desrespeitosas não são recompensadas dentro do jogo e, em alguns momentos, o professor chega a fazer sermão. "Como um homem, você tem a responsabilidade de tratar as mulheres com respeito", me disse La Ruina depois que tentei falar absurdos para uma moça. O jeito de explicar pode ser meio torto, mas fica bem claro que esta não é uma plataforma de treino para assediadores. Só que isso não significa que está tudo bem.

Ao longo do jogo, é possível aprender táticas para sair de silêncios constrangedores num primeiro encontro ou mesmo mini joguinhos para fazer com seu interesse amoroso e quebrar o gelo - algo que, sinceramente, chega a dar sono até mesmo no simulador, o que dirá na vida real.

Super Seducer - Reprodução - Reprodução
Nem todas as suas falas são bem recebidas pelas moças. Mas isso não isenta o game de seus problemas.
Imagem: Reprodução

Depois de boas horas de treino, percebe-se que tudo se resume a uma estratégia infame: tentar abaixar a autoestima da mulher até que ela aceite a validação de um completo estranho. O momento mais esquisito acontece na missão do bar, em que o jogador é levado a elogiar uma garota por ter escolhido fazer faculdade de economia e não de moda. Impossível imaginar porque alguém se daria bem fazendo isso na vida real.

Essa sequência de manipulação psicológica e muito "lero-lero" jamais acontece com o objetivo saudável de conhecer a pessoa de verdade e estabelecer uma relação tratando-a com a igualdade e respeito. Tudo é proposto como uma simples lição de casa para ser feita o mais rápido possível para partir para o "próximo estágio na conquista", se é que me entende.

Ainda no momento "aula" do simulador, La Ruina aparece sempre num quarto de mal gosto rodeado de moças que se tornam decoração ao seu lado: quando as respostas do jogador estão erradas, elas aparecem de vestido. Quando são aprovadas, as moças estão somente de lingerie. Não preciso nem dizer que existem muitas outras formas de decorar uma sala sem precisar objetificar ninguém, não é mesmo?

Super Seducer lingerie - Reprodução - Reprodução
Durante as "aulas de sedução", o game trata as mulheres como objetos.
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Ironicamente, a cerejinha do bolo são os comentários negativos que o mestre da conquista faz sobre homens que jogam videogame, seu principal público-alvo com este título em específico. La Ruina não perde a oportunidade de subestimar e generalizar os gamers e não recomenda que você diga para uma mulher que passou o dia jogando em casa. Para ele, é importante que você cultive muitas paixões para ser uma pessoa mais interessante, mas certamente gostar de jogar videogame não serviria para esse quesito. Ou seja: que tal ainda mentir sobre quem você é? Uma pena.

Com seus problemas, "Super Seducer" fica num lugar morno: não chega a ser inventivo e certamente não vai transformar ninguém num cara mais legal. Mas o game está aí e, para não dizer que foi lançado em vão, tenho certeza que as leitoras podem tirar algum proveito observando as táticas manjadas para poder fugir dessas ciladas o mais rápido possível.