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Amor de repórteres da Globo teve ataques e chegou ao sonho do casamento

Erick Rianelli e Pedro Figueiredo se casaram em julho deste ano - Ana Carolina/Fotógrafa em Buenos Aires
Erick Rianelli e Pedro Figueiredo se casaram em julho deste ano Imagem: Ana Carolina/Fotógrafa em Buenos Aires

De Splash, no Rio

14/09/2022 04h00

Quase dez anos juntos, os jornalistas Pedro Figueiredo, de 30 anos, Erick Rianelli, de 29, se casaram recentemente em uma cerimônia no Alto da Boa Vista, bairro do Rio de Janeiro. A festa foi cheia de grandes inspirações e virou destaque nas redes sociais.

Pedro e Erick se conheceram enquanto estudavam na faculdade e trabalham na redação da TV Globo no Rio desde 2012 e 2013, respectivamente. Eles já são rostos conhecidos dos cariocas, mas vêm ganhando destaque nacional no telejornalismo da emissora nos últimos anos.

Os jornalistas já tinham união estável e moravam juntos desde 2018, mas viam como um contrato burocrático. Pedro sempre teve o sonho de casar de verdade, o que aconteceu em uma cerimônia íntima para parentes, madrinhas e padrinhos no dia 2 de julho.

"Tem um simbolismo muito grande. O nosso direito de casar é recente e ainda amparado em uma decisão judicial, já que nosso Congresso sempre se rende ao obscurantismo de não reconhecer a nossa existência como casal. O Erick, para a minha felicidade, embarcou nesse sonho. E foi, de fato, a realização de um sonho. Pensamos em cada detalhe, em cada momento. E tudo saiu do jeito que imaginávamos. Aproveitamos também para casar no civil. Separamos toda a documentação, demos entrada no processo e celebramos nossa mudança de estado civil minutos antes da festa numa cerimônia íntima", diz Pedro.

A crítica do jornalista ao Congresso Nacional diz respeito ao fato de que o casamento civil entre pessoas do mesmo gênero foi oficialmente reconhecido no Brasil não pela aprovação de leis específicas, como em outros países, mas sim por uma decisão da Justiça.

Em 2011, o STF (Supremo Tribunal Federal) permitiu a união estável entre casais do mesmo gênero partindo ao interpretar como inconstitucional o tratamento diferenciado entre casais heteroafetivos e homoafetivos. Dois anos depois, nova decisão judicial levou o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) a aprovar resolução determinando aos cartórios que realizem os casamentos civis.

Já concretizamos muitos planos e sonhos juntos e vamos atrás dos próximos: orgulhosos do nosso passado, ansiosos pelo futuro e, principalmente, felizes no presente.
Pedro Figueiredo

Em conversa com Splash, eles contam ainda que ficam felizes por se tornarem referência LGBT no telejornalismo para outras pessoas.

"Crescemos em uma época que não havia representatividade. Quando as pessoas falam que se espelham na nossa trajetória, nos emociona. Mas isso nunca foi planejado pela gente. Foi tudo muito natural. Estamos juntos há quase dez anos e entendemos que não tínhamos por que esconder isso de ninguém", conta Erick.

"As pessoas que vieram antes de nós abriram portas para que nós pudéssemos falar da nossa sexualidade sem medo. E isso é um ciclo virtuoso. Tomara que, de alguma maneira, a gente possa contribuir para que novas gerações de jornalistas se empoderem ainda mais", prossegue Pedro.

Preconceito

No Dia dos Namorados de 2020, Erick virou assunto após mandar um recado romântico para o amado no final de um telejornal. No ano seguinte, o vídeo voltou a viralizou e eles receberam ataques. As agressões viraram tema de reportagem no "Jornal Nacional", momento em que William Bonner se solidarizou com o casal.

"O 'Bom Dia Rio' abriu espaço para que os repórteres daquele dia se declarassem para os seus amores. Eu era o único repórter LGBT naquele momento. E, assim como meus colegas, fiz minha declaração de amor para o Pedro. Foi uma situação de improviso e eu faria isso mil vezes, se pedissem, sem me preocupar", lembra Erick.

"Recebemos alguns ataques. Felizmente tivemos o suporte de amigos, parentes e da empresa. A sociedade evoluiu e tem gente que, infelizmente, insiste em não embarcar no ônibus da mudança, da pluralidade. Esse foi o único episódio de preconceito que vivemos relacionado ao trabalho", completa ele.

Eles nunca esconderam a sexualidade, mas Pedro já teve medo de reações negativas por expor a relação publicamente após se tornar repórter em 2016.

"Somos privilegiados por termos famílias que nos acolheram. A gente nunca escondeu nossa sexualidade para os amigos e colegas de trabalho. E falávamos abertamente sobre isso nas nossas redes, mas elas eram fechadas. Em 2016, quando me tornei repórter, abri minhas redes e tive medo. Mas o Erick me deu muita força e reforçou que tínhamos que ser nós mesmos. Assim fomos e estamos sendo", diz Pedro.

"Já eu virei repórter em 2019 e o caminho já estava aberto nesse sentido. Na época em que o Pedro se tornou repórter, conversamos e decidimos seguir. Não havia motivos para ser diferente. Nós nos amamos, temos orgulho de quem somos, do que temos um pelo outro e jamais daríamos algum passo atrás por medo de reações negativas", completa Erick.

Parceria no amor e na profissão

Pedro e Erick ganharam destaque nacional ao cobrir os atentados de Barcelona, na Espanha, em 2017. O casal estava de férias na região quando soube do ocorrido e teve de trabalhar no improviso. Essa é, inclusive, a cobertura que mais marcou o casal.

"Estávamos na praia e num estalo começamos a cobrir um acontecimento gigantesco com os poucos recursos que tínhamos. Foi uma experiência profissional ímpar. Tivemos que lidar com o imprevisto, com o ineditismo da situação e com a responsabilidade de contar aquele acontecimento. Aprendemos muito um com o outro. Pude viver essa experiência ao lado de um colega que admiro e, ainda por cima, é o amor da minha vida", conta Erick.

Pedro também destaca outra reportagem: a que identificou funcionários fantasmas da Alerj (Assembleia Legislativa do RJ). "Foram meses percorrendo diversas cidades do estado, fazendo ligações, cruzando dados e checando com fontes. Não podíamos errar. E não erramos. Depois veio o reconhecimento quando fomos indicados ao Emmy - o Oscar da TV mundial", comemora Pedro.

Os dois atualmente trabalham na cobertura das eleições deste ano. O contexto de polarização política nacional impõe desafios ao trabalho diário. "Nessas andanças pelo Rio, me deparo com telespectadores que reconhecem o papel e a relevância da imprensa. Mas também com pessoas que agem com hostilidade. Estamos treinados para lidar com esse tipo de situação, mas, claro, que incomoda", diz Erick.

"Atacar o jornalismo faz parte de um projeto maior de desconstrução das instituições que protegem a democracia. Eu acredito que, apesar das tentativas de descredibilizar nosso ofício, o período de pandemia nos trouxe como ensinamento que a informação de confiança está no jornalismo profissional", pensa Pedro.