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Ricardo Feltrin

Análise: Serviços de streaming enfim acordaram para a pirataria

Os parceiros de streaming Disney+ e Globoplay - Reprodução / Internet
Os parceiros de streaming Disney+ e Globoplay Imagem: Reprodução / Internet
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

18/02/2021 08h37

Resumo da notícia

  • Foco da pirataria sai da TV paga e agora mira mais streaming
  • Piratas já copiaram todo o acervo dos serviços de streaming
  • Combate a esse tipo de pirataria é mais difícil que o da TV paga
  • Consumo de streaming cresceu 180% no Brasil em 1 ano

Até que demorou alguns anos, mas a ficha caiu para os executivos do streaming: finalmente líderes de grandes empresas como Netflix, Globoplay, Amazon, e Disney perceberam os bilhões (sim, bilhões!) que estão tendo de prejuízo devido à pirataria.

Essas empresas finalmente estão entrando numa batalha inglória que vem sendo travada solitariamente há mais de 20 anos somente por canais pagos, a ABTA (Associação Brasileira das TVs por Assinatura), a Receita e as Polícias Federal e Civil.

E quando falamos em prejuízo bilionário, ponham bilionário nisso:

Explico: o último estudo que estimou os prejuízos causados pela pirataria no Brasil é de 2018, e ele praticamente só açambarcava os canais pagos e (ainda) a pirataria de DVDs.

Esse trabalhoso estudo cruza dados do Censo, do ibope, e ainda inclui uma pesquisa com o telespectador pelo Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

Estudo caro

O estudo com o Pnad ajuda a entender e mensurar a pirataria (entre outros temas), mas, por ser caro, não é feito com frequência.

Voltemos ao presente. Se em 2018 a estimativa foi que as operadoras e canais pagos estavam perdendo pelo menos R$ 10 bilhões anuais com pirataria de conteúdo, e só os governos estariam perdendo quase R$ 1,5 bilhão anual em impostos, imaginem os valores atuais com os novos conteúdos.

E é esse justamente o problema: desde 2018, não é mais a TV paga o alvo principal dos piratas, e sim os serviços de streaming.

Somente entre 2019 e 2020 o consumo dessa nova mídia subiu mais de 180%, como esta coluna informou com exclusividade no ano passado.

Especialistas ouvidos para esta reportagem dizem não duvidar de que o prejuízo somado entre TV paga e streaming já deva ter passado dos R$ 15 bilhões só no Brasil. Se não for ainda maior.

Daí a a necessidade que apontam de ser feito um novo cruzamento de dados e pesquisas com o recorte do Pnad.

Streaming é outra conversa

O problema é que combater a pirataria de streaming é muito mais difícil que a dos canais pagos.

Graças à disseminação de venda de caixas (legalizadas, é bom dizer) de IPTV (Internet Protocol Televison), distribuidores de pirataria estão dando um verdadeiro "nó" em empresas como Netflix, Globoplay e Disney.

Por exemplo, hoje TODOS os acervos da Netflix, Globoplay ou da Amazon etc. podem ser acessados por várias caixas (chamadas também de "boxes TV") com apenas algumas mudanças na configuração do aparelho.

Os piratas (verdadeiras empresas sem sede física, na verdade) simplesmente baixam todo o acervo de filmes dessas empresas e os armazenam em servidores e sedes em países longínquos.

Um exemplo corriqueiro e material: Clayton Nunes, CEO da produtora de filmes eróticos Brasileirinhas, comprou uma "box TV" recentemente e descobriu que um dos canais acessíveis na caixa se chama justamente: "Brasileirinhas".

Ele descobriu que esse canal "pirata" tem todo o acervo de sua produtora (mais de 2.000 filmes) e o servidor está hospedado possivelmente num país do leste europeu. Sem apoio de governos, ele ou seus advogados não têm o que fazer.

Daí a importância que entidades como o ABTA e empresários veem para que governos e embaixadas passem a reforçar o combate à pirataria.

"Se nós ao menos descobrirmos em que países estão hospedados os servidores de pirataria, e se os governos colaborarem, pode ser que nós não ganhemos a luta, mas vamos dar trabalho para os criminosos e derrubar os servidores", afirma o CEO.

Outro lado

Procurada para comentar o assunto, a Globo enviou a seguinte nota oficial:

"A Globo tem o constante compromisso de defesa dos direitos autorais e a pirataria, que causa danos e é passível de punição, é alvo de nossa atenção.

Participamos ativamente de ações de combate à pirataria e de esclarecimento e compreensão a respeito da ilegalidade e dos riscos de sua utilização. Igualmente, utilizamos diversas tecnologias e estratégias de proteção ao nosso conteúdo."

Outro lado 2

Procurada, a Netflix não quis comentar.

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