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Ricardo Feltrin

Análise: E se o caso Melhem for só a ponta da pirâmide na Globo?

O humorista Marcius Melhem (Reprodução / Globo) - Reprodução / Internet
O humorista Marcius Melhem (Reprodução / Globo) Imagem: Reprodução / Internet
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

05/12/2020 09h54

Em novembro de 2017, o programa "Zorra Total" festejou 100 episódios de sua nova fase, iniciada dois anos antes.

Não deixou de ser surpreendente: um humorístico que já parecia acabado reviveu das cinzas.

O novo "Zorra" não só cresceu no Ibope, como agradou até mesmo a nós, críticos de TV rabugentos. Ficou mais inteligente, mais politizado, menos tacanho.

Um dos mais engajados nas mudanças e responsável por esse renascimento foi, definitivamente, Marcius Melhem.

Embora não tivesse de fato ainda assumindo cargo de diretor, ele já dava as cartas, os papéis e assinava roteiros. Ele só respondia a Silvio de Abreu, que nunca notou nada, por sua vez.

Quando assumiu a direção do humor de fato, Melhem passou a ser bajulado por jornalistas. Gostava de ser chamado de "o novo poderoso do humor". A esta altura Melhem já estava na Globo havia cerca de 12 anos. Seria seu auge profissional,

Escritor, roteirista, ator, ele já tinha atuado em novelas como "Mulheres Apaixonadas", por exemplo, e em outras produções da casa.

Na verdade sua grande vitrine foi "Os Caras de Pau", um (excelente e hilário) humorístico semanal que nasceu como quadro do "Zorra Total" nos anos 2000 —e no qual contracenava com o talentoso e divertido Leandro Hassum.

Ele mudou

Falei com pessoas que trabalharam com ele por anos.

Conversamos por telefone e mensagens, desde a manhã de ontem —quando a revista Piauí voltou a relatar (em brilhante reportagem) que o humorista e ex-executivo agiu como assediador sem ser impedido.

Todas as pessoas ouvidas pela coluna pediram anonimato, pois não querem ser expostas.

Em comum, todas concordam com uma coisa: existia um Melhem roteirista, talentoso, focado e que conviveu com os colegas antes de assumir o poder.

Depois que se tornou executivo, ele se transformou, afirmam.

Ou melhor, diz uma das testemunhas: ele se revelou. Mudou de personalidade.

Ter um cargo de direção, ter salário e bônus vultosos, o poder de decidir o rumo e o destino de colegas (especialmente mulheres) provavelmente fez a abrir a jaula e fez aparecer o que ele —aparentemente— escondia.

Os elogios dentro e fora da Globo, o sucesso e, principalmente, o poder subiram à cabeça.

Melhem passou a se sentir seguro naquele ambiente a ponto de —supostamente— ameaçar prejudicar colegas profissionalmente (Calabresa diz ter sido impedida por ele de trabalhar numa produção com Miguel Falabella.

Se ele estava agindo de forma confortável há um porém.

Figurantes que querem flertar ou dar bola e sair com produtor; uma atriz que se apaixona por um repórter? Uma jornalista que se casa com um câmera?

Temos tudo isso na Globo: repórter que casa com apresentar esportivo? O problema não é da casa.

A Globo tem casos, namoros, relações fugazes, namoros e casamentos em suas dependências há décadas. Mas uma coisa é o flerte. Outra, o assédio

Pior: enquanto supostamente (sou obrigado a usar esse advérbio até o trânsito em julgado) assediava, boicotava, ameaçava as meninas, ele passou a falar como um arauto da ética no humor.

Em abril do ano passado tratou de detonar publicamente um colega de profissão, Danilo Gentili, no maior evento de audiovisual do Brasil.

Do alto de sua própria montanha moral, citou até o Código Penal contra o humorista do SBT,

O fato de Melhem ter passado anos nessa posição de poder, na maior TV do país, para (também) se locupletar (fisicamente), indica e reforça várias coisas.

A saber:

1 - Não é certo dizer que o poder corrompe, na verdade ele apenas revela quem de fato uma pessoa é;

2 - A Globo —assim como muitas outras empresas— só deixam de "passar pano" para assediadores depois que elas próprias são encostadas na parede ao lado deles;

3 - A cultura corporativa do assédio seguia vigente na Globo ainda neste ano de 2020, a despeito de direção da casa ter criado em 2015 uma estrutura de "compliance" (transparência);

4 - O assédio teria seguido nos bastidores mesmo depois do rumoroso escândalo envolvendo Zé Mayer —ator denunciado por uma figurinista em 2017;

5 - Não fosse a determinação e extrema coragem de uma pessoa —Dani Calabresa—, Melhem certamente ainda estaria lá no Projac ditando os rumos profissionais alheios de acordo com seu caráter e seus desejos inconfessos.

Por fim, apurei a Globo tem menos de 15 mil funcionários e revela ter recebido umas 3 mil denúncias entre 2015 e 2019.

Claro, não são casos só de assédio (de qualquer tipo: moral, profissional etc.), mas representam um incidente para cada quatro funcionários.

Não sou "coach" corporativo, mas é óbvio que alguma coisa está MUITO errada na cultura de qualquer empresa com esses números.

Outro lado - Melhem

Neste domingo, a assessoria da defesa do ator, roteirista e humorista Marcius Melhem enviou a seguinte nota à coluna. Nela, ele admite que errou, quer reparar seus erros e afirma que jamais foi um "predador".

Veja a íntegra da nota:

"Caro Ricardo

Li sua análise baseada em fontes anônimas de que de autor dedicado virei um "predador" que encurrala mulheres nos corredores da TV ao me tornar executivo, há 3 anos. O off é um recurso consagrado, mas poucas vezes na história foi usado tão sem parcimônia para destruir uma pessoa sem abrir espaço para a dúvida e o direito de defesa. Permita-me, por favor, chamar sua atenção para alguns pontos.

1 - Eu não fui executivo da TV Globo por três anos, mas por um ano e meio.

2 - Na matéria da Folha, assinada pela colunista Mônica Bergamo, está dito que a maioria das situações relatadas, inclusive a da Dani Calabresa, teria acontecido antes de eu ser diretor. E agora esse grupo do off diz que eu teria mudado e me tornado um predador quando me tornei executivo da empresa.

3 - A expressão "encurralar vítimas em corredores" tem sido repetida a todo momento. Conheci poucos lugares no mundo com mais câmeras do que a Rede Globo. Que corredores são esses? Ninguém passa por eles? Jamais isso foi visto ou relatado? Na revista Piauí me acusaram, em off, de invadir o camarim do Projac para ver a Dani Calabresa de maiô em uma gravação que, na verdade, aconteceu sem minha presença, em ambiente externo, a vários quilômetros do Projac.

(nota: a coluna publicou a expressão "encurralar em corredores", mas a retirou por não haver provas até o momento)

4 - Seu texto adjetiva a matéria da "Piauí" como "brilhante". É uma opinião, devo respeitá-la, mas, se for possível, permita-me dizer que o fato de ter muitos detalhes não a torna verdadeira. Aliás, a Mônica Bergamo, citada na "Piauí", foi ao Twitter no mesmo dia explicar que a pequena parte que citava ela estava errada. Imagine a minha parte!

Ricardo, muitos foram meus erros. Quero reconhecê-los e me responsabilizar por eles. Mas permita-me fazer um apelo à consciência daqueles que lincham sem considerar o direito à dúvida, baseados em uma narrativa sem provas e sem considerar a hipótese de haver motivações inconfessáveis por trás de acusações anônimas."

Outro lado - Globo

"A Globo não comenta questões de "compliance", mas reafirma que todo relato de assédio, moral ou sexual, é apurado criteriosamente assim que a empresa toma conhecimento. A Globo não tolera comportamentos abusivos em suas equipes e incentiva que qualquer abuso seja denunciado.

Neste sentido, mantém um canal aberto para denúncias de violação às regras do Código de Ética do Grupo Globo. Por esse Código, assumimos o compromisso de sigilo do processo, assim como o de investigar, não fazer comentários sobre as apurações e tomar as medidas cabíveis, que podem ir de uma advertência até o desligamento do colaborador. Mesmo nas hipóteses de desligamento, as razões de "compliance" não são tornadas públicas.

Somos muito criteriosos para que os estilos de gestão estejam adequados aos comportamentos e posturas que a Globo quer incentivar e para que as medidas adotadas estejam de acordo com o que foi apurado. Não foi diferente nesse caso. O acolhimento e a empatia com quem relata situações de violação do Código de Ética são pontos essenciais do programa de "compliance" da empresa.

Isso não quer dizer que os processos de "compliance" sejam estáticos. Ao contrário.

Eles evoluem constantemente para acompanhar as discussões da sociedade. As práticas e as avaliações são revistas o tempo inteiro, assim como são propostas e acolhidas sugestões de melhoria nos mecanismos de comunicação interna. A própria sociedade está se transformando e a empresa acompanha esse processo."

Ricardo Feltrin no Twitter, Facebook, Instagram e site Ooops

Errata: o texto foi atualizado
Por erro do autor, o texto original informou num trecho que os casos de assédio sexual na Globo eram "milhares". Não são, como o próprio texto informava (corretamente) adiante. Os casos de assédio sexual representam 1% das denúncias ao "compliance" do Grupo Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL