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Brasileiro lidera criação de "Pier Solar", RPG retrô para consoles next gen

Victor Ferreira

do Gamehall

25/03/2014 12h43

Em 2004, Tulio Adriano Cardoso Gonçalves era um típico rapaz de vinte poucos anos: Solteiro e vivendo no Brasil, dividia o tempo entre seu trabalho como consultor de TI e sua banda de rock. Em seu tempo livre, trabalhava em um pequeno projeto com outros membros da comunidade do site Eidolon’s Inn - site dedicado aos consoles da Sega, como o Master System e Mega Drive - para a criação de um pequeno jogo inspirado em RPGs clássicos da era 16-bit, como “Chrono Trigger” e “Phantasy Star IV”, que marcaram sua infância.

Dez anos mais tarde, Tulio, 34, agora é casado e vivendo em Iowa, nos Estados Unidos. O trabalho de TI ficou para trás, assim como a banda de rock, mas o pequeno “Tavern RPG” seguiu em frente, tornando-se “Pier Solar and the Great Architects”, jogo lançado para o Mega Drive em 2010 - duas décadas depois da chegada do console no mercado -, e resultou na fundação do estúdio independente Watermelon Corp., do qual o brasileiro é presidente.

Agora Tulio, o sócio francês Gwénaël Godde - também conhecido como Fonzie - e a Watermelon estão prestes a lançar “Pier Solar” para os consoles atuais - não apenas PC, Xbox 360 e PlayStation 3, como também no Xbox One, PlayStation 4 e Nintendo Wii U - em abril, graças a uma campanha de sucesso no site Kickstarter. UOL Jogos conversou um pouco com o diretor brasileiro sobre a evolução do projeto, e o que o futuro espera para seu pequeno e diferente estúdio.

De taverneiros a Grandes Arquitetos

“Pier Solar and the Great Architects” teve um início simples, como um projeto dos membros da comunidade do Eidolon’s Inn - seu nome original, “Tavern RPG”, foi dado em homenagem aos fóruns do site - para o Sega CD. Inicialmente, os personagens até dividiriam seus nomes - ou apelidos, no caso - com usuários que contribuíram para o desenvolvimento do jogo.

  • Arquivo pessoal

    Fundador da Watermelon, Tulio Gonçalves é o brasileiro que liderou a produção de "Pier Solar"

Eventualmente, as circunstâncias mudaram. “Com o crescimento do projeto essa ideia de ‘jogo de comunidade’ teve que ser abandonada para atingir um público maior”, diz Tulio. O Sega CD também acabou tendo uma arquitetura complexa demais para o desenvolvimento do jogo, e a equipe teve de reverter para o Mega Drive, que era - relativamente - mais simples de utilizar.

Isso não significa, claro, que tenha sido um processo simples. “Quando eu comecei, sabia muito pouco sobre os aspectos técnicos do Mega Drive, e aprendi muito sobre o sistema à medida em que o jogo foi sendo construído”. No fim, Tulio e sua equipe ainda foram capazes de usar algumas das funcionalidades do Sega CD, possibilitando jogadores a “ouvir a trilha sonora em alta qualidade quando o Sega CD e o CD de áudio estiverem presentes”.

Os aspectos técnicos eram apenas parte do desafio. Mesmo com o jogo tomando maiores proporções do que o esperado, o trabalho principal ainda era dependente de pessoas do mundo inteiro, em seu tempo livre, sem recompensa financeira. “O problema deste modelo é que muitas vezes voluntários entram por empolgação - um ‘fogo de palha -, e acabam abandonando depois de algumas semanas ou meses, quando veem que trabalhar na criação de um jogo vai consumir muito do seu tempo livre”, diz Tulio.

Ainda assim, muitos fãs e entusiastas não eram simples “fogo de palha”, dedicando-se bastante à criação do que viria a ser “Pier Solar”. “O trabalho via internet dá certo desde que todas as pessoas envolvidas tenham o mesmo nível de comprometimento”, declara o desenvolvedor. “Felizmente nós encontramos várias pessoas que estavam com o mesmo espírito e dedicação, e graças a elas conseguimos concluir o projeto”.

O projeto também teve seus desafios longe das linhas de código e animações de sprites: Por querer recriar uma experiência autêntica de um RPG para Mega Drive, Tulio e seu sócio, Fonzie, trabalharam arduamente para criar uma caixa e cartucho que lembrassem os games daquela era.

Fonzie vivia em Hong Kong na época, e os dois acabaram tendo de pesquisar qual o formato ideal tanto do cartucho quanto da própria caixa, além dos materiais necessários e corretos. “No final das contas tivemos que fabricar tudo, desde os moldes das partes plásticas até os parafusos em si. Nada disso existe mais disponível no mercado”.

Isso sem falar no design final do pacote. De acordo com Tulio, o sócio francês foi imprescindível para a tarefa. “O [Fonzie] é um artista nato, e conseguiu traduzir a nossa ideia em um produto excelente”, diz o brasileiro. “Nós trabalhamos em inúmeros protótipos de caixas até chegarmos na embalagem final, e felizmente conseguimos agradar os fãs do Mega Drive e até superar as expectativas que eles tinham a respeito do ‘Pier Solar’ – não somente da sua forma física, mas do jogo em geral”.

O aval da Sega também era essencial. Em 2009, durante a fase final do desenvolvimento do jogo, a equipe procurou entrar em contato com a própria gigante japonesa para ter certeza de que poderiam lançar o jogo. “Quando finalmente obtivemos resposta, a Sega agradeceu o contato e o uso de canais oficiais de comunicação. Porém, disse que como o Mega Drive não [é mais fabricado], ela não podia licenciar a nossa empresa”

“De qualquer forma”, termina, ”ficou claro também que eles não iriam nos impedir de lançar o jogo, visto que não utilizássemos o logotipo da Sega nas embalagens”.

No lado escuro de Reja

“Pier Solar and the Great Architects” é, inicialmente, centrado em três jovens: O herbolista Hoston, a historiadora Alina e o inventor Edessot. Rudy, pai de Hoston, encontra-se em estado terminal de uma doença, e os três amigos partem para o  lado sombrio da floresta cerca a cidade de Reja.

Após encontrarem a erva, porém, os jovens encontram um jardim perdido no meio de uma sessão desconhecida da floresta. No meio desta área encontra-se uma estátua de uma deusa antiga. Hoston e seus amigos retornam a Reja, mas a curiosidade os leva a voltar o jardim, e assim a maior aventura de suas vidas tem início…

“Para mim, os melhores RPGs são aqueles em que os personagens começam o jogo numa tarefa mundana e acabam tendo que salvar o mundo no final”, diz Tulio, que cita “Chrono Trigger”, “Phantasy Star IV” e, principalmente, a série “Lunar”.

De fato, mesmo com as diversas alterações ao formato, a equipe de desenvolvimento de “Pier Solar” sempre procurou manter a essência do projeto: uma grande homenagem aos RPG japoneses clássicos dos anos 90. E mesmo quem não possuía grandes conhecimentos tecnológicos ou artísticos pôde contribuir com críticas e sugestões aos criadores.

“Nós valorizamos a opinião de muitos dos jogadores que tiveram uma experiência densa com o ‘Pier Solar’ e, na maioria dos casos, estes jogadores são experts em jogos 16-bit e na era do Mega Drive”. De acordo com Tulio, mesmo que nem todas as ideias tenham sido implementadas, várias foram ao menos consideradas, e algumas mudanças na história do jogo surgiram de sugestões dos entusiastas.

VEJA COMO FICOU "PIER SOLAR" EM ALTA DEFINIÇÃO

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Sementes de melancia

“Pier Solar and the Great Architects” foi lançado oficialmente em dezembro de 2010, primeiro jogo a ter lançamento oficial para o Mega Drive em mais de uma década. A ideia era de criar apenas algumas cópias para o público do fórum Tavern, mas o projeto ganhou popularidade pela mídia, e a demanda aumentou significativamente. Uma nova leva de cartuchos será lançada junto com “Pier Solar HD”, incluindo uma versão com menus e legendas em português, que pode ser comprada por US$ 60 pela loja oficial da empresa, que pode ser acessada por aqui.

Tulio já havia se mudado para os Estados Unidos em 2007, transferido pela empresa em que trabalhava na época. Mesmo após deixar o emprego, continuou em Iowa, agora como presidente e cofundador da Watermelon Corp.

A operação ainda é pequena, e ainda dependente de talento de fora: A sede é formada por apenas três pessoas, com cerca de 28 colaboradores trabalhando em várias partes do mundo, contribuindo com  vários elementos de jogo - programação, design, arte, etc. Segundo Tulio, “alguns deles são freelancer, outros são parceiros”.

E esta mão de obra extra foi necessária para completar “Pier Solar HD”, que traz as aventuras de Hoston e seus amigos para hardware utilizado pelo público geral atualmente. Além de melhorias audiovisuais, o enredo também foi expandido. “Como não há restrição de espaço, como no Mega Drive, pudemos incluir fatos importantes da história que tiveram que ser cortados na versão original, e irão fazer com que o jogador entenda ainda mais cada personagem até a conclusão do jogo”.

A versão do jogo para Wii U terá funcionalidades extras para seu GamePad, sendo possível ver atalhos ou “um radar de baús” pela tela do controle. No PC, o jogo foi aprovado pelo programa Steam Greenlight, e estará disponível pela plataforma digital em breve.

Caso seja nostálgico por outro console ou geração passada, o jogo também estará disponível para Dreamcast, último console produzido pela Sega.

CONHEÇA A VERSÃO DE "PIER SOLAR" PARA MEGA DRIVE

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Ainda que o jogo não seja mais exclusivo do Mega Drive, porém, a Watermelon não vai se afastar dos entusiastas de Mega Drive e SNES, tendo criado o Magical Game Factory, um site com projetos específicos para os consoles clássicos, e com um processo de desenvolvimento diferente.

“Nós recebíamos - na verdade, isso acontece até hoje - frequentemente mensagens de jogadores dizendo que sempre quiseram criar um jogo para o Mega Drive ou o SNES, mas que aquilo parece um sonho quase impossível, afinal não é uma tarefa simples de ser concretizada”.

Sendo assim, a Watermelon encontrou um meio termo, que Tulio descreve como um desenvolvimento “semi aberto”: Interessados podem investir nos projetos por meio das chamadas GEMS - cada uma custando 10 centavos de dólar -, e além de receberem benefícios, podem opinar sobre qual caminho de desenvolvimento o jogo deve seguir, por meio de questionários, pesquisas e votações. Atualmente, o programa tem cerca de 3 mil membros cadastrados.

“O maior desafio - como é de se esperar - é o de conseguir um equilíbrio justo quanto ao resultado final, que agrade a maioria de nossos investidores”, diz Tulio. “Mas nós fazemos sempre o melhor que está ao nosso alcance para que os jogos superem a expectativa de todos”.

Atualmente, o Magical Game Factory se dedica a duas iniciativas: Um é o Projeto Y, um beat ‘em up com elementos de RPG em um mundo cyberpunk para o Mega Drive; Já o Projeto N, para Super Nintendo, é descrito vagamente por Tulio, mas tudo indica que é um projeto ambicioso, “uma coisa completamente nova neste aspecto. Não está se baseando em nada para ser construído e, honestamente, pode ter quem ame e quem odeie o jogo”.

O futuro segue promissor, com dois novos projetos ainda a serem anunciados e, quem sabe, uma versão de “Pier Solar” para plataformas mobile, dependendo do progresso em cada um dos fronts do estúdio. Acima de tudo, o brasileiro valoriza a possibilidade de seguir por caminhos diferentes como um estúdio pequeno e sem supervisão de publisher ou outros grandes interesses.

“Ser independente significa que temos liberdade de ousar, de quebrar os limites e fazer coisas fora de padrões estabelecidos”, comenta Tulio, orgulhoso. “No futuro é possível que criaremos jogos sem antes passar pelos consoles antigos”.

“Tudo está em aberto. Afinal, temos essa independência a nosso favor”.

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