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Além do Jogo: Daltonismo, acessibilidade e o cara que joga "Zelda" sem enxergar

GUILHERME SOLARI

Colaboração para o UOL

27/04/2011 09h10

Os daltônicos são só a ponta do iceberg da busca da acessibilidade em um mercado que tem até gamers deficientes visuais

Se um companheiro de equipe estiver te enchendo de chumbo durante uma partida de "Call of Duty: Modern Warfare 2" ele pode não ser um troll, mas um daltônico. Está vendo as cores diferentes para cada equipe no minimapa? Eu não.



Sou daltônico. Descobri durante uma aula de biologia do colégio quando a professora apontou para um desses testes cheios de bolinhas explicando que daltônicos não enxergavam aquele "47" no centro da imagem e eu me virei ao colega ao lado e perguntei: "Que 47?"

Daltonismo

Fora ter de constantemente responder que cor eu enxergo aqui, ali e acolá sempre que descobrem que sou daltônico, o impacto é quase nulo na minha vida. Mas como gamer, encontro entraves vez ou outra, e descobri que praticamente todo jogador daltônico tem uma história curiosa devido à sua dificuldade em diferenciar algumas cores. O colega de redação e de daltonismo Rodrigo Guerra tem na ponta da língua o caso marcante dele: "Chrono Cross". "Tive que abandonar tudo porque não conseguia usar o sistema de magia de combinar as cores", lamenta.

A minha história pessoal foi recente, jogando "Call of Duty: Modern Warfare 2" por um belo tempo até descobrir que os outros jogadores podiam diferenciar as duas equipes no minimapa do jogo. Percebi que tinha duas soluções: 1) Me certificar visualmente do alvo antes de atacar 2) Atirar antes e fazer perguntas depois matando o companheiro ou no mínimo dando um belo susto no coitado e entregando nossa posição. Eu costumava escolher a segunda, o que não fez maravilhas para a minha popularidade online. Ei, que reclamem com a Infinity Ward que não se deu ao trabalho de lançar um patch para resolver esse problema apesar de uma forte campanha por jogadores daltônicos que afinal desembolsaram dinheiro como todos os outros.

Se quiser saber como os daltônicos vêem o mundo, visite o site Vischeck, que traz diversos exemplos de como diferentes tipos de daltônicos vêem as cores e permite até mesmo "daltonificar" qualquer imagem.

Está vendo esse 6 na imagem acima? Se não estiver, bem vindo ao clube dos daltônicos



Acessibilidade

É de interesse para as desenvolvedoras se preocuparem com o daltonismo, já que cerca de 12% da população masculina (casos femininos existem, mas são raros) tem algum tipo de distúrbio na percepção de cores. O guia de pista de "F1 2010" mudava de verde para vermelho indicando quando acelerar ou frear; "Star Control 2" dava a pista de "encontrar a estrela amarela dentro da constelação verde"; certos quebra-cabeças de "Lego Indiana Jones" necessitavam a combinação de blocos de cores semelhantes. Tudo inútil para daltônicos. Daltonigamers também encontraram problemas com "Killzone 3" e a Guerilla Games disse que vai lançar um patch em breve para tornar mais óbvia as diferenças entre inimigos e a companheiros.
 

Reprodução
A PopCap é uma empresa que sempre mostra preocupação de incluir modos para daltônicos em seus jogos. Está vendo as bolinhas cinzas e pretas no modos daltônico de "Zuma Blitz"? Eu também!

Talvez a forma mais simples de se certificar é usar diferenciações por tom e não por cor. Se você misturar verde escuro com amarelo claro, a diferença se torna perceptível até para pessoas com visão cromática, que enxergam apenas preto e branco (por esse motivo nós daltônicos não vemos só uma bola azul flutuando sobre um fundo verde na bandeira do Brasil). Alguns jogos possuem um "modo daltônico", que permite a mudança das cores para algo mais perceptível. Isso é comum em muitos jogos de quebra-cabeça com diversas pecinhas de cores diferentes, como "Puzzle Quest" e "Zuma".

Mas o daltonismo é apenas um caso mais comum a ser considerado na acessibilidade, já que existem jogadores com diferentes condições e necessidades. Jogadores com problemas de visão precisam de letras grandes, sendo que muitos textos se tornam minúsculos nas resoluções modernas. A capacidade de customizar a sensibilidade dos controles e os botões é essencial para usuários com deficiência motora que às vezes não conseguem apertar todos os botões. Deficientes auditivos precisam de legendas tanto para diálogos quanto para saber o que ocorre fora da tela, como uma modificação com legendas para "Doom 3" criado pela comunidade do jogo permitiu que o jogo pudesse ser apreciado pelos deficientes auditivos. "Nós apreciamos Half-Life como a obra-prima que é assim como qualquer outro jogador", escreveu o site DeafGamer.com, pelo fato do game ter legendas de som. "Mas 'Halo 2' não tem utilidade alguma para um gamer surdo".

Alguns jogos se tornam mais difíceis ou trazem funções impossíveis de serem utilizadas por jogadores daltônicos; como o sistema de magia de "Chrono Cross". Está vendo as diferentes cores do painel acima à esquerda? Eu não



O cara que joga "Zelda" sem enxergar

A veterana Nintendo afirmou recentemente a uma reportagem da BBC sobre daltonismo e games que é "impossível se adaptar às necessidades de 100% dos jogadores". E talvez o grupo mais difícil de todos nesse quesito seja o dos deficientes visuais. Isso não impede o aparecimento de casos surpreendentes como o do deficiente visual Terry Garrett, que joga "Oddworld: Abe's Exoddus" muito melhor do que muitos de nós, como podemos ver nesse speedrun abaixo.
 

Conheça a jornada de Terry Garret


"A primeira vez que eu ouvi o Abe falar 'Hello, follow me' eu fiquei interessado. Eu tinha acabado de perder a visão e precisava do som para me guiar," Garrett disse ao site oddworld.com. O título de plataforma cinematográfica "Oddworld: Abe's Exoddus" é riquíssimo em detalhes sonoros como alavancas, bombas, inimigos e as "chanting orbs". Além disso, quase tudo que Abe faz emite um som distinto como andar, correr, saltar, segurar em uma beirada para escalar, etc. Garrett utiliza todas essas dicas sonoras para "visualizar" cada tela. "Quando eu memorizo onde os obstáculos estão eu consigo formar uma imagem mental de como a tela está organizada e consigo navegar por ela".

Casos como o de Garrett mostram a diferença que um design de som de qualidade pode oferecer a um jogo, criando possibilidades que os desenvolvedores jamais imaginaram possíveis. "Eu acho muito inspirador que isso foi possível por algo que nós fizemos só para criar a ambientação", o criador da série "Oddworld" Lorne Lanning disse à Wired.com. Além disso, a capacidade de salvar a qualquer momento foi indispensável a Garrett, já que sua exploração envolve uma boa dose de tentativa e erro.

Garrett ainda manda bem em "Legend of Zelda", "Metroid", "Metal Gear Solid", "Super Mario Bros.", mas precisa ouvir amigos jogando para conseguir se guiar. Ultimamente tem jogado "The Legend of Zelda: Ocarina of Time" e consegue jogar sem ajuda nenhuma até cerca da metade, com alguma dificuldade para mirar os tiros do hookshot. Ironicamente, ele ainda não consegue passar daquele amaldiçoado Templo da Água, que empacou tantos jogadores, sejam eles daltônicos, deficientes auditivos ou visuais, ou apenas enfurecidos por ter que abrir o maldito menu um milhão de vezes para colocar aquelas infernais botas de ferro.

A coluna opinativa Além do Jogo trata do impacto dos games no chamado mundo real. Colaborou com a coluna Rodrigo Guerra na capacidade de consultor especial de assuntos daltônicos.