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Bienal, 70 anos

A história dos 70 anos da Bienal de São Paulo, dividida por décadas


Bienal, 70 anos #2: Boicote, arte interativa e artistas pop marcaram os anos 60

Do UOL, em São Paulo

10/07/2021 04h01

O segundo episódio do podcast "Bienal, 70 anos" traz neste sábado (10) histórias sobre a mostra, a sociedade e a cultura nos anos 60. Com apresentação de Marina Person, a coprodução do UOL e Fundação Bienal de São Paulo tem dez episódios e divide os primeiros deles em décadas. As publicações são sempre aos sábados --ouça o segundo episódio na íntegra no arquivo acima.

Nos 60, foi decretado no Brasil o Ato Institucional nº 5 (AI-5), enterrando qualquer esperança de liberdade de expressão no país. A censura cresceu e seu efeito não foi diferente na cultura.

bienal - Autor desconhecido/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo - Autor desconhecido/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo
Fachada da 10ª Bienal de São Paulo, realizada em 1969, que ficou conhecida como a Bienal do Boicote. Cerca de 80% dos artistas convidados se recusaram a participar do evento
Imagem: Autor desconhecido/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo

A pressão que o governo fazia no conteúdo das exposições gerou diversas situações complicadas. A primeira aconteceu em 1965, na cerimônia de premiação da 8ª Bienal. O presidente da época, Castelo Branco, estava no evento quando foi surpreendido por uma carta, entregue pela artista ítalo-brasileira Maria Bonomi. A carta pedia a liberdade de quatro ativistas, entre eles Mário Schenberg e Fernando Henrique Cardoso. Schenberg era crítico de arte e professor de Física da Universidade de São Paulo (USP). Fernando Henrique era sociólogo e viria a ser presidente do Brasil entre 1995 e 2002. Os dois estariam no evento se não estivessem sendo perseguidos pelo regime militar.

Na bienal seguinte —a 9ª, em 1967—, mais polêmica. A polícia federal retirou, minutos antes de a exposição abrir as portas, a obra da carioca Cybele Varela, por ser considerada "ofensiva". Tratava-se da pintura "O Presente", feita sobre uma espécie de caixa de madeira que, quando aberta, exibia a farda de um general com um mapa do Brasil. Na caixinha ainda tinha uma frase do Hino à Bandeira Nacional, que dizia assim: recebe um afeto que se encerra em nosso peito juvenil. Considerada uma afronta, a obra foi destruída. E Cybele quase foi presa.

pop - Agência Estado/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo - Agência Estado/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo
À esquerda da obra 'Marilyn', de James Gill, é possível ver intervenção do público, que protestou na sala especial Ambiente U.S.A. A nona Bienal ficou conhecida como Bienal do Pop
Imagem: Agência Estado/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo

Apesar disso, a nona bienal trouxe um conceito de obra de arte interativa, como foi o caso da brasileira Lygia Clark, que levou para a exposição peças que dependiam da participação do público. A Bienal do Pop, como ficou conhecida essa mostra de 67, foi um sucesso. Teve mais de 4 mil obras de 69 países diferentes.

Entre elas, peças de Andy Warhol, que é lembrado até hoje pelas serigrafias de celebridades como Marlyn Monroe e Elvis Presley. Também tinha quadros de Roy Lichtenstein, que ampliava cenas de histórias em quadrinhos cheias de ação e emoção. E uma sala dedicada ao pintor Edward Hopper, com 39 telas deste artista.

edward - Autor desconhecido/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo - Autor desconhecido/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo
Sala especial Edward Hopper, na 9ª Bienal. Mostra realizada em 1967 teve 39 telas deste artista
Imagem: Autor desconhecido/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo

Mas o fantasma da censura assombrava o país todo. Foram diversos eventos que antecederam a 10ª edição, conhecida por Bienal do Boicote, em 1969. E no texto que escreveu para o catálogo de abertura desta edição, Ciccillo Matarazzo, o criador da mostra, homenageou Costa e Silva, o presidente militar do momento. Essa postura diante da censura que crescia no país teve suas consequências e custou caro à bienal.

Mário Pedrosa, prestigiado crítico de arte que estava envolvido na produção de diversas bienais, escreveu uma carta em nome da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte), condenando os atos militares. No texto, Pedrosa incitou outros críticos a não participarem de premiações que tivessem algum envolvimento do governo —e isso incluía a Bienal de São Paulo. O comunicado incendiou mais a situação, fazendo com que Pedrosa tivesse que se exilar no Chile meses depois.

Um grupo de artistas brasileiros que estava na França reagiu. Eles se reuniram no Museu de Arte Moderna de Paris e escreveram um manifesto chamado "Non à la Biennale", recolhendo mais de 300 assinaturas de apoiadores. Não era uma decisão fácil boicotar um evento que funcionava como vitrine para os artistas. Mas esse foi o jeito que encontraram para denunciar a falta de liberdade que se vivia no país.

Cerca de 80% dos artistas a princípio convidados para expor suas obras na 10ª Bienal se recusaram a participar. Delegações de países como a Holanda, Estados Unidos, também foram canceladas ou reduzidas. Por isso, a 10ª Bienal foi apelidada de Bienal do Boicote.

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O artista Marcelo Nitsche em frente à instalação inflável 'Bolha Amarela', apresentada por ele na 10ª Bienal
Imagem: Autor desconhecido/Fundação Bienal de São Paulo/Arquivo Histórico Wanda Svevo

Se por um lado houve o boicote, por outro o júri oficial premiou artistas que eram abertamente contra o regime: alguns eram filiados ao Partido Comunista e até havia obras censuradas anteriormente. Como a montagem revolucionária da peça "O Rei da Vela'', dirigida por Zé Celso, que ganhou o prêmio de melhor cenário. Apesar do contexto, a Bienal do Boicote teve público, obras de destaque --como a instalação inflável Bolha Amarela, do paulistano Marcello Nitsche-- e agradou uma parte de seus visitantes.

Além de muitas histórias e curiosidades, este episódio do podcast traz entrevistas com a jornalista e crítica de arte Leonor Amarante e o artista Claudio Tozzi. Tem também áudios de arquivo com o artista Marcello Nitsche e com a artista plástica Carmela Gross.

No décimo episódio, o podcast trará respostas para perguntas do público sobre arte e o evento. Mande sua dúvida para o email 70anos@bienal.org.br, que ela pode ser respondida.

Você pode ouvir Bienal, 70 Anos, por exemplo, no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music, no Youtube e também no site bienal.org.br/70anos.