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Ricardo Feltrin

Exclusivo: Até 1.000 filmes da Cinemateca podem já ter sido perdidos

Cinemateca Brasileira, em São Paulo - Van Campos/Estadão Conteúdo
Cinemateca Brasileira, em São Paulo Imagem: Van Campos/Estadão Conteúdo
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

31/05/2021 00h09

Fechada há quase 15 meses, a Cinemateca brasileira e seu acervo já estão em estado de deterioração material, segundo fontes ouvidas por esta coluna nos últimos dias.

As fontes pedem para ser mantidas em anonimato pois temem represálias dos mandantes da secretaria federal da Cultura, inclusive de seu titular, Mário Frias —que até anda armado durante o trabalho em Brasília, segundo testemunhas.

Segundo esta coluna apurou, entre 600 e 1.000 filmes podem já ter sido perdidos completamente. O número de rolos perdidos (cada filme muitas vezes está em mais de um) é ainda incontável.

A Cinemateca tem catalogados hoje cerca de 90 mil filmes das mais diferentes áreas e épocas. No total são mais de 250 mil rolos, o que faz do acervo nacional um dos maiores do mundo.

Parte desse acervo —a que remonta à primeira metade do século passado— foi feita com nitrato de celulose ou "Nitrocelulose" [C6H7(NO2)3O5]n

Além de altamente inflamável, sem manutenção adequada e tratamento especial, inclusive de temperatura, os filmes com nitrocelulose "vinagram", além de colocar em risco todas as instalações do acervo.

A filmagem, grosso modo, "derrete" em meio a reações químicas temporais do material em que está e se perde.

Corredor da morte e da vida

Segundo as fontes ouvidas pela coluna, centenas de filmes já estavam no chamado "corredor da morte" mesmo antes de a Cinemateca ter sido fechada. Os rolos precisavam ser imediatamente restaurados.

Só que, apesar do nome, esse "corredor" era a última chance de "vida" para esses filmes.

Não só isso NÃO aconteceu como os rolos posteriormente foram submetidos a piores condições ambientais ainda, e é praticamente certo que seu conteúdo tenha se perdido para sempre.

O conteúdo de boa parte deles está digitalizado, mas o material original pode ter sido perdido para sempre.

Parte do acervos que já necessitava de tratamento especial antes mesmo de o governo Bolsonaro ter fechado e abandonado a Cinemateca era da FEB (Força Expedicionária Brasileira) antes e depois da Segunda Grande Guerra.

Só em agosto

A previsão de funcionários do governo federal é que a Cinemateca seja reaberta somente em agostos.

No entanto foi feita uma perícia no local semanas atrás, a pedido do Ministério Público Federal —que vem investigando o "imbroglio" entre o governo e a Acerp (fundação Roquette Pinto) desde o ano passado.

A perícia identificou vários problemas na manutenção do prédio e do acervo, como esta coluna já tinha antecipado em 2020.

Por isso, a data de "agosto" pode se atrasar ainda mais.

Há centenas de projetos de cineastas (inclusive estrangeiros) e empresas parados no momento por causa do fechamento do acervo.

Outro lado

Ninguém da Secretaria de Cultura ou que tenha acesso à Cinemateca ainda foi localizado para comentar o assunto até a publicação deste texto.

Se e quando alguém o fizer, será incluído aqui.

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