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Conheça o homem por trás das proibições de "Doom" e "Carmageddon" no Brasil

Theo Azevedo

Do UOL, em São Paulo

21/04/2015 10h00

“Estava em casa, no meu quarto, quando ouvi os amigos do meu filho gritando, em outro cômodo: ‘Mata, mata! Atira na testa!’. Corri para ver o que era e me deparei com eles jogando um game do James Bond em que era preciso atirar na testa para ganhar pontos”.

Era por volta de 1999 e o jogo, provavelmente, “GoldenEye 007”. Betinho Duarte, então vereador em Belo Horizonte (MG), não conhecia os videogames direito e ficou horrorizado com o que se passara em sua casa. Mais que proibir seu único filho, então com algo entre oito e dez anos, de jogar, decidiu ir além e produziu farto material com cenas de jogos violentos da época, iniciando uma campanha que culminaria com a proibição da comercialização de diversos deles em território nacional.

No mesmo ano, “Carmageddon”, “Carmageddon II”, “Doom”, “Mortal Kombat” e até títulos não tão famosos, como “Requiem”, “Blood” e “Postal”, foram proibidos no Brasil - uma notícia que ganhou manchetes de jornais, revistas e mesmo da televisão.

Em material em texto e vídeo (“Educando para matar” é o sugestivo título), Betinho Duarte descreveu "Carmageddon" como um game no qual "o jogador dirige um carro desenhado na tela, e o objetivo é atropelar o maior número de pessoas possível, em especial idosos e crianças. Pegar um transeunte na calçada dá mais pontos ao 'motorista'".

  • "Carmageddon" chamou a atenção de Betinho Duarte por sua violência exagerada

O UOL Jogos conversou com Betinho, que possui um longo histórico de combate às formas de entretenimento que, segundo ele, ameaçam os lares brasileiros: ele já acionou o Ministério Público Federal para questionar a exibição do quadro “Banheira do Gugu”, na época uma das principais atrações do “Domingo Legal”, apresentado por Gugu Liberato nos anos 90, no SBT. Os RPGs e, mais recentemente, até o MMA foram alvos de Betinho.

Com “Carmageddon” e cia, porém, a intenção de Betinho não era a censura: “A proibição não era meu intuito, e sim alertar os pais sobre o que estava acontecendo com os filhos. Afinal, proibido ou não, se o pai permitir [que seu filho jogue]...”, conforma-se.

Batista, Betinho alega que não agiu por influência da religião, e sim em função da criação de seu filho único. “Não havia a classificação etária, que seria implementada nos jogos apenas anos depois”. O filho, no entanto, não voltaria a se divertir com videogames: “Ele nunca mais jogou. Comprei um [jogo] de construir uma cidade [“SimCity”], mas ele não quis jogar, não se interessou”.

ASSISTA À CAMPANHA CONTRA A VIOLÊNCIA NOS GAMES

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Perguntado se vê algum benefício nos jogos eletrônicos, Betinho pensa demora pra responder: “Olha, é de se pensar, viu?”. Alguns têm pouquíssimos benefícios”. E logo volta a falar novamente sobre os supostos malefícios, desta vez sobre como pode prejudicar a visão das crianças: “Piscamos porque é importante lubrificar os olhos. A criança fica vidrada para não deixar de matar alguém. Tem que matar. Aí o olho fica seco e começa a ficar irritado”.

Vale destacar que a hipótese de que games violentos levam à violência nunca foi comprovada. Na verdade, um recente estudo da Universidade de Oxford concluiu que não existe associação entre jogar games violentos e praticar agressões reais e violência física.

Quando fica sabendo que “Mortal Kombat” acabou de ganhar nova versão, e que o próprio “Carmageddon” terá uma sequência em maio, Betinho, em tom desiludido, descarta qualquer iniciativa contra os jogos. “A banalização tornou-se de tal maneira tão incontrolável que não tenho mais nada a dizer. Naquela época achava ainda que era possível alertar os pais. Hoje estou preocupado com outras coisas. Meu filho está criado, já tem 26 anos, então os outros pais que se virem”.

FATALITIES FICARAM CADA VEZ MAIS VIOLENTOS; VEJA

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