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Diretor de 'Quebrando Mitos': 'A homofobia me deixou uma cicatriz'

Colaboração para Splash, do Rio

28/09/2022 11h30

Pouco antes da eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, o cineasta Fernando Grostein e o ator e cantor Fernando Siqueira decidiram fazer as malas. Foram para a California, de onde acompanharam os acontecimentos dos últimos quatro anos no Brasil. De lá, acabam de lançar o documentário "Quebrando Mitos", tema da conversa com Zeca Camargo no "Splash Entrevista" desta semana.

Lançado diretamente no YouTube, o filme se propõe a revelar a "masculinidade catastrófica" de Jair Bolsonaro sob o ponto de vista do casal, LGBTQIA+.

Diretor de "Quebrando o Tabu" (2011), Fernando Grostein nunca gostou de ficar na frente das câmeras. "Por ter vivido em ambientes homofóbicos, isso tem um peso em mim. Cresci vendo 'Trapalhões' com piadas homofóbicas", recordou.

São coisas que minam a sua autoestima. Em mim, ficou uma cicatriz, que é uma dificuldade muito grande de me expor sem me entender como um 'lixo'.

Ainda assim, Grostein narra e expõe sua vida no documentário. Algo que não estava planejado inicialmente.

O filme tem dois pólos: um escuro, do fascismo, e outro, da resistência, da delicadeza. Por isso, tem uma flor no pôster. E a minha vida começou a servir de contraponto à do Bolsonaro no filme.

'A masculinidade catastrófica ameaça a todos nós'

No programa do UOL, Fernando Grostein explicou o conceito que move o documentário.

"Masculinidade tóxica é quando um homem interrompe uma mulher a toda hora, abre as pernas no trem e tira o espaço dos outros, é machista e homofóbico numa família", explicou. "Ele provoca danos a um indivíduo ou pequeno grupo, que às vezes são fatais."

A masculinidade catastrófica é ainda pior:

Masculinidade catastrófica é quando um homem causa dano a uma comunidade, um país, um continente, ao planeta.

Para os diretores, o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e Bolsonaro são exemplos acabados de "masculinidade catastrófica".

O documentário é sobre essa estrutura de poder, sobre masculinidade catastrófica e como isso ameaça a nós, brasileiros. O que eu abri da minha vida foi a serviço de contar essa história.

Limites borrados

Os diretores de "Quebrando Mitos" contaram para Zeca Camargo que, em princípio, Fernando Siqueira não participaria da produção. Mas o companheirismo o fez entrar na empreitada.

"O filme tem imagens e temáticas muito pesadas", disse Siqueira. "E o Fê estava já num processo de dois anos de edição, esgotado de tanto ver essas imagens."

Com o apoio de Siqueira - e de colaboradores no Brasil e nos EUA - o documentário chegou a seu corte final. "Entrei para ajudar a editar e decidir alguns caminhos a seguir", disse.

Para Grostein, a ajuda foi fundamental para a sua própria saúde.

A gente que trabalha com mergulhos profundos em material, e começa a borrar os limites da sua vida com o material que você está assistindo. Você começa a absorver aquilo.

'Ideias podres não têm salvação'

Apesar de expor com crueza as feridas - recentes e antigas - do Brasil, os diretores não queriam que "Quebrando Mitos" soasse soturno demais.

"Um dos pontos que eu quis ressaltar no fim do filme é que a luta é pela Humanidade", contou Grostein, que sonha com a reunião de familiares que se distanciaram por conta da política nos últimos tempos.

Muitas dessas pessoas com ideias podres não têm salvação. Mas dentro das famílias também temos muitas pessoas queridas. A gente acha que o filme pode ajudar no diálogo.

Grostein observou que "quase toda família com setores conservadores tem um LGBTQ, e quase todo LGBTQ tem uma família com setores conservadores.

E o diálogo é muito ruim. Tem horas, como diz Gilberto Gil no filme, que precisamos ter uma espada na mão; em outras, precisamos de uma rosa.

Splash Entrevista

Apresentado por Zeca Camargo, o programa recebe artistas e celebridades para um papo sincero sobre vida e carreira. Os episódios são disponibilizados toda quarta, a partir das 10h, no canal de Splash no YouTube e no UOL.