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Ricardo Feltrin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Opinião: 4º 'bate-volta' político de Datena alivia e irrita a Band

José Luiz Datena no "Brasil Urgente", da Band - Reprodução/Band
José Luiz Datena no "Brasil Urgente", da Band Imagem: Reprodução/Band
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

03/07/2022 00h09

Na semana passada, pela 4ª vez em seis anos, o apresentador José Luiz Datena desistiu na última hora de concorrer a um cargo eletivo por São Paulo.

Até 2015, ele foi filiado ao PT. No ano seguinte já havia se filiado ao PP e anunciado que pretendia concorrer a prefeito de São Paulo. Desistiu.

Em 2018 o cargo a ser disputado seria o de senador (SP). Também mudou de ideia na hora "agá".

Já em 2020 ele se preparou para concorrer a prefeito ou vice-prefeito em SP, e também pulou do barco nos estertores do prazo.

Este ano, após meses, fez mais um "bate-volta" e abriu mão de concorrer ao Senado (de novo!), mesmo com apoio do presidente Jair Bolsonaro.

Troca de cascas

A mudança de espectro ideológico e pessoal do apresentador do "Brasil Urgente, da Band, certamente é caso a ser estudado por cientistas políticos: como alguém vai da esquerda (PT) à extrema-direita louca por um golpezinho de Estado (Bolsonaro) em sete anos?

Politicamente, Datena hoje ilustraria até uma adaptação de "meme":

"O que se passa na cabeça dele? Quais suas ambições, interesses e influências? O que estaria tramando? Veja esta noite, no 'Globo Repórter'."

Entre o alívio e a ira

O anúncio de sua quarta desistência na semana passada causou reações diferentes. De um lado houve um alívio com a decisão, que garante a continuidade do "Brasil Urgente" e de sua equipe.

O programa policialesco / cotidiano nem dá faturamento expressivo para a emissora, mas tem um papel estratégico fundamental na programação: é ele que, com sua média de 4 a 5 pontos diários de ibope, tem a responsabilidade de elevar a audiência e alavancar a programação em horário nobre.

Por outro lado, a coluna ouviu também relatos desanimados de funcionários já cansados e / ou irados com essa ladainha de vai sair, não vai sair candidato.

3 funções sociais

A verdade é que, independentemente de sua (nova ou velha) ideologia política, Datena tem na TV ao menos três funções sociais:

Uma, a de levar informação ao telespectador (ou conteúdo que ele consuma, que seja);

A segunda, com a própria Band, sua empregadora que sempre o apoiou, lhe paga regiamente e lhe abre espaço inclusive para fazer propaganda política de si mesmo a cada dois anos.

Por fim, a terceira função social, e não menos importante: a que Datena tem com sua equipe, e de deixá-la insegura uma vez a cada dois anos --justamente em anos eleitorais, quando cortes de pessoal nas emissoras são sempre esperados

Nesse caso, justiça seja feita, o apresentador já fez mais do que lhe cabe em anos passados, durante a pior fase da crise na Band, por exemplo, chegou a abrir mão de parte de seu salário para que integrantes do programa não fossem demitidos.

Mas, como dito alguns parágrafos acima, ninguém faz ideia do que se passa na cabeça de José Luiz Datena, 65 anos.

No entanto, não é preciso ser analista político ou crítico de TV para perceber que, a cada desistência, ele perde cada vez mais a coerência de discurso de quem vai "arrumar as coisas".

A cada ida e vida, ou troca de partido, ele também perde um pouco de sua credibilidade e força como comunicador.

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